08 Agosto 2026
A vitória do candidato democrata progressista Abdul El-Sayed em Michigan é a mais recente confirmação de que o baluarte erguido pelo lobby pró-Israel está começando a ruir, especialmente dentro do Partido Democrata.
A reportagem é de Juan Gabriel García, publicado por El Diario, 07-08-2026.
Até agora, atacar o AIPAC era suicídio político, mas a vitória de El-Sayed em Michigan e a de outros progressistas neste ciclo de primárias democratas sugerem que o poder absoluto do grupo de lobby multimilionário está ruindo.
Durante anos, criticar abertamente o Comitê de Assuntos Públicos Israelo-Americano (AIPAC) era praticamente suicídio político. Tanto democratas quanto republicanos receberam dinheiro do maior lobby pró-Israel, que, nas últimas décadas, também se tornou um gigante capaz de alavancar ou prejudicar candidatos de ambos os partidos.
Nas eleições presidenciais de 2024, essa foi uma das principais razões pelas quais os democratas evitaram colocar a guerra em Gaza no centro do debate. Mas o novo ciclo eleitoral deste ano está mostrando que o AIPAC não é mais intocável.
A vitória do candidato democrata progressista Abdul El-Sayed em Michigan é a mais recente confirmação de que o baluarte erguido pelo lobby pró-Israel está começando a ruir, especialmente dentro do Partido Democrata. O AIPAC fez seu maior investimento de todos os tempos — pelo menos US$ 32 milhões, segundo o New York Times — em uma única eleição para tentar afundar o médico de 41 anos e candidato muçulmano, e falhou. Na manhã de quarta-feira, após uma recontagem apertada, o filho de imigrantes egípcios derrotou a candidata Haley Stevens, que havia sido apoiada pelo grupo pró-Israel e pela cúpula do Partido Democrata.
Michigan representa o mais recente revés significativo para o AIPAC, possivelmente o mais humilhante devido à enorme quantia de dinheiro gasta em anúncios contra El-Sayed e a favor de Stevens, sem alcançar o resultado desejado. Mas esta não é a única disputa eleitoral em que o lobby pró-Israel viu seu poder se erodir gradualmente, e até mesmo os candidatos que apoia acabam perdendo. Na eleição para prefeito de Nova York no ano passado, o socialista Zohran Mamdani abriu caminho, após fazer da crítica ao genocídio israelense em Gaza e da rejeição ao AIPAC um de seus maiores trunfos políticos.
De Nova York a Illinois
Nas primárias de Nova York, candidatos socialistas apoiados pelos Socialistas Democráticos da América (DSA) também venceram usando a mesma estratégia. No Colorado, Melat Kiros — também apoiada pela DSA — derrotou a veterana Diana DeGette, que também era financiada pelo AIPAC. A organização pró-Israel havia doado indiretamente mais de um milhão de dólares para DeGette a fim de silenciar as críticas de Kiros ao Estado judeu.
Em março, durante o ciclo das primárias em Illinois, essa mudança anti-AIPAC já era evidente. Nunca antes o grupo de lobby havia sido tão central no debate político. Nas primárias, grupos afiliados ao AIPAC gastaram aproximadamente US$ 20 milhões em quatro disputas para eleger seus candidatos para a Câmara dos Representantes, vencendo duas e perdendo as outras duas.
O lobby pró-Israel teve que disfarçar parte de seus gastos por meio de novas plataformas de financiamento de campanha que criou com nomes inocentes e sem relação alguma com o assunto, como Elejam as Mulheres de Chicago e Parceria Progressista de Chicago. Somente após a divulgação dos resultados das eleições em Illinois, o grupo revelou seu envolvimento por meio dessas novas organizações.
Isso foi bem diferente do que aconteceu no ciclo eleitoral de 2024, quando o AIPAC operou abertamente, confiante em sua força. Foi dessa forma que eles destituíram do Congresso duas integrantes do "Esquadrão", a facção mais à esquerda dentro do Partido Democrata.
Cori Bush foi um dos nomes do grupo conhecido como "The Squad" que o AIPAC riscou de sua lista para 2024. A representante de St. Louis foi uma das primeiras democratas a denunciar o genocídio palestino no Congresso, o que a colocou na mira do lobby pró-Israel. No ciclo de primárias deste ano, Bush concorreu novamente, aproveitando o clima favorável.
No entanto, ela provou ser a exceção em meio a uma clara tendência contra o AIPAC e a cúpula do Partido Democrata: foi derrotada novamente pelo democrata Wesley Bell, que contava tanto com o dinheiro do grupo de lobby quanto com o apoio da liderança do partido.
Mudanças nas tendências entre os americanos
Com o passar do tempo, torna-se cada vez mais claro que a guerra em Gaza foi fundamental para a derrota eleitoral de Kamala Harris para Donald Trump em 2024. O declínio da influência do AIPAC decorre da mudança na percepção americana sobre o conflito na Palestina e seu principal aliado na região, Israel. Embora o número de palestinos mortos em ataques israelenses tenha aumentado — mais de 73.000 desde outubro de 2023 — a solidariedade com Gaza cresceu em detrimento da simpatia por Tel Aviv.
Uma pesquisa Gallup publicada no início deste ano indicou que, pela primeira vez desde o início do século XXI, os americanos sentem mais simpatia pelos palestinos do que pelos israelenses: 41% contra 36%. Até o ano passado, a tendência era oposta. O think tank Brookings já havia observado que, até o final de 2025, o apoio a Israel estaria em declínio entre os democratas e os eleitores mais jovens. De fato, embora Israel continue a contar com o apoio dos seguidores de Donald Trump, a base eleitoral mais jovem não compartilha dessa visão.
Em grande medida, a deterioração da imagem de Israel entre os jovens apoiadores de Trump não se deve à defesa dos direitos humanos ou à rejeição do genocídio palestino, mas sim ao seu compromisso com o lema "América Primeiro" (uma ideologia que exige o uso dos recursos do país em âmbito nacional e a não intervenção em conflitos estrangeiros), agravado pela influência de grupos neonazistas.
Antes de ser assassinado, o influenciador de extrema-direita Charlie Kirk (muito popular entre os jovens apoiadores de Trump) já havia tornado essa mudança de visão conhecida entre seus seguidores.
O questionamento do apoio a Israel não só está corroendo a influência do AIPAC, como também rompeu o consenso bipartidário em torno do envio de armas para Tel Aviv. Recentemente, mais de 100 democratas votaram contra a continuidade da ajuda militar a Israel. Embora a proposta tenha sido rejeitada devido à obstrução republicana, tal medida seria impensável há apenas dois anos.
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