Brasil e México resistem à hostilidade e à interferência de Trump e da direita latino-americana

Claudia Sheinbaum e Lula | Foto: Ricardo Stuckert/PR

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17 Agosto 2026

Os esquerdistas Lula e Sheinbaum demonstram seu alinhamento e determinação sem fechar as portas ao diálogo ou romper laços com Washington.

A reportagem é de Naiara Galarraga Gortázar e Carlos S. Maldonado, publicada por El País, 16-08-2026.

Os contatos entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, de 80 anos, e Claudia Sheinbaum, de 64, estão se tornando cada vez mais frequentes, à medida que os Estados Unidos buscam, a passos largos e sem restrições, sua hegemonia nas Américas. Os dois líderes dos gigantes latino-americanos, os únicos países importantes da região governados pela esquerda, conversaram novamente nesta quinta-feira por videoconferência. Enquanto o presidente mexicano destacou em um tweet que Brasil e México “continuam a construir uma relação bilateral cada vez mais sólida”, a presidente brasileira enfatizou “a importância estratégica da colaboração bilateral”. As duas maiores economias da América Latina estão fortalecendo os laços comerciais e diplomáticos, enquanto seus líderes endurecem a retórica. Lula e Sheinbaum resistem ao ataque trumpista e à onda reacionária que varre o continente.

Lula, os Bolsonaros e o Brasil se preparam para eleições cruciais em outubro, com a eleição de presidente, governadores e membros do Congresso. Essa votação também é fundamental para o movimento internacional de direita liderado por Donald Trump, fortalecido pelas sete vitórias conquistadas na América Latina desde que o republicano retornou ao poder em janeiro de 2015.

O Brasil é um jogo importante. O duelo entre esquerda e direita, Lula e Flávio Bolsonaro, parece formidável, a julgar pelas pesquisas. A última, de sexta-feira, dá ao candidato de esquerda 43% contra 40% do candidato de extrema-direita. "Para os democratas da região, há muito em jogo", diz uma fonte diplomática brasileira.

Michael Shifter, ex-presidente do Diálogo Interamericano e um dos analistas de política hemisférica mais influentes de Washington, enfatiza que “estes não são dois países quaisquer. Eles representam mais da metade do PIB e da população da América Latina. Eles têm uma capacidade maior de resistir às pressões de Washington.”

O pesquisador destaca as limitações de cada país: enquanto o Brasil tem mais margem de manobra devido à sua autonomia comercial e aos laços com a China, a relação do México com seu vizinho do norte é de constante assimetria e tensão: “Com Trump, parece que tudo o que Sheinbaum faz para tentar satisfazê-lo nunca é suficiente. Trump sempre exige mais”. Shifter afirma que “não há desejo de iniciar uma briga com o governo Trump, mas existem incentivos para estabelecer certos limites”. Uma disputa, aliás, que eles não iniciaram.

Quando o mundo era previsível, Lula gostava de pregar a paz e o amor como uma fórmula imbatível para alcançar o progresso. O brasileiro busca agora um quarto mandato em meio à interferência declarada de Washington e cercado por governos de direita com os quais tenta manter uma relação fluida para preservar o papel central do Brasil na região, evitar o isolamento e porque acredita firmemente no poder do diálogo e da negociação, que estão no DNA de seu país. "Ele nunca foi sectário; tinha boas relações com Bush Jr., Uribe, Sarkozy...", enfatiza a fonte diplomática mencionada anteriormente, que relembra seus encontros com os líderes da Bolívia, Chile, Equador, Panamá, Paraguai...

A relação amistosa entre octogenários que Lula e Trump demonstravam agora é coisa do passado. O governo brasileiro acredita que o magnata já escolheu seu candidato para as eleições brasileiras: Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e golpista condenado Jair Bolsonaro, a quem Lula acusa de trair a nação ao instigar uma série de ataques dos EUA contra o Brasil.

Washington usou a mesma estratégia para pressionar Lula e Sheinbaum: chantagem comercial, obstáculos à obtenção de vistos — para o embaixador brasileiro, filho do ex-presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador e secretário de organização do Morena, um governador — e a declaração de cartéis e grupos criminosos como terroristas.

O receio é que esta última medida seja um pretexto para um potencial ataque militar dos EUA aos seus territórios. Stephen Miller, chefe de gabinete adjunto de Trump, chegou ao ponto de afirmar que os cartéis de droga são "o ISIS e a Al Qaeda do Hemisfério Ocidental e devem ser tratados com a mesma brutalidade e falta de misericórdia".

