Feminicídio: o preço de ser mulher em um mundo machista. Artigo de Vania Aguiar Pinheiro

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02 Junho 2026

A morte de uma mulher por gênero não é um fato acidental; é uma falha civilizatória. Desconstruir a torpe tendência de matar mulheres exige mais do que punição severa aos agressores; requer uma mudança de paradigma. É preciso educar contra a misoginia desde a base, desnaturalizar o controle masculino e garantir que a vida e a liberdade das mulheres sejam respeitadas em sua totalidade.

O artigo é de Vania Aguiar Pinheiro, mestra em Ciências Humanas e Neuropsicopedagoga. 

Eis o artigo. 

“Ela não denunciou porque gosta de apanhar”; “ela provocou a violência”; “ela exagerou, não obedeceu”; “foi por causa da roupa curta e insinuante que é um convite, ninguém resiste”; “ela falou demais e tirou ele do sério”; “eles não resistem as novinhas”; “ela provocou, sensualizando”, “o que estava fazendo naquele lugar há uma hora dessas?”. Frases assim são frequentemente expressas pelo senso comum, tentando explicar e justificar as práticas dos agressores. Todas elas foram retiradas das redes sociais em publicações sobre violência contra a mulher.

Desse modo, mulheres são agredidas, abusadas sexualmente e assassinadas nas mais diversas idades e contextos. São inúmeras as ocorrências, mas, uma em especial, foge de todos os padrões de perversidade. A notícia de uma religiosa de 82 anos, morta em fevereiro deste ano em um convento no Paraná, após ser vítima de estupro, numa tarde de sábado, não encontra respaldo em qualquer das afirmações apresentadas acima: nem na roupa que usava, nem na sensualidade que exibia, nem na sua idade que possuía, muito menos na hora e no lugar em que se encontrava. Portanto, o horror não tem limites.

De acordo com pesquisa divulgada no início de março de 2026, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de feminicídios vem aumentando a cada ano em nosso país. Em 2015, foram 449 casos e em 2025 bateu recorde histórico com 1.568 casos, representando alta de 349% em uma década. A mesma pesquisa mostra que 8 em cada 10 casos de feminicídio no Brasil são cometidos por parceiros ou ex-companheiros. Dos 5.729 casos ocorridos entre 2021 e 2024 aponta que 62,6% eram mulheres negras e 36,8% eram brancas. Portanto, também nesse tema o recorte racial denuncia as históricas desigualdades estruturais.

No Rio Grande do Sul, a escalada da violência contra as mulheres também vem crescendo. Segundo informações publicadas no Jornal Brasil de Fato, nos primeiros três meses de 2026, o estado registrou 27 feminicídios, um aumento de 68,75% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizadas 16 mortes.

No Brasil, o assassinato de mulheres, pelo fato de serem mulheres, recebeu a classificação de feminicídio em 9 de março de 2015, com a sanção da Lei 13.104. Este dispositivo legal, conhecido como Lei do Feminicídio, inclui o referido ato no rol dos crimes hediondos. No sentido jurídico e moral, matar é um horror. E matar mulheres pela condição feminina, por supremacia machista, por ódio ou por qualquer outro motivo, é a face mais extrema deste horror que precisa ser combatido por todos o tempo todo e em todos os lugares.

O machismo é um elemento constituinte do nosso caldo histórico, ligado ao escravismo, ao patriarcado, à misoginia, à submissão feminina e ao patrimonialismo. Tudo isso, somado, resulta na produção da violência em diferentes níveis, modalidades e gravidades. O que causa ainda mais temor é a banalização da violência e da barbárie, dando a impressão de que não é possível interromper esse ciclo.

A Lei do Feminicídio, a Lei Maria da Penha (nº 11.340/2006) e outras são muito importantes no enfrentamento à cultura machista e violenta, mas não são suficientes. O combate ao feminicídio exige ação coordenada do Estado, responsabilidade dos homens e compromisso permanente da sociedade com a vida das mulheres e de todas as pessoas. Nenhuma vida vale menos. Todas valem ser cuidadas, preservadas e promovidas. Em se tratando das mulheres, que são portais de vida, deveriam ser ainda mais protegidas.

A morte de uma mulher por gênero não é um fato acidental; é uma falha civilizatória. Desconstruir a torpe tendência de matar mulheres exige mais do que punição severa aos agressores; requer uma mudança de paradigma. É preciso educar contra a misoginia desde a base, desnaturalizar o controle masculino e garantir que a vida e a liberdade das mulheres sejam respeitadas em sua totalidade.

Informar, orientar, denunciar e punir são medidas necessárias, mas também ainda insuficientes. Para além disso, é fundamental formação para prevenção, cultivo de afetividades sadias, espaços para diálogos saudáveis sobre relacionamentos. A construção de uma cultura do respeito, do cuidado e da paz são princípios que precisam ser fortalecidos para enfrentar o feminicídio e todas as formas de violência e barbárie. Essa causa é urgente! E é de todos nós!

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