Além de dizer não: a resposta da Igreja ao suicídio assistido

Foto: OSV News/Gregory A. Shemitz

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13 Agosto 2026

"O debate sobre o suicídio assistido continuará. As leis podem mudar. Decisões judiciais virão e irão. Maiorias políticas irão se alternar. Mas a vocação da Igreja permanece constante. Somos chamados não apenas a proclamar que a vida é sagrada, mas a tornar essa verdade visível na maneira como nos acompanhamos uns aos outros até o fim", escreve Enzo Del Brocco, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 12-08-2026.

O padre Enzo Del Brocco é um sacerdote passionista e acadêmico que atualmente atua como presidente da União Teológica Católica em Chicago.

Eis o artigo.

Enquanto quatro ordens de freiras católicas contestam a lei de suicídio assistido de Nova York em um tribunal federal, Illinois se prepara para implementar sua própria Lei de Opções de Fim de Vida para Pacientes Terminais em 12 de setembro. A lei chega ao estado natal do primeiro papa americano, Leão XIV, que pessoalmente apelou ao governador JB Pritzker para que não a sancionasse, assim como o cardeal Blase Cupich, de Chicago. O que antes era hipotético para muitos católicos agora está se tornando parte da vida pastoral cotidiana.

A Igreja sempre ensinou que tirar intencionalmente a vida humana é irreconciliável com a dignidade humana. Esse testemunho continua sendo essencial. No entanto, outra questão se impõe agora com igual urgência: se o suicídio assistido está se tornando parte do cenário jurídico, o que os católicos estão dispostos a oferecer como alternativa?

Com muita frequência, o debate público apresenta apenas duas opções: prolongar o sofrimento por meio de tratamentos onerosos ou acelerar a morte por meio do suicídio assistido. A tradição católica sempre rejeitou essa falsa dicotomia. A Igreja não exige o uso de todas as intervenções médicas possíveis, nem aceita o fim intencional da vida. Em vez disso, propõe um caminho de acompanhamento, cuidados paliativos, tratamento proporcional e presença compassiva.

O desafio é que esses princípios precisam se tornar visíveis na experiência vivida.

Muitas pessoas que solicitam o suicídio assistido não o fazem simplesmente por causa de dor física. A medicina paliativa moderna fez progressos extraordinários no controle de muitas formas de sofrimento. Os pacientes frequentemente temem se tornar um fardo, perder a independência, enfrentar o isolamento, esgotar seus recursos ou perder o sentido da vida. Esses não são meramente problemas médicos. São problemas profundamente sociais, relacionais e espirituais.

Nenhuma legislação, por si só, pode resolver esse tipo de sofrimento. A solidão tornou-se uma das doenças que definem a sociedade moderna, e nenhum remédio pode curar a ausência de amor, de pertencimento ou de esperança.

O processo judicial em Nova York nos lembra que a alternativa da Igreja não é meramente teórica. Por gerações, as Irmãs Dominicanas de Hawthorne cuidaram de pobres moribundos com câncer incurável, enquanto as Irmãzinhas dos Pobres e as Irmãs Carmelitas dos Idosos e Enfermos garantiram que os idosos não fossem deixados para morrer sozinhos. Ironicamente, essas mesmas comunidades — cujos ministérios incorporam uma cultura de acompanhamento — seriam obrigadas, pela lei de Nova York, a aconselhar pacientes sobre suicídio assistido ou encaminhá-los para esse procedimento, na ausência de uma decisão judicial.

É preciso dizer, porém, que, por mais inspirador que seja o testemunho dessas comunidades religiosas, ele não pode substituir a vocação de toda a Igreja. Se professamos que toda vida humana possui dignidade inviolável até a morte natural, será que nossas paróquias incorporam essa convicção? Sabemos quem está cuidando de um cônjuge com demência, de um pai ou mãe com doença terminal ou de um ente querido no fim da vida? Acompanhamos cuidadores exaustos e aqueles que não têm família alguma? Ou deixamos esse trabalho em grande parte para sistemas de saúde sobrecarregados e para algumas poucas ordens religiosas, enquanto limitamos nosso próprio testemunho a nos opormos à legislação?

Nossa resposta não pode consistir apenas em opor-se à legislação. Deve também consistir na construção de comunidades em que a escolha da morte se torne menos atraente porque as pessoas sabem que não enfrentarão o sofrimento sozinhas. A credibilidade do nosso testemunho moral depende de aqueles que sofrem encontrarem cristãos antes de se depararem com o desespero.

