Capitalismo e crises. Artigo de Rodrigo Portella Guimarães

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03 Julho 2026

Considerações a partir de dois livros de Fernando Haddad.

O artigo é de Rodrigo Portella Guimarães, advogado e coordenador do Setorial Jurídico do PT/SP, publicado por A Terra é redonda, 01-07-2026.

Eis o artigo.

Uma das lições marxianas fundamentais é a compreensão de que o capitalismo é essencialmente fadado a crises. Isto é oposto à compreensão de Francis Fukuyama, de que o capitalismo teria triunfado a partir da queda das primeiras experiências do socialismo real, uma reflexão de aparência, na sua essência, a contradição entre a expropriação do excedente, as lutas de classes e os arranjos políticos que pacificam, momentaneamente, o arranjo social é incontornável. E, nesta relação material surge o cenário dialético entre reforma e revolução.

Gostaria de propor a leitura dos dois livros de Fernando Haddad: O terceiro excluído e Capitalismo superindustrial a partir do conceito de crise. Neste sentido, vislumbram-se dois eixos a serem debatidos:

(i) o capitalismo superindustrial e a crise do pós fordismo;

(ii) a crise do socialismo real e o futuro do socialismo.

Neste sentido, entendo, desde pronto, que os escritos analisados retomam a lição leninista de que não há projeto emancipatório sem uma teoria apropriada. E, para tanto, a partir destes três pontos concluo este escrito com uma reflexão de futuro a partir da leitura destes escritos.

O capitalismo superindustrial e a crise do pós fordismo

A construção analítica do capitalismo superindustrial enquanto fase atual do capitalismo dialoga, fundamentalmente, com a essência crítica do capitalismo. Para tanto, inicio esta reflexão retomando a análise da escola da regulação francesa. De acordo com Robert Boyer, pode-se denominar modo de desenvolvimento a determinada época momentaneamente estável na combinação entre regime de acumulação e modo de regulação.

Neste sentido, pode-se compreender que o capitalismo no fordismo consolidou um processo de acumulação centralizado na indústria, a partir de um entrelaçamento do capital e do Estado, a partir de políticas sociais. Neste sentido, com base em uma análise mais geral acerca do keynesianismo e do Estado de Bem-Estar Social, o processo de acumulação fordista dependia, intrinsecamente, de uma classe trabalhadora com poder de compra, ao menos, nos países do centro do capitalismo.

Fato é que a crise, enquanto aprofundamento da contradição dos elementos estruturantes desta fase de acumulação capitalista, se deu, justamente, por conta da lei da queda tendencial das taxas de lucro, a partir de uma crise de superprodução, como bem identificou Leda Paulani. Assim, consolida-se como pós-fordismo o rearranjo entre acumulação e regulação que visa superar esta crise do capitalismo, reorientando as taxas de lucro.

O desenho do capitalismo superindustrial proposto por Fernando Haddad é uma excelente provocação sobre a caracterização do pós-fordismo e de sua subsequente crise. De pronto, em oposição a uma fração da literatura marxista, notabilizada por Chesnais, Dardot e Laval como exemplo, não se estabelece uma centralidade na financerizacao do capitalismo, mas sim, a partir do “fragmento sobre as máquinas”, nos Gundrisse, de uma fase do capitalismo no qual até o conhecimento se torna uma mercadoria, um instrumento produtivo que radicaliza a indústria, substituindo o trabalho vivo pelo trabalho morto.

De pronto, tenho mais dúvidas do que certezas no descasamento ou conflito destas duas análises, inequivocamente marxistas. Talvez, com o perdão do erro, estas duas frentes de análise são complementares. Por um lado, tem-se a autonomização do mundo das finanças, ou, seu potencial descasamento com uma lógica de capitalismo financeiro, nos termos de Rudolf Hilferding. Por outro, a automatização da produção e da vida cotidiana, com cada vez mais aplicativos, robôs, soluções digitais e outros correlatos. A dúvida se acentua ao vermos, nos nossos olhos, o maior IPO da história: 3 trilhões na SPACE X, a maior indústria de tecnologia do mundo.

Talvez, o ponto de encontro destas duas teses seja o desfacelamento do mundo do trabalho. Como consequência direta, seja do capitalismo financerizado, seja do capitalismo superindustrial, o que se vê é uma crescente tendência da expansão do exército industrial de reserva e do lupenproletariado ou, nos termos do terceiro excluído, do processo de “alienização” de parte considerável da massa trabalhadora, no sentido de multidão em Antonio Negri.