Envolto na bandeira brasileira, Lula se apresenta como o grande defensor da soberania brasileira contra ataques e uma situação que, não muito tempo atrás, pareceria inacreditável. “Precisamos investir em defesa. Quero estar preparado para que ninguém invada este país e sequestre o presidente, como fizeram”, proclamou em um comício recente, referindo-se à Venezuela. Ele também pretende que o Brasil comece a fabricar drones. “Como vamos controlar 16 mil quilômetros de fronteira? A pé? Sem drones, não dá para controlar.”

Com os Estados Unidos em plena ofensiva para consolidar sua dominância na região — seja por meio de uma cúpula com aliados militares no Panamá e vídeos educativos sobre a Doutrina Donroe, sua supervisão da Venezuela, sanções tarifárias ou operações militares conjuntas no Equador e na Colômbia — o Brasil de Lula descarta a política de apaziguamento. O país acaba de acionar os mecanismos para responder a Washington com tarifas.

Governar o México durante o segundo mandato de Trump tornou-se um verdadeiro exercício de equilíbrio para o presidente Sheinbaum, que enfrenta uma Casa Branca determinada a minar o comércio bilateral com a ameaça constante de tarifas punitivas, enquanto simultaneamente emprega a retórica mais agressiva em décadas: a possibilidade de intervenção direta em solo mexicano para combater organizações criminosas. A equação é complexa para um governo forçado a conter o impacto em uma economia profundamente interligada à de seu vizinho do norte.

“Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos!” Essa máxima, atribuída a Porfirio Díaz, define com precisão essa relação historicamente tensa. A luta diária não se resume mais a conter as exigências de um líder imprevisível, mas a demonstrar que o México pode cooperar em segurança e comércio sob condições de reciprocidade, como argumenta o governo mexicano.

Diante da chantagem econômica representada pela revisão do acordo comercial entre México e EUA, Sheinbaum mantém abertos os canais da diplomacia institucional e evita o confronto direto que o magnata nova-iorquino tão prontamente explora. No entanto, sua margem de manobra se reduz quando a retórica de Washington toca na soberania, que para o presidente é inegociável. Para o México, a suspensão discricionária de vistos é um instrumento de coerção política, uma interferência no período que antecede as eleições federais de 2027.

México e Brasil reconhecem a atual relação entre os presidentes Lula e Sheinbaum, mas, sempre vigilantes na defesa de sua soberania, respeitam a autonomia um do outro. Os planos para uma visita do presidente Sheinbaum ao Brasil ainda não se concretizaram e, considerando o cronograma atual, só ocorreriam após as eleições.

Para Carolina Moehlecke, da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, “o desafio é enorme porque o Brasil funciona melhor em ambientes estáveis”. Particularmente grave é a deterioração das relações com a Argentina, principal destino das exportações industriais brasileiras, e com os Estados Unidos, o maior investidor direto. “Em um cenário de polarização extrema como o atual, os ataques externos não unem mais os países; eles os dividem por linhas ideológicas internas”, explicou ela esta semana em um seminário sobre as eleições. E com o problema adicional, acrescentou, de que “isso alimenta os incentivos dos candidatos a promoverem certas mensagens”. E isso se torna um ciclo vicioso.

O esquerdista Lula, à frente de um país de 210 milhões de habitantes, a quarta democracia mais populosa do mundo, promete não se curvar a Washington ou seus aliados: “Nos oporemos firmemente a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou a uma posição de dependência geopolítica”, afirma em seu programa eleitoral.

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, diplomata veterano, criticou em um artigo publicado há alguns dias as tentativas de "reimpor uma lógica de lei da selva ao mundo". Ele também alertou que "o Itamaraty [como é conhecido o Ministério das Relações Exteriores] não deixará de reagir, sempre com profissionalismo, às manobras de desinformação e à grosseria dos aspirantes a predadores e seus apoiadores locais [referindo-se aos Bolsonaro]". A diplomacia brasileira mantém-se ponderada e comprometida com a reação proporcional. Às ofensas sem precedentes e vulgares proferidas pelo argentino Javier Milei contra Lula, o país respondeu retirando seu embaixador.

Shifter, analista do Diálogo Interamericano, explica que o atual cenário complexo reflete uma transformação estrutural mais ampla em toda a região. Ele argumenta que as ações da Casa Branca alteraram drasticamente a relação bilateral com o México: “Direitos humanos e democracia desapareceram da agenda. Todo o foco no fortalecimento das instituições e na proteção e defesa dos direitos humanos perdeu, no mínimo, grande parte de sua importância”, explica.

Para Shifter, esse recuo perturba o equilíbrio regional: “Washington essencialmente deu sinal verde para qualquer projeto autoritário que um líder na América Latina possa empreender”, alerta ele. “A ideologia importa menos hoje em dia. Isso cria um campo bastante aberto para que regimes de direita ou de esquerda eliminem os mecanismos de controle e enfraqueçam, senão destruam, o Estado de Direito”, destaca.

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