Quem mata e quem morre: levantamento exclusivo traça o perfil dos feminicídios no RS

Foto: Maxim Hopman/ Unsplash

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11 Agosto 2026

Com base nos 42 feminicídios registrados entre janeiro e junho, o Sul21 revela padrões sobre vítimas, autores e a dinâmica dos crimes no estado.

A reportagem é de Pedro Stahnke, publicado por Sul21, 11-08-2026.

Uma mulher de 41 anos é morta a facadas dentro de casa em Porto Alegre. O autor do crime é um homem, companheiro da vítima, também de 41 anos. Ela deixa dois filhos. A vítima não tinha medida protetiva e não fez denúncia contra o companheiro, apesar de ter sofrido violência doméstica. O autor é preso em flagrante e tem a detenção convertida em prisão preventiva, onde aguarda julgamento.

Esse é o retrato construído a partir dos casos de feminicídios ocorridos entre 1º de janeiro e 30 de junho de 2026, conforme levantamento exclusivo feito pelo Sul21. A partir do registro de dados sensíveis a cada uma das 42 ocorrências, foram traçados dois perfis – da vítima e do autor do crime – com o objetivo de identificar as similaridades e as diferenças em cada um dos casos.

O retrato, embora trace uma linha que perpassa todos os casos, esconde particularidades sobre cada uma das vítimas. São vidas de mulheres, interrompidas entre 15 e 77 anos em todos os cantos do Rio Grande do Sul por uma ação premeditada de ódio ao gênero feminino.

Não se sabe a cor da vítima. Ainda que a aferição da cor ou raça seja possível no registro da ocorrência criminal, através de autodeclaração ou da observação fenotípica, tais registros nem sempre são feitos. Dentre os delegados e as delegadas da Polícia Civil questionados durante a realização deste levantamento, a informação não foi suficientemente respondida para que seja possível traçar um perfil racial.

Também fica escondida uma cadeia de violências que precedem o feminicídio, que, na maioria das vezes, não são registradas diante das autoridades policiais ou que são relativizadas na publicização dos feminicídios. Cerca de 45% das mulheres mortas não possuíam denúncia feita contra os agressores, enquanto pelo menos 38% tinham. Os 17% restantes não foram confirmados pelas respectivas investigações.

O mesmo ocorre com a concessão de medidas protetivas. Apenas nove das 42 vítimas tinham medida protetiva ativa no momento do feminicídio, o que corresponde a cerca de 21% das mulheres mortas. Pelo menos 23 vítimas (55%) nunca requisitaram uma medida protetiva contra os feminicidas.

Quatro delas haviam solicitado medidas anteriormente, que estavam inativas quando o crime ocorreu. Nos demais seis casos, não foi possível confirmar se o autor do crime esteve sob medida protetiva em qualquer momento do relacionamento.

O feminicídio ocorrido em Esteio em 17 de março, em que Claudio Francisco Davi da Silva, 60 anos, esfaqueou a ex-companheira de 39 anos na casa dela é sintomático no que diz respeito à eficácia dessa política de enfrentamento à violência contra a mulher. A vítima chegou a solicitar medida protetiva no mês anterior ao crime, no entanto, a determinação não estava ativa porque Claudio não foi encontrado pelo oficial de justiça para receber a intimação.

O próprio número de feminicídios registrados no primeiro semestre de 2026 é impreciso. De acordo com a Secretaria da Segurança Pública do Estado do RS (SSP-RS), são 41 as vítimas. Já a ONG Lupa Feminista contabiliza 50 mulheres mortas por razões de gênero no mesmo período.

As metodologias divergem, porém o levantamento em que se baseia esta reportagem conta 42 feminicídios por entender que a ocorrência do desaparecimento e morte suposta de Silvana Germann de Aguiar, 48 anos, junto de seus pais, Dalmira Germann de Aguiar, 70 anos, e Isail Vieira de Aguiar, 69 anos, representa um caso de duplo feminicídio.

Inicialmente, a investigação da Polícia Civil de Cachoeirinha – cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA) em que o crime ocorreu – indiciou o ex-companheiro de Silvana, Cristiano Domingues Francisco, por duplo homicídio e feminicídio. Contudo, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) entendeu posteriormente que a morte da mãe também se enquadra na definição do crime de feminicídio, já que ocorreu como maneira de ocultar um crime de ódio ao gênero feminino.

Justamente em razão do caso da família Aguiar, o número de feminicidas é inferior ao de ocorrências. São 41 pessoas: 40 homens, entre 17 e 78 anos de idade, e uma mulher. O episódio ocorrido em Ijuí, noroeste do estado, em que Maria Fernanda Morais Quevedo, 29 anos, matou a companheira a facadas no dia em que ela sairia da casa em que moravam para escapar das ameaças de morte sofridas é o único caso de assassinato em relacionamento lésbico tipificado como feminicídio registrado no Rio Grande do Sul em 2026.

