Magnífica Liturgia. Carta aberta de Andrea Grillo a Massimo Faggioli

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08 Agosto 2026

"Ao longo dessas trocas de ideias, percebi algo fundamental: em torno da liturgia já não se trabalha mais no plano teológico, mas apenas no plano institucional, afetivo e, em sentido amplo, "espiritual". A meu ver, parece-me que isso impede ao tema alcançar aquela centralidade que merece, mas que, em vez disso, resulta marginalizada, sufocada e incompreendida."

A carta é de Andrea Grillo, teólogo italiano, publicado em Come se non, 05-08-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a carta. 

Caro Massimo,

Como você sabe, há alguns meses a discussão sobre a liturgia, também na Itália, ganhou uma discreta relevância pública, em grande parte devido às posições declaradas, com distintas argumentações, por Enzo Bianchi, Alberto Melloni e por mim mesmo. Outras vozes, teológicas e pastorais, também participaram do debate; procurei dar-lhes visibilidade e espaço na seção do meu blog "Come se non" intitulada "Depois do Cisma: A Tradição Viva". Foi um desdobramento importante e frutífero.

Ao longo dessas trocas de ideias, percebi algo fundamental: em torno da liturgia já não se trabalha mais no plano teológico, mas apenas no plano institucional, afetivo e, em sentido amplo, "espiritual". A meu ver, parece-me que isso impede ao tema alcançar aquela centralidade que merece, mas que, em vez disso, resulta marginalizada, sufocada e incompreendida.

Ao ler, esta manhã, sua mais recente contribuição para a revista "Commonweal", intitulada "SSPX and the Pope" (disponível aqui em português), senti-me surpreso e preocupado. Notei que, mesmo na sua abordagem da questão, centrada na relação entre o cisma e o Papa, a consideração sobre a liturgia guarda muita semelhança com aquela do Arcebispo Cordileone ou, em certos aspectos, com o desejo de reconciliação expresso em seus textos por Enzo Bianchi nos últimos meses.

A diferença entre ciência histórica e ciência teológica

Antes de examinar ponto a ponto as afirmações mais significativas do seu último texto, gostaria de começar com uma observação mais geral sobre a tarefa do teólogo no campo litúrgico.

Há mais de um século, em sua primeira e última contribuição para o "Jahrbuch für Liturgiewissenschaft", em 1921, Romano Guardini formulava uma distinção decisiva entre dois aspectos do estudo da liturgia que, com demasiada frequência, nós ainda confundimos: a história da liturgia trata daquilo que "foi", enquanto a teologia da liturgia trata daquilo que "deve ser". Esse aspecto "normativo", característico de uma visão correta da tradição litúrgica, impede que se resolva o juízo sobre a liturgia se atendo aos "fatos". Quando avaliamos a liturgia, jamais podemos deixar de assumir uma posição quanto a esse "deve ser". Se não o fizermos, falharemos em cumprir a tarefa teológica que nos cabe, e tornamo-nos meros "observadores" de desenvolvimentos históricos.

Essa premissa guardiniana me parece importante para expressar o cerne de minhas ressalvas, que já expressei em relação a Bianchi e Melloni, e que agora ilustro também em relação à sua leitura: a maneira como você aborda a liturgia parece deixar de lado a dimensão estritamente teológica da questão em favor do prevalecimento de instâncias que, embora certamente relevantes, carecem de força para orientar uma verdadeira solução convincente sem cair em uma série interminável de contradições, que não trazem paz, só mais conflito. Passarei agora a expor os pontos principais do seu texto, examinando-os a partir dessa perspectiva teológica.

Será que a "lesa-majestade" contra o Vaticano II constitui um critério de leitura correto?

Sua reconstrução do cisma lefebvriano (primeiro e segundo) observa corretamente que a questão levantada por Lefebvre não pode ser reduzida apenas à liturgia. Isso é verdade. No entanto, seria desastroso afirmar, com base nessa correta consideração, que poderíamos fazer concessões na liturgia para alcançar a unidade em áreas decisivas (eclesiologia, relação com o mundo, doutrina da revelação). Essa forma de argumentar, muitas vezes, é o prelúdio para uma baixa consideração da liturgia do ponto de vista teológico. Isso fica evidente nos três pontos principais que você extrai da provocação lefebvriana:

a) uma vitória póstuma da abordagem de Bento XVI, direcionada para uma normalização do tradicionalismo litúrgico. Você considera isso tão verdadeiro que chega a afirmar: "Lidar com o tradicionalismo litúrgico da FSSPX exigirá discernimento pastoral e teológico, possivelmente concebendo soluções diferenciadas para diferentes partes do mundo. Defesas ritualizadas de 'lesa-majestade' do Vaticano II não vão ser suficientes. Por outro lado, é evidente que uma postura de agnosticismo ou uma reversão em relação à reforma litúrgica não iriam deixar intacto o restante do Vaticano II".

b) a clara identificação na influência de J. Ratzinger (Prefeito e, posteriormente, Papa) de uma solução "ambígua" não aprofunda o motivo dessa ambiguidade no plano teológico, mas apenas no que poderíamos chamar de plano administrativo-institucional.

c) A tarefa que Leão XIV parece ter assumido diante do desenvolvimento do tradicionalismo orienta-se no modo mais claro mediante aquela encíclica, "Magnifica Humanitas", que você define como um "contrassílabo". Consequentemente, a postura adotada por Leão em relação ao cisma deverá necessariamente se traduzir em uma posição clara em relação ao tradicionalismo não cismático, que continua a viver no seio da Igreja.

A perspectiva teológica que falta

Caro Massimo, muito do que você escreveu, inclusive nesse texto, é valioso.