Isto é, a crise atual do capitalismo consolida mais uma insanável contradição. Desta vez, diferente do período fordista, em que direitos trabalhistas – por meio da luta política – foram consolidados, dentro de uma massa coletiva e parcialmente homogênea de trabalhadores, o estágio atual do capital fragmenta a luta de classes, em um processo, ao mesmo tempo, de individualização exacerbada e de guerra de todos contra todos.

Fernando Haddad nos oferece, em O terceiro excluído, uma chave interessante de leitura, a partir da diferenciação entre natureza e cultura. O processo de dominação dialética, ao que Karl Marx denomina como “luta de classes”, não é uma decorrência da natureza humana, mas sim, da construção cultural, ideológica, do capitalismo ou, retomando Robert Boyer, uma regulação associada. Isto significa uma demarcação importante: a natureza se regulamenta a partir da teoria da evolução, e a sociedade pela revolução, o “revoluir” em Fernando Haddad.

Contudo, o processo de revoluir não se torna completo ignorando-se o terceiro excluído. O terceiro excluído é, ao mesmo tempo, o negativo da civilização e sua condição de existência. Em uma passagem muito feliz e elucidativa, Fernando Haddad ilustra: “Um cristão domina o outro (paradoxalmente, afinal deveriam se tratar de “irmãos”) porque há um terceiro não cristão, que serve de ameaça e assim justifica tal dominação. Da doutrina penal, o inimigo”. Ou seja, a proposta de Fernando Haddad é que entendamos o processo social de transformação não apenas pela chave da contradição de classes, mas, também, pelo processo da necessária exclusão.

O processo do revoluir, entre o fordismo e o pós-fordismo deve ser visto a luz do terceiro excluído, com a formação do capitalismo superindustrial. Aqui construo uma hipótese: o capitalismo superindustrial coloca uma massa crescente de trabalhadores, não mais como classe trabalhadora (tempouco cognitariado) mas sim, como terceiro excluído. Entregadores de aplicativo e motoristas são exemplos concretos de agentes excluídos do núcleo do processo produtivo, ainda que “trabalhem” diretamente para a economia mais inovadora do momento.

Está consequência crítica do pós-fordismo, em sua fase do capitalismo superindustrial, depende de uma ação política organizada a sua superação. O efeito direto da colocação de uma maior massa de trabalhadores enquanto terceiro excluído consolida um cenário de não pertencimento, desunião e de guerra de todos contra todos pela sobrevivência. Aqui, cumpre mencionar, a nova razão do mundo, nos termos de Dardot e Laval, cumpre seu papel: a ideologia do empreendedor de si mesmo radicaliza esta contradição-exclusão, dificultando ainda mais uma ação política de superação.

A crise do socialismo real do Século XX e o futuro do socialismo

O socialismo real se notabiliza como as tentativas de transição implementadas no século XX, com destaque à experiência cubana, chinesa e, sobretudo, soviética.

Antes de mais nada, metodologicamente, o socialismo não é uma categoria fechada e perfeita, mas sim, um processo, de tentativa e erro, para a superação do capitalismo rumo ao comunismo. Falar da crise do socialismo real remonta a uma análise mais apurada do processo soviético. A crise da URSS promoveu teses anticomunistas radicais, como a construção de Francis Fukuyama sobre o fim da história. É nesta baila, de desorganização política do nosso campo, que Mark Fisher, com uma ironia singular, afirmou ser mais fácil o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

De acordo com a análise trazida por Fernando Haddad, o problema central do socialismo soviético era a sua lógica despótica. Isto, pois, a partir da escolha da supressão do mercado pelo mecanismo do cálculo econômico, o Estado, e o burocrata, se tornou o ente, não apenas, responsável pelo planejamento, mas também pela apropriação e distribuição do excedente. É, pois, neste sentido, que o autor interpreta o referido processo como sendo um processo de acumulação primitiva. E, isto, em termos jurídicos, consolidou um fenômeno de distribuição do excedente de acordo com as bases do capitalismo.

O declínio do processo soviético, com suas críticas e contradições, da qual não me aprofundarei, representa, por um lado, o espaço político importante para o avanço político do capitalismo e, por outro, uma descrença forte da população mundial com as alternativas de esquerda.

Neste sentido, não se pode perder de vista a lógica do socialismo enquanto processo real. Não há resposta certa. É, pois, nestes termos, a despeito dos questionamentos de Fernando Haddad, que não se pode ignorar, com suas idiossincrasias, o processo revolucionário e de desenvolvimento nacional chinês, enquanto um processo real, e em disputa, sobre uma transição a outro modo de produção.