Quase metade dos feminicidas tem passado criminal

A reincidência de crimes também é um fator observado pelo levantamento. Pelo menos 20 feminicidas têm antecedentes criminais, cerca de 48%. Dentro desse grupo, o crime mais comum é o de ameaça, praticado por dez acusados, seguido por tráfico de drogas e roubo, com sete registros cada um.

Pelo menos oito dos feminicidas possuíam antecedentes de crimes hediondos: cinco homicídios, dois estupros, um estupro de vulnerável e um abuso sexual de menor, sendo um deles – Cladimilson Dutra de Lima, 36 anos – responsável por um caso de homicídio e um estupro.

O homem confessou ter matado por asfixia a então companheira, uma mulher de 47 anos, em Mostardas, litoral sul do estado, em 21 de fevereiro deste ano. Apenas duas semanas antes do caso, Cladimilson havia saído do presídio por violência doméstica contra a mesma companheira, que possuía medida protetiva ativa contra ele no momento do feminicídio.

Cladimilson também é dono da maior ficha criminal entre todos os feminicidas: além de feminicídio, homicídio e estupro, ele também é acusado de tráfico e posse de entorpecentes, lesão corporal, ameaça, porte ilegal de arma de fogo, associação ao tráfico, furto qualificado, furto em veículo, perturbação da tranquilidade, ameaça com arma de fogo e furto simples em residência.

Ao menos três homens possuíam histórico de violência doméstica registrado em boletins de ocorrência, seja contra companheiras anteriores ou contra a própria vítima de feminicídio. Também é notável que dois dos acusados por agressão em contexto de violência doméstica também são autores de estupro.

Feminicídio é um crime doméstico

Em 86% dos casos, os feminicidas tiveram algum tipo de envolvimento afetivo com as suas vítimas. Em cerca de 50% dos casos, o autor do crime era companheiro da mulher morta, enquanto, em 36%, ele era ex-companheiro. Esse dado reforça um padrão identificado na maior parte dos crimes contra o gênero feminino: a violência ocorre dentro de um contexto doméstico e num círculo social de proximidade.

Quatro ocorrências, no entanto, fogem desse padrão. Além do já mencionado caso do desaparecimento da família Aguiar, em que uma das vítimas foi a mãe da ex-companheira do autor do crime, outro episódio de feminicídio, ocorrido em 4 de abril na cidade de Sapucaia do Sul, Região Metropolitana, também vitimou a ex-sogra.

Noutros dois casos, havia consanguinidade entre feminicida e vítima: Eder Fernando Poisl, 44 anos, matou a própria mãe, 74 anos, a pedradas em Viamão no dia 25 de março. De acordo com a defesa, o homem sofria de insanidade mental no momento do crime. No outro episódio, um jovem não identificado de 26 anos confessou à polícia ter asfixiado a avó, de 72 anos, porque ela requisitava muitos cuidados consequentes de uma debilidade, o que não o deixava dormir. O caso ocorreu na Capital. Em duas ocorrências não foi possível identificar a relação entre a vítima e o feminicida.

Mais uma evidência que aponta para o caráter doméstico do feminicídio é o local em que o crime foi consumado: 78% das ocorrências se deram em um ambiente caseiro, sendo o local mais recorrente a casa das vítimas, morassem elas com o feminicida ou não. Foram 28 as mulheres mortas dentro do próprio lar.

Duas mulheres foram mortas na casa do feminicida, incluindo a companheira menor de idade de Eduardo Albernaz da Silva, 25 anos, morta a facadas em Sapucaia do Sul em 20 de janeiro. Até o dia 6 de janeiro, a jovem de 15 anos era acompanhada pela Patrulha Maria da Penha como forma de proteção diante de agressões físicas sofridas. O acompanhamento foi revogado a pedido da vítima e, poucos dias depois, a adolescente se tornou a vítima de feminicídio mais jovem neste ano.

Os outros três casos consumados em ambientes domésticos ocorreram na casa de parentes e de uma amiga próximos às vítimas.

Pelo menos seis feminicídios foram cometidos em ambiente externos. Quatro mulheres foram mortas em trânsito: duas dentro de seus carros, outra na rua e a última em uma parada de ônibus.

Em outro caso excepcional, uma mulher de 37 anos foi degolada pelo marido, William Bizarro Porto, e encontrada em uma região de mata na área rural de Canguçu, sul do estado. Ela havia sido dada como desaparecida em 12 de janeiro, véspera de quando foi encontrada. Relatos da família da vítima declararam que ela já havia tentado se divorciar de William, contra quem tinha inclusive medida protetiva.

O caso restante se destaca não somente pela localidade do crime – um terreno baldio –, mas pela carência de informações. Uma mulher de 26 anos em situação de rua foi agredida brutalmente em Porto Alegre no dia 18 de abril. Ela morreu duas semanas depois, no dia 29, em decorrência de lesões na cabeça.

