06 Agosto 2026
O candidato ao Senado, um crítico ferrenho de Israel e defensor do sistema público de saúde universal, obteve uma vitória apertada após 13 horas de apuração.
A reportagem é de Luís Doncel, publicada por El País, 05-08-2026.
Foram necessárias 13 horas de apuração dos votos para finalmente determinar quem os democratas dos EUA enviarão para disputar a vaga aberta no Michigan nas próximas eleições de novembro. Após uma noite tensa, na qual as margens se estreitaram a cada detalhe, a Associated Press e a CNN declararam o candidato progressista Abdul El-Sayed vencedor, com 48,5% dos votos. A disputa reflete as profundas divisões dentro do partido, bem como a ascensão da ala esquerda que exige mudanças.
Com sua vitória, este médico de 41 anos, filho de imigrantes egípcios, fez uma declaração contundente no debate sobre o futuro da oposição a Donald Trump. A congressista Haley Stevens, que contava com o apoio dos pesos-pesados do partido, perdeu para o seu oponente por menos de 15.000 votos.
Trump reagiu rapidamente. Assim que a vitória de El-Sayed foi confirmada, o presidente declarou ser uma "excelente notícia" para o Partido Republicano. "Um comunista fracassado que odeia judeus e Israel está prestes a vencer [...] Agora as políticas insanas dos 'idiotas-cratas' só vão piorar!", escreveu ele em sua conta na rede social Truth.
A eleição demonstra que a ascensão de jovens políticos de esquerda (ou mesmo socialistas) não se limita a redutos liberais. A onda iniciada por Zohran Mamdani no ano passado com sua vitória em Nova York ameaça se espalhar para um estado como Michigan, um dos chamados estados indecisos, onde tanto republicanos quanto democratas podem vencer. O partido de Barack Obama e Joe Biden está entrando em uma nova era em que as regras antigas não se aplicam mais.
Abdul El-Sayed: “I don’t believe in unconditional foreign military aid. That includes Israel, that also includes Egypt where my family immigrated from. I believe our kids have a right to our tax dollars. We’ve watched as Israel has conducted a genocide, has at baseline done… pic.twitter.com/HkM9gntdWE
— Marco Foster (@MarcoFoster_) August 5, 2026
Apesar dessa importante vitória, a parte mais difícil ainda está por vir para El-Sayed. Tendo derrotado o centrista Stevens, ele terá que provar em novembro que um homem como ele — muçulmano e defensor de ideias consideradas radicais até recentemente — pode vencer o candidato republicano nas eleições de meio de mandato. Se for bem-sucedido, ele se tornará o primeiro senador muçulmano da história dos EUA e se juntará a figuras como o senador Bernie Sanders, a congressista Alexandria Ocasio-Cortez e o prefeito Mamdani na lista de líderes que estão mudando a cara do Partido Democrata.
El-Sayed não se define como socialista, mas defende causas intimamente ligadas à esquerda. Ele triunfou em Michigan com ideias como o fim da ajuda incondicional a Israel — que ele acusa diretamente de genocídio em Gaza — e a promoção de um sistema universal de saúde pública. Ele combina essa retórica com um magnetismo pessoal que, sempre vestido com uma camiseta preta justa, exibe em vídeos onde levanta pesos na academia ou dança ao som de "You Belong With Me", de Taylor Swift, usando um chapéu de caubói. Seus coordenadores de campanha certamente prestaram muita atenção em como os vídeos de Mamdani viralizaram durante a campanha que o levou à corrida para a prefeitura de Nova York no ano passado.
Agora, outro progressista encontrou mais uma vez a fórmula certa para convencer os eleitores. El-Sayed derrotou a liderança do partido em Michigan, chefiada pela governadora Gretchen Whitmer e pelo senador Gary Peters, que apoiaram seu oponente. Ele também derrotou o lobby israelense, que investiu cerca de 30 milhões de dólares nesta campanha — o maior valor já gasto em uma única eleição. E agora parece que tudo foi em vão.
Acusação de antissemitismo
Na reta final da campanha, a congressista Stevens lançou uma tímida acusação contra El-Sayed de antissemitismo — "Todos entendem que você quer culpar os judeus americanos por todos os seus problemas" — e de buscar apenas "fama e, provavelmente, dinheiro" em sua carreira política. Mas era tarde demais. El-Sayed já havia conseguido consolidar a imagem de que representava uma lufada de ar fresco, alguém que se importava com os problemas reais das pessoas e com o fim da influência do dinheiro de fontes duvidosas nas eleições, em contraste com a velha maneira de fazer política personificada por Stevens.
As primárias foram realizadas nesta terça-feira em estados como Virgínia, Missouri, Kansas e Washington. Mas todos os olhares estavam voltados para Michigan, talvez a batalha mais importante de todas as que antecedem a eleição que definirá a segunda metade do mandato de Trump. A atenção estava no auge por vários motivos. Primeiro, porque elas estão sendo realizadas em um estado-chave que não é totalmente republicano nem totalmente democrata, o que o torna um bom indicador do atual clima político em um país tão vasto e diverso quanto os Estados Unidos.
Em segundo lugar, porque a vaga em disputa é crucial se os democratas esperam tomar o controle do Senado dos republicanos. Não é matematicamente impossível, mas se os democratas perderem Michigan, suas chances de conquistar a câmara alta se tornarão muito, muito difíceis.
E em terceiro lugar, porque a vitória de El-Sayed confirma outra tendência que já era evidente: o crescente distanciamento dos americanos em relação a Israel.
Todos esses sintomas já haviam sido observados em outros estados, mas agora estão confirmados em Michigan, com repercussões que precisarão ser avaliadas nos próximos dias. Os democratas precisarão demonstrar união para que El-Sayed, caso sua vitória seja confirmada, seja eleito senador em novembro, se realmente quiserem montar uma oposição séria a Trump no Congresso. Mas, para isso, muitos terão que defender alguém que recentemente consideravam radical. Resta saber se todos estão dispostos a engolir essa pílula amarga.
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