Fernando Haddad, porém, defende um outro horizonte de desenvolvimento socialista. Há, no autor, uma profunda descrença de que o processo socialista deve, em termos leninistas, “dar um passo para trás para dar dois para frente”. Ou, em palavras mais técnicas, uma descrença de que o desenvolvimento das forças produtivas tem uma força libertária em si mesmo. Ou seja, coloca-se em xeque a tese da necessidade de um intenso e acelerado processo de desenvolvimento econômico para garantia do socialismo.

A alternativa apresentada por Fernando Haddad é a da economia solidária. A contextualização do capitalismo superindustrial cumpre o papel de demonstrar que o efeito direito do desenvolvimento das forças produtivas não consolida um processo de libertação, ou de liberação do trabalho, mas de intensificação da dominação e, mais ainda, da exclusão do alien. Para além disso, Fernando Haddad defende que o projeto socialista exige um casamento entre desenvolvimento e meio ambiente, enquanto condições necessárias e complementares.

Neste sentido, há uma defesa do cooperativismo enquanto método de desenvolvimento socialista. Esta proposta, cumpre mencionar, resguarda um caráter inicial próprio do socialismo utópico de Robert Owen, isto é, modelos socialistas essencialmente baseados na boa vontade. A riqueza do socialismo científico, inegavelmente, está no método. E, cumpre mencionar, Fernando Haddad aprimora, respaldado nos avanços de Paul Singer, o cooperativismo, lhe concedendo duas tarefas: a superação da competição individual do mercado, para uma lógica colaborativa entre cooperativas e, para tanto, o necessário papel de disputa política que as cooperativas devem se colocar a fim de construir um processo de hegemonia e superação.

É, pois, a partir desta proposição que eu estabeleço uma segunda hipótese: a proposta de um socialismo com base no cooperativismo dialoga, diretamente, com a crise do capitalismo superindustrial, vez que tenta superar o processo de pulverização e exclusão dos trabalhadores enquanto terceiro excluído, para espaços em que os trabalhadores se encontram, se reúnem e cooperam entre si, sem patrões, rumo a um desenvolvimento comum e compartilhado.

Conclusão

Fernando Haddad nos provoca a pensar o maior desafio político da nossa geração: a necessária construção de uma nova utopia que garanta a materialização de um socialismo emancipatório que seja capaz de superar, em termos dialéticos, os processos de dominação e exclusão, típico do capitalismo, em suas várias fases.

A crise do capitalismo superindustrial exige um novo ferramental e um novo conjunto de soluções políticas. Neste sentido, não são úteis nem adaptáveis as soluções trazidas pelo Estado de bem-estar social, típicas do capitalismo fordista, nem tão pouco, a mera transposição das práticas do socialismo soviético. Um outro projeto é necessário e aí está o cerne da provocação de Fernando Haddad.

Penso que nossa geração tem uma inadiável tarefa de pensar o nosso projeto socialista, atualizado e com base nas raízes e necessidades do povo brasileiro. É fundamental, para tanto, entender, metodologicamente e de forma materialista, o processo revolucionário e de desenvolvimento chinês que, hoje, representa, ao menos na minha leitura, o maior processo de emancipação socialista humana da história. Precisamos entender seus desafios e suas contradições, no âmbito do “revoluir” chinês, um desafio ainda não enfrentado, de maneira profunda, por Fernando Haddad nestes escritos, ainda que fique claro que sua referência socialista, como apontei no capítulo anterior, tenha outro rumo.

O tempo presente nos provoca à ação. Quem busca construir uma resposta, falsa, sem dúvidas, a esta crescente massa excluída é o fascismo contemporâneo. E, para tanto, ao invés de unir a multidão, radicaliza o discurso da exclusão a partir da lógica dos vários inimigos sociais. O medo é a melhor estratégia de dominação e exclusão.

O desafio que está colocado é o de construir um projeto coletivo que seja capaz de organizar corações e mentes, cada vez mais individualizadas e com disputas entre si, em torno de uma forma de superação emancipatória socialista. Para tanto, e encerro com isso, é tarefa inadiável do Partido dos Trabalhadores construir este projeto. E, sendo a ação revolucionária dependente de uma sólida teoria revolucionária, Fernando Haddad brinda a militância petista com provocações, análises e propostas que avançam neste sentido. À luta.

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