No entanto, permanece, por assim dizer, à margem da questão. Claramente se identificam responsabilidades, ambiguidades, gargalos e pontos de virada necessários, mas é como se você sentisse dificuldade em afirmar explicitamente onde está o cerne do problema. Permita-me, então, para concluir, replicar a cada um dos três pontos que você indicou em seu texto como questões deixadas em aberto após o segundo cisma.

a) Quanto ao diagnóstico de uma "vitória póstuma" do Papa Bento, parece-me ser o fruto de um grande erro teológico. A teoria de uma "dupla forma" do Rito Romano chegou ao fim em 2021. A "Traditionis Custodes" marcou a derrota decisiva desse projeto: não se trata de "limitações" ao uso do Vetus Ordo, mas de uma releitura da história. A razão dessa derrota é estritamente teológica: aquela maneira de conceber a relação com a tradição litúrgica estava viciada por uma grave incompreensão, tanto no nível institucional quanto teológico. Portanto, considero profundamente preocupante que você caia na armadilha de pensar que é possível responder à posição tradicionalista sem defender a escolha de reforma do Vaticano II. Há aqui uma vulnerabilidade teológica, uma falha que você ajuda a esconder. Ninguém, depois de 2021, pode recorrer ao Vetus Ordo exceto mediante indulto. Teologicamente, esse é o único princípio orientador possível após o segundo cisma, que altera o cenário. Se você não reconhece isso, mas acrescenta, in extremis, que a rejeição da reforma litúrgica não deixa incólume a totalidade do ensinamento do Vaticano II, é como se você percebesse o que está em jogo, mas quisesse admiti-lo apenas entre parênteses, a meia voz. Um teólogo, se quer ser teólogo, não pode comportar-se assim: não pode atribuir grande valor a questões secundárias e pouco valor aos princípios fundamentais.

b) Se isso for verdade, o juízo teológico deve ser coerente: onde reside o problema de um "tradicionalismo litúrgico" (aparentemente) não cismático? Ele reside na persistência, em muitas cúrias (não apenas romanas), de uma argumentação falaciosa que é dever do teólogo desmascarar. Se não é suficiente um segundo cisma, alimentado pelo uso reacionário do rito que o Vaticano II pediu para reformar, o que devemos ainda esperar para denunciar o sofisma que, 20 anos atrás, deu origem a esse abuso litúrgico generalizado? Pergunto-me: o que nos impede de falar claro e identificar nessa reconstrução temerária da "Summorum Pontificum" a raiz de muitas posições na Igreja de hoje? Se um papa adota o argumento central de um bispo cismático ("todos podem continuar a celebrar usando a forma ritual pré-conciliar", é a tese de Lefebvre, não esqueçamos), que forma de autocensura nos impede de compreender que a solução pode acontecer apenas se for superado definitivamente esse falso argumento? Nesse aspecto, o verdadeiro profeta foi o Papa Francisco e dessa sua decisão deveríamos aprender a não sermos demasiado condescendentes com as tentações anticonciliares que se apresentam como simples "preferência litúrgica". Decipimur specie recti.

c) Por fim, a tarefa do Papa Leão. Aqui, parece-me, é necessária grande coragem. Não tanto da parte do Papa, que provavelmente já a possui em medida suficiente, mas daqueles que podem, doutrinalmente, auxiliá-lo no discernimento. Contudo, as fórmulas do passado aqui já não funcionam mais. Não devemos pedir "reconhecimentos formais dos documentos do Vaticano II", protocolos doutrinais ou comprometimentos institucionais. Não, nada disso é realmente útil. Essa abordagem, que marcou 40 anos de catolicismo, pelo menos de 1988 em diante, esgotou-se e gerou apenas mais divisões.

Também não podemos mais pedir aos Dicastérios (para a Doutrina da Fé, para os Religiosos ou para o Culto Divino) que protejam os anticonciliares. Esse estilo ambíguo deve acabar, quam celerrime.

Rumo a uma magnífica liturgia?

O que, então, poderia caracterizar o estilo de uma "magnífica liturgia"? Recuperar precisamente aquilo que falta por completo nas análises de Bianchi, Melloni e também na sua: ou seja, a função unificadora que a liturgia desempenha. Não criamos unidade instrumentalizando distintas liturgias conflitantes, mas deixando a palavra à actio sacra compartilhada. Uma única lex orandi não é uma utopia perigosa, nem um ideal de velha Europa, mas a lógica elementar da actio sacra. Uma mensagem clara, emanada do coração da Cúria Romana e a afirmação desses três pontos, seria a versão litúrgica de "magnifica humanitas". Eis os três pontos fundamentais:

a) Existe apenas um Rito Romano comum a todos os fiéis católicos. Os avanços de Papa Francisco (que é simplesmente um retorno a Paulo VI e João Paulo II) é a pedra angular (ainda que frequentemente descartada e ridicularizada).

b) O único rito requer a implementação diferenciada conforme o continente e a comunidade, exigindo que a estruturação da celebração sempre ocorra por meio de um ato seletivo e eletivo: toda sensibilidade é acolhida nesse processo compartilhado. Cada um pode sentir-se reconhecido em seu próprio uso legítimo e tem o dever de reconhecer outros usos, igualmente legítimos.

c) Roma e as diversas cúrias estão empenhadas nesse trabalho conjunto, confluindo para ele toda "resistência" em relação a formas anteriores do Rito Romano. "Ir em frente" tem sido a tarefa estabelecida pelo menos desde 1970. Após 1º de julho de 2026, qualquer hesitação seria hipocrisia.

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