13 Mai 2026
"O que a viagem demonstra, contudo, é o grau em que a política eleitoral brasileira se tornou inseparável da disputa global por alinhamento, soberania e patronagem das grandes potências."
O artigo é de Guilherme Casarões, professor associado de Estudos Brasileiros, Universidade Internacional da Flórida, publicado por The Conversation, 07-05-2026.
Eis o artigo.
Com o encontro de Luiz Inácio Lula da Silva e do presidente Donald Trump na Casa Branca, em 7 de maio de 2026, muitos observadores nos dois países prenderam a respiração. Como não houve declaração conjunta oficial nem coletiva de imprensa, ninguém sabia o que esperar. Apesar da suposta “química” entre os dois presidentes na Assembleia Geral das Nações Unidas em setembro passado, as tensões bilaterais estavam longe de resolvidas.
O encontro entre os dois presidentes poderia ter tomado muitos rumos: à primeira vista, Brasil e Estados Unidos atualmente se posicionam mais como rivais geopolíticos do que como aliados. Nos últimos meses, Lula fez várias críticas ao que considera um renovado unilateralismo norte-americano. O governo Trump, por sua vez, parece receptivo às demandas da família do ex-presidente Jair Bolsonaro em relação à liberdade de expressão e ao crime organizado.
Mas Lula queria que a conversa fosse bem-sucedida, não tanto por preocupações diplomáticas, mas porque enfrenta uma batalha difícil nas eleições de outubro. Sua viagem a Washington foi, acima de tudo, uma operação política doméstica. Mesmo que o encontro tenha carecido de resultados concretos, o clima positivo relatado por ambos os presidentes foi uma vitória para Lula no contexto de uma corrida presidencial que já se desenha como uma das mais importantes da história recente do Brasil.
Flávio Bolsonaro, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso, construiu um formidável desafio eleitoral. As pesquisas agora o mostram em empate técnico com Lula em um eventual segundo turno, uma posição notável para um candidato cuja herança política inclui um pai condenado por tentativa de golpe de Estado.
O senador de extrema direita fez várias viagens aos Estados Unidos nos últimos meses, incluindo uma participação na conferência conservadora CPAC, projetando-se como o candidato capaz de restaurar a relação do Brasil com Washington após anos do que descreve como um desvio antiamericano de Lula. Sua mensagem ao eleitorado brasileiro é simples e poderosa: apenas um Bolsonaro pode trabalhar com Trump.
Essa narrativa encontrou eco em um eleitorado brasileiro cada vez mais atento aos alinhamentos geopolíticos. Este não é o Brasil de ciclos eleitorais anteriores, em que a política externa era um tema secundário.
Trump como linha de sobrevivência
Desde o retorno de Trump à Casa Branca, o movimento bolsonarista retrata o presidente norte-americano como uma linha de sobrevivência, não apenas capaz de manter Jair Bolsonaro fora da prisão, mas também de ajudar no retorno político de seu movimento. Flávio teria prometido concessões significativas a Washington em relação a minerais de terras raras, classificações de narcoterrorismo e comércio, apresentando isso como prova de lealdade a um governo que a família Bolsonaro considera amigável e ideologicamente alinhado.
Se Trump retribuirá ou não essa lealdade de maneira significativa é quase irrelevante. A imagem de membros da dinastia Bolsonaro em Washington, recebidos pelo establishment MAGA, já é por si só um ativo eleitoral.
Essa é precisamente a vulnerabilidade que Lula viajou a Washington para neutralizar. Ao garantir uma reunião na Casa Branca, o presidente brasileiro enviou um sinal claro ao público doméstico: a relação com Washington não está rompida e não precisa de um Bolsonaro para ser consertada. A coletiva de imprensa apenas com jornalistas brasileiros após a reunião serviu para reforçar esse ponto.
Mas a viagem cumpre uma segunda função, igualmente importante. Cada item da agenda bilateral corresponde diretamente a uma linha de fratura eleitoral doméstica para Lula. Sobre comércio e tarifas, Lula retorna ao Brasil podendo afirmar que luta para proteger exportadores e consumidores brasileiros das pressões inflacionárias de uma guerra comercial. Sobre crime organizado — especificamente a possível designação norte-americana das facções PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras — o presidente pode apresentar-se como defensor da soberania brasileira e da autonomia judicial, resistindo à interferência externa na política de segurança interna. Sobre minerais de terras raras e recursos estratégicos, Lula pode reformular o que é, essencialmente, uma negociação sobre dependência econômica como uma narrativa da crescente influência geopolítica do Brasil.
E sobre a própria democracia, o contraste com a família Bolsonaro não poderia ser mais evidente: enquanto o pai permanece em prisão domiciliar por planejar um golpe, eles não conseguiram impedir que Lula fosse recebido em Washington como um chefe de Estado legítimo (e amistoso).
Pragmatismo político
Seria um erro, contudo, reduzir a disposição de Trump em receber Lula a uma mera cortesia diplomática. O governo Trump demonstrou um pragmatismo consistente por trás de sua postura ideológica. Sua condução das relações com o México de Claudia Sheinbaum, seu engajamento intermitente com a Venezuela e agora sua recepção a Lula sugerem que a Casa Branca pode trabalhar com adversários ideológicos quando os interesses estratégicos assim exigem.
O Brasil, maior economia da América do Sul e país com reservas substanciais de minerais críticos cobiçados por Washington para suas cadeias industriais e de defesa, é importante demais para ser refém de simpatias eleitorais pela família Bolsonaro. Há também um cálculo regional mais amplo: à medida que os Estados Unidos afirmam sua primazia na América Latina por meio do que ficou conhecido como o “Corolário Trump”, ter um governo brasileiro cooperativo é muito mais útil do que um governo desestabilizado.
Nada disso significa que a aposta de Lula em Washington terá sucesso eleitoral. Flávio Bolsonaro provou ser um candidato mais disciplinado e adaptável do que seu pai, e as redes transnacionais que impulsionam o movimento bolsonarista vão muito além de Washington. Uma única foto na Casa Branca tem peso limitado.
O que a viagem demonstra, contudo, é o grau em que a política eleitoral brasileira se tornou inseparável da disputa global por alinhamento, soberania e patronagem das grandes potências. Nessa disputa, Lula fez seu movimento. Isso dificilmente mudará a opinião daqueles que, à esquerda ou à direita, já decidiram seus candidatos. Mas mostra ao eleitor centrista, acima de tudo, que uma defesa pragmática da soberania brasileira pode ser muito mais eficiente do que uma submissão ideológica a interesses estrangeiros.
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