Até o fechamento dessa reportagem, a investigação da 1ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) da Capital não conseguiu identificar o autor do crime, que só foi caracterizado como feminicídio em razão do sêmen encontrado no corpo da vítima – possivelmente resultado de um estupro. Em três outras ocorrências, o local do crime não foi especificado pelas investigações competentes.

32 cidades registraram feminicídios

Foram 32 municípios que registraram ao menos um caso de feminicídio na primeira metade de 2026. A cidade mais violenta foi Porto Alegre, com 6 casos, seguida de Sapucaia do Sul, com 3 casos. Além das já citadas, Cachoeirinha, Novo Hamburgo e Parobé também figuram na lista com dois casos cada uma. Os demais 27 municípios tiveram apenas um caso de feminicídio cada.

Todos os municípios que registraram mais de uma ocorrência fazem parte da RMPA, região que concentra mais da metade de todos os casos de feminicídio no período – 22 dos 42 casos. O Noroeste foi a segunda região com maior porcentagem de casos – foram 8 ocorrências registradas, o que corresponde a 19% do total. A região nordeste veio logo em seguida, com quatro casos.

Confira a distribuição de feminicídios por mesorregião no mapa a seguir:

Mapa: Pedro Stahnke/Sul 21

55 pessoas perderam a mãe para o feminicídio

Ao menos 55 pessoas ficaram órfãs em decorrência da morte de suas mães por feminicídio. Destes, no mínimo 15 eram fruto do relacionamento das vítimas com o próprio feminicida. A média de filhos por mulher era de aproximadamente dois.

A vítima que mais deixou órfãos foi uma paraibana de 29 anos, mãe de seis filhos, que morava em São Francisco de Paula, Serra Gaúcha. A mulher havia se mudado para o Rio Grande do Sul há poucos meses com o companheiro, Madiel Chagas de Oliveira Silva, também paraibano de 29 anos.

Na madrugada de 7 de fevereiro, Madiel a esfaqueou dentro da casa em que moravam e fugiu do local do crime. O homem só foi encontrado pela Polícia Civil dois dias depois, no município de Bom Jesus, 120km distante de São Francisco de Paula. Os seis órfãos, todos menores de idade, vivem em Patos, na Paraíba, cidade natal da vítima.

Metade das vítimas de feminicídio foram mortas desse mesmo modo: a facadas, método mais recorrente de consumação do crime. O segundo método mais comum é o uso de arma de fogo, com nove feminicídios desse tipo registrados, seguido pela asfixia, com cinco casos. Em três ocorrências não foi confirmada a causa de morte das mulheres.

Nas demais ocorrências foram empregados métodos menos convencionais. Houve um caso de degola, um em que a vítima foi morta a pauladas, outra com golpes de machado e o já citado caso em que Eder Fernando Poisl matou a mãe a pedradas.

Maioria dos feminicidas está preso e aguarda julgamento

Entre os acusados de serem responsáveis pelos feminicídios, 73% estão presos e hoje aguardam julgamento em prisão preventiva. Seis dos feminicidas tiraram as próprias vidas após consumar o crime. O caso mais emblemático de suicídio é o de Lazaro Tschoepke Pinto, 59 anos, desaparecido após matar a ex-companheira a tiros, também de 59 anos, no mesmo dia em que o casal assinou a sua carta de divórcio, em 20 de janeiro. Quase dois meses depois, em 11 de março, o corpo de Lazaro foi encontrado em estado avançado de decomposição numa lavoura de soja em Muitos Capões, nordeste do Estado, cidade em que os dois moravam.

Um dos feminicidas é menor de idade, com 17 anos na ocasião do crime, e, portanto, não pode ser condenado à pena de reclusão de 20 a 40 anos prevista para o crime de feminicídio. O jovem, que atirou e matou uma mulher de 24 anos com quem mantinha um relacionamento extraconjugal em Barão de Cotegipe, região noroeste, cumpre pena de reclusão no Centro de Atendimento Socioeducativo Regional de Passo Fundo (Case). Um homem de 20 anos foi preso, suspeito de ter atuado como coautor do crime.

O homem que matou a avó em Porto Alegre foi inicialmente preso em flagrante, mas hoje está em liberdade provisória e usa tornozeleira eletrônica. Dois feminicidas não tiveram a sua situação criminal atual confirmada pelas respectivas investigações.

O paradeiro do feminicida não foi identificado em três ocasiões: no também já apresentado feminicídio da mulher em situação de rua; em uma ocorrência na cidade de Rio Grande, em 12 de junho; e no caso em que Tiago Gomes de Oliveira dos Santos, 33 anos, matou a companheira de 40 anos a facadas dentro da casa em que ela morava em Santo Ângelo, no noroeste do Estado.

Tiago teve contra si três medidas protetivas, a última revogada seis dias antes do feminicídio, em decorrência de agressões à companheira, com quem mantinha relacionamento há 12 anos. O homem deixou órfã a própria filha de 12 anos, que presenciou o início das agressões que levaram ao feminicídio. Até o fechamento da reportagem, Tiago ainda estava foragido, segundo a Polícia Civil.

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