Tudo começa com o fortalecimento dos ministérios de acompanhamento. Cada paróquia deve considerar como pode identificar e apoiar aqueles que vivem com doenças terminais, deficiências crônicas ou idade avançada. Voluntários podem visitar os que estão acamados, oferecer transporte para consultas médicas, preparar refeições, proporcionar descanso aos cuidadores exaustos, acompanhar famílias em cuidados paliativos e permanecer presentes após um falecimento, oferecendo apoio ao luto. Esses atos comuns proclamam uma verdade extraordinária: o valor de uma pessoa não depende de sua produtividade, independência ou saúde.

As instituições católicas de saúde também têm a oportunidade de aprofundar seu testemunho, ampliando o acesso a cuidados paliativos de alta qualidade, assistência espiritual, consultoria ética e apoio para famílias que enfrentam decisões médicas difíceis. Nesse sentido, elas já são líderes: um relatório anterior do Centro para o Avanço dos Cuidados Paliativos constatou que os hospitais administrados por católicos estão entre os mais propensos a oferecer cuidados paliativos — aproximadamente nove em cada dez. O objetivo não é meramente recusar a participação no suicídio assistido, por mais importante que seja a objeção de consciência. É demonstrar que o cuidado compassivo não exige o fim intencional da vida.

A sociedade em geral também tem responsabilidade. Muitas famílias desejam cuidar de seus entes queridos em casa, mas não possuem os recursos financeiros, a flexibilidade no trabalho ou o apoio da comunidade para fazê-lo. A maioria já paga do próprio bolso — o Instituto de Políticas Públicas da AARP estima que o cuidador familiar médio gasta cerca de US$ 7.200 por ano, aproximadamente um quarto da renda típica de um cuidador — e muitos reduzem suas horas de trabalho, suas economias ou suas próprias carreiras para continuar. Os cuidadores enfrentam esgotamento, perda de renda e profundo isolamento. Os serviços de saúde mental continuam sendo disponibilizados de forma desigual: de acordo com a Administração de Recursos e Serviços de Saúde (HRSA) federal, em dezembro de 2025, cerca de 137 milhões de americanos, aproximadamente 40% da população, viviam em áreas designadas como carentes de profissionais de saúde mental. Os cuidados paliativos também ainda estão fora do alcance de muitas comunidades; o Centro para o Avanço dos Cuidados Paliativos relata que apenas cerca de um quinto dos hospitais rurais com mais de 50 leitos os oferecem, em comparação com a grande maioria dos hospitais urbanos. Essas deficiências merecem muito mais atenção do que normalmente recebem. Uma sociedade verdadeiramente compassiva não responde ao sofrimento oferecendo a morte como solução. Ela cria as condições que permitem às pessoas viver com dignidade até o fim de suas vidas, cercadas pelo cuidado, apoio e presença humana de que necessitam.

O Papa Francisco alertou repetidamente contra o que chamou de "cultura do descarte", lembrando-nos que as sociedades se revelam pela forma como tratam os mais fracos e dependentes. Sua preocupação ia muito além de qualquer questão ética específica. Ele defendeu os nascituros, os migrantes, os prisioneiros, as pessoas com deficiência, os pobres e os idosos porque cada um reflete a mesma verdade fundamental: a dignidade humana nunca depende da utilidade ou da autonomia.

Leão continua a insistir que a verdadeira liberdade nunca é exercida isoladamente, mas sim dentro de relações de responsabilidade mútua e solidariedade. A resposta mais profunda ao sofrimento não reside num maior controlo individual sobre a morte, mas sim em comunidades mais fortes, dispostas a partilhar os fardos da vida.

O debate sobre o suicídio assistido continuará. As leis podem mudar. Decisões judiciais virão e irão. Maiorias políticas irão se alternar. Mas a vocação da Igreja permanece constante. Somos chamados não apenas a proclamar que a vida é sagrada, mas a tornar essa verdade visível na maneira como nos acompanhamos uns aos outros até o fim.

Se nossa sociedade mede cada vez mais o valor humano pela autonomia e independência, a igreja deve se tornar o lugar onde a dignidade é medida de forma diferente. Toda pessoa, independentemente da idade, doença ou dependência, deve saber que nunca é um fardo a ser controlado, mas sim um irmão ou irmã a ser amado(a). Essa talvez seja a resposta mais convincente da igreja ao suicídio assistido.

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