22 Julho 2026
A polícia criminal alemã alerta, em um relatório divulgado nesta terça-feira (21), para a “influência crescente” do ambiente digital e da inteligência artificial (IA) nos abusos sexuais contra menores, devido à evolução das estratégias que essas tecnologias oferecem aos autores.
A reportagem é publicada por RFI, 21-07-2026.
Esse tipo de crime “migra cada vez mais para o espaço digital”, o que empurra as estatísticas gerais “para cima”, com mais de 20 mil vítimas registradas em 2025, um aumento de quase 5% em relação a 2024, resumiu o chefe da polícia federal (BKA), Holger Münch, durante a apresentação do relatório em Berlim.
O número de infrações, “assustadoramente alto”, não inclui “uma parcela significativa de criminalidade oculta”, reconheceu o ministro do Interior, Alexander Dobrindt.
Os abusos sexuais contra menores sem contato físico aumentaram 16,5% em relação a 2024, impulsionados por dois fenômenos “preocupantes”, disse Münch: o cybergrooming, quando um adulto conquista a confiança de uma criança para abusá-la, e o livestreaming, que consiste em acompanhar ao vivo abusos cometidos geralmente no exterior.
“As aplicações que utilizam IA facilitam o cybergrooming”, porque “permitem criar identidades falsas” e “simular nos chats amizade e proximidade”, destacou Kerstin Claus, delegada para o combate à violência sexual contra crianças.
Essa manipulação pode levar à sextorsão, chantagem com fotos ou vídeos íntimos compartilhados voluntariamente, um fenômeno que afetaria “11% de todas as crianças e adolescentes”, segundo uma estimativa global, acrescentou.
Quanto ao livestreaming, os alertas explodiram entre 2024 e o início de 2026, passando de 25 para “mais de 250” neste ano, afirmou Münch, citando as Filipinas como “ponto central”. Cerca de 40% dos autores que cometem esses abusos online “também viajam para cometer abusos presencialmente”, acrescentou.
A IA permite não apenas que qualquer internauta crie conteúdos de pornografia infantil, cujo volume também está em alta, “a partir de imagens aparentemente inofensivas”, disse Münch. Mas também possibilita reciclar arquivos antigos e, assim, “cometer novos atos” ilegais, ressaltou Dobrindt.
Münch avaliou que esse avanço do digital não tem “nenhuma influência” sobre o número de casos de abuso físico concreto, mas representa um novo “desafio” para a polícia, que precisa determinar “o que é real e o que não é”.
O Parlamento alemão deve aprovar “no outono” (entre fim de setembro e dezembro) o projeto de lei que obriga provedores de internet a armazenar endereços IP por três meses, para reforçar o combate a todas as formas de cibercriminalidade, lembrou Dobrindt.
Leia mais
- Mais de 10 milhões de menores na África e na Ásia sofreram abuso sexual digital: “É muito fácil causar muito mal na internet”
- Aliciamento sexual de crianças cresce 300% na internet, mas Portugal sabe pouco sobre o tema
- Mais de 300 milhões de menores ao ano sofrem abuso online
- Ambiente digital agrava violações de direitos contra crianças e adolescentes. Entrevista especial com Arlete dos Santos Petry e Danielle Cramer
- Aliciamento sexual de crianças cresce 300% na internet
- Abuso de menores: por que nossos filhos têm medo de falar sobre a internet
- Um quarto das estudantes adolescentes já sofreu violência sexual
- Combater a exploração sexual de crianças e adolescentes, uma atitude ainda mais urgente neste tempo de pandemia
- Denúncias de abuso sexual em abrigos levam à criação de espaços exclusivos para mulheres e crianças
- A mistura tóxica entre clericalismo e abuso sexual não é exclusiva do catolicismo. Artigo de J. P. Grayland