"Marrocos cresce, mas os jovens fogem; Ceuta é um alerta para toda a Europa". Entrevista com Rachid Niny

Foto: Anadolu Agency

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12 Agosto 2026

O diretor do Al Akhbar e TeleMaroc, ele próprio um ex-migrante irregular na Espanha, jornalista e escritor afirma: "Ceuta é um alerta: temos uma bomba-relógio chamada juventude. A Europa continua a nos ver através das lentes do passado".

A entrevista com Rachid Niny é de Karima Moual, publicada por La Stampa, 10-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Você viveu na Espanha como migrante irregular entre 1997 e 2000. Ao ver milhares de jovens marroquinos dirigir-se a Ceuta, você enxergou neles o jovem Rachid Niny?

Cheguei legalmente, com um visto de um mês para cobrir uma conferência nas Ilhas Canárias como jornalista. Não fui, em vez disso, segui para Benidorm, onde vivi como imigrante irregular por três anos. Desde então, as caravanas de migrantes que sonham com a outra margem nunca pararam. O que aconteceu não é novidade, embora o número e a dimensão coletiva dessa onda sejam impressionantes.

Enquanto houver oferta e procura, essas cenas continuarão: o mercado da imigração irregular não conhece recessão. Não podemos responder apenas com arame farpado, fronteiras e medidas de segurança. Temo o pior se continuar a crescer essa enorme reserva de jovens dispostos a arriscar a vida por um paraíso que só existe na imaginação deles.

E, no entanto, você conheceu esse "paraíso". Em seu livro, você conta que passou de um mestrado em poesia contemporânea para lavar pratos e limpar chiqueiros. Por que eles continuam a sair do país?

Também são vítimas de um sistema de ensino público falido. Cerca de 300 mil estudantes abandonam a escola todos os anos, engrossando as fileiras de um exército de adolescentes sem diploma ou formação. Sonham com uma Europa que garanta moradia, emprego, salário e assistência médica. É uma imagem falsa, mas eles acreditam que, mesmo que não dê tão certo, nunca será pior do que a situação deles no Marrocos. É difícil convencer uma pessoa desesperada de que a grama do vizinho não é mais verde.

Mas o Marrocos de hoje não é o mesmo que você deixou em 1997.

Naquela época, o país estava afundado em dívidas e o desemprego atingia níveis recordes. Hoje, temos rodovias, investimentos em energias alternativas, portos que competem com os maiores do mundo e uma economia crescendo perto de 5%.

O problema é que os frutos desse crescimento não são percebidos pelos milhões de pobres nas camadas mais baixas da pirâmide social. Esse é o paradoxo: ontem, o Marrocos corria risco de uma parada cardíaca por dívidas e estagnação. Hoje, o país cresce, chovem investimentos estrangeiros, mas corre o risco de sofrer uma parada cardíaca social.

Ceuta é o sintoma de algo mais profundo?

É um alerta que tanto o Marrocos quanto a Europa precisam levar a sério. Estamos separados por apenas 17 quilômetros, mas, em termos de incompreensão mútua, parecem 17 séculos. A emigração faz parte do destino do marroquino, mas não pode ser a solução para todos os problemas. Precisamos reduzir as desigualdades que geram pobreza e exclusão e que fornecem a pólvora necessária para a explosão.

Na Europa, muitos atribuíram ao Marrocos a culpa pelo ocorrido.

Existe uma responsabilidade compartilhada. Um país não pode terceirizar a segurança de suas fronteiras. Há décadas, o Marrocos vem desmantelado redes de imigração ilegal e cooperando com as autoridades europeias. Mas a Europa precisa parar de nos ver como os guardas de suas fronteiras.

O que vimos em Ceuta é apenas pobreza?

Não. Entre os jovens que chegaram, havia operários, funcionários de hotéis e trabalhadores de padarias e cafés. Alguns entraram na água ainda vestindo seus uniformes de trabalho. Um deles chegou ainda com a gravata-borboleta. A pobreza, sozinha, não explica essa migração coletiva.

Nas fábricas, as pessoas estão pedindo demissão devido a salários muito baixos em relação ao custo de vida, condições precárias e jornadas exaustivas. As pessoas buscam uma remuneração condizente com seu esforço. Não estão mais dispostas a aceitar uma situação de escravidão no trabalho.

E qual é o papel das redes sociais?

Existe uma epidemia global chamada 'influenciadores'. Em um país onde 55% dos jovens entre 18 e 29 anos sonham em emigrar, os conteúdos sobre emigração conseguem um número enorme de visualizações. Entre aqueles que entraram em Ceuta, havia influenciadores que transformaram a travessia em conteúdo de milhões de visualizações, tornando-se referências para outros jovens. Filmar o cotidiano e ganhar a vida pelas plataformas tornou-se o emprego ideal para milhões de jovens. É uma catástrofe global.

Então, qual é a principal emergência do Marrocos?

O fracasso do sistema público de ensino. Hoje, pagamos o preço por ter adiado sua reforma. Sem ela, continuaremos produzindo jovens sem educação e formação, que não terão outro desejo senão ir embora. As pessoas não podem comer estradas e instalações.

Os boletos não desaparecem só porque nos orgulhamos do desenvolvimento do país. As pessoas precisam sentir esse crescimento em seu próprio bolso. Com um salário mínimo de cerca de 300 euros, o que um jovem que está começando a vida deve fazer? Ele vai comprar uma roupa de banho e vai para a praia mais próxima em busca de uma viagem rumo ao desconhecido.

Qual foi a mensagem de Ceuta transmitiu à classe dominante?

Uma mensagem claríssima: vocês têm uma bomba-relógio chamada juventude e precisam desarmá-la antes que ela destrua tudo.

E qual é o erro da Europa quando olha para o Marrocos?

Continuar a vê-lo com as lentes do passado. A Europa precisa entender que não é mais o centro do universo.

Você também passou um tempo na prisão por causa do seu trabalho jornalístico. O que essa experiência lhe deixou?

A prisão faz você descobrir outros olhos, olhos secretos que você tinha em sua cabeça e que nunca havia usado antes. Ela o imuniza contra as ilusões que os intelectuais criam sobre seu próprio papel e contra a vaidade alimentada pelo público. Não é fácil ser um jornalista independente no Marrocos, nem em qualquer outro lugar, aliás. A verdade é incômoda em toda parte.

Após a migração e a prisão, você poderia ter deixado o Marrocos. Por que ficou?

Porque o Marrocos não é apenas um país de problemas, mas também de possibilidades e oportunidades. Ele avança em seu próprio ritmo: avança muito lentamente, mas avança. Eu poderia ter ido embora muitas vezes, mas percebi que não nasci para viver longe. Tiro o chapéu para os migrantes que decidem sacrificar tudo isso. É preciso uma grande coragem para deixar tudo para trás e emigrar. É isso que os europeus não veem ou talvez tenham esquecido.

O que é preciso fazer para que o Marrocos não tenha mais de chorar por seus jovens às portas de Ceuta?

Aumentar o salário mínimo para pelo menos 500 euros, aliviar a carga tributária sobre as empresas e condicionar os auxílios às famílias à frequência escolar dos filhos. Mas, em primeiro lugar, salvar e reformar o sistema público de ensino. Caso contrário, o governo terá de construir novas prisões para abrigar as multidões de adolescentes que acabam nas ruas todos os anos. Se vocês acham que o custo da educação é alto demais, experimentem o custo da ignorância.

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