26 Junho 2026
Dom Cristóbal López Romero, cardeal-arcebispo de Rabat, participa do segundo consistório de Leão XIV, medida que considera, em entrevista ao jornal Avvenire, "a resposta lógica e necessária a um pedido que nós, cardeais, lhe fizemos durante o pré-conclave. Precisamos nos conhecer melhor. É bom para todos nós compartilharmos a riqueza da diversidade de nossas Igrejas. Devemos cercar o Papa, apoiá-lo e acompanhá-lo mais de perto."
A entrevista é de Giacomo Gambassi, publicada por Religión Digital, 25-06-2026.
O Papa convoca cardeais de todo o mundo pela segunda vez este ano. Este é o segundo Consistório Extraordinário da era Leão XIV, após o de janeiro. Estão previstos dois dias de diálogo e debate entre o Pontífice e o Sacro Colégio Cardinalício, para sexta-feira e sábado, tal como aconteceu há seis meses. A partir de 2027, o encontro será anual e terá uma duração maior.
“Esta é a resposta lógica e necessária a um pedido que nós, cardeais, fizemos durante o pré-conclave. Precisamos nos conhecer melhor. É bom para todos nós compartilhar a riqueza da diversidade de nossas Igrejas. Devemos cercar o Papa, apoiá-lo e acompanhá-lo mais de perto”, disse o cardeal-arcebispo Dom Cristóbal López Romero, da Arquidiocese de Rabat, no Marrocos, ao jornal Avvenire. Ele também está entre os 241 cardeais convocados ao Vaticano para o encontro, que acontecerá na segunda-feira, Solenidade de São Pedro e São Paulo. “Estou extremamente grato pela proposta de convocar um Consistório anual que dure pelo menos três ou quatro dias e inclua também um momento de intensa espiritualidade na forma de um breve retiro”, enfatizou o cardeal salesiano de 74 anos, de origem espanhola.
Foi o próprio Leão XIV quem anunciou, ao final da sessão de janeiro, que o Consistório se tornaria uma prática regular durante seu pontificado, algo que não havia ocorrido durante os anos do Papa Francisco. A agenda para os próximos dias inclui a proclamação do Evangelho em meio à esperança, ao sofrimento e às tensões que afetam a humanidade; a ascensão da “cultura do poder” no cenário internacional, que será avaliada à luz da encíclica Magnifica Humanitas, cujo quinto capítulo é inteiramente dedicado à normalização da guerra, à construção da paz e à urgência do diálogo; e o caminho para a implementação do Sínodo em preparação para a Assembleia Eclesial Global agendada para outubro de 2028 no Vaticano.
Eis a entrevista.
Sua Eminência, Leão XIV, denuncia a reintrodução da guerra e o clima de belicosidade, mas também reacende o clamor popular pela paz. Uma voz profética ou uma voz silenciada?
Ambos. Não é isso que acontece com os profetas? A maioria não foi ouvida. E muitos acabaram apedrejados, executados ou assassinados — não apenas no Antigo Testamento, mas também nos séculos XX e XXI.
O Papa reitera que não devemos perder a fé e que devemos superar "o estado de impotência". Como podemos cultivar a esperança?
O Senhor prometeu estar conosco todos os dias até o fim do mundo. Isso nos impede de desanimar e desesperar. No Norte da África, os bispos escreveram a Carta Pastoral “Servos da Esperança” há mais de dez anos. Celebramos o Jubileu da Esperança em 2025. Sim, o mundo sofre com a falta de esperança, e nós, cristãos, possuímos um tesouro que não podemos ignorar nem guardar para nós mesmos: devemos compartilhá-lo com toda a humanidade.
A unidade na Igreja era uma das preocupações de Leão XIV. Da liturgia (especialmente a Missa no rito antigo) à moral sexual, o Papa insistia que não deveria haver divisão. A Igreja precisa de maior unidade?
A Igreja precisa, hoje e sempre, ser una. Como Cristo nos pediu, orando ao Pai: “Que todos sejam um… para que o mundo creia”. A divisão entre os cristãos, tanto dentro quanto fora da Igreja Católica, é um escândalo que mina a credibilidade do que proclamamos. Contudo, unidade não significa uniformidade. O próprio Deus nos dá o exemplo. Ele é um só Deus, mas em três pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
O tema da liturgia estava entre os pontos da agenda do Consistório de janeiro.
Não nos iludamos: o problema não reside na liturgia, muito menos na linguagem usada nas celebrações litúrgicas. A questão é mais profunda: diz respeito à natureza da Igreja e à função da liturgia dentro dela. Trata-se da aceitação ou rejeição (explícita ou implícita) dos documentos do Concílio Vaticano II. É possível, por exemplo, tolerar a rejeição da concelebração eucarística ou da ideia da Igreja como Povo de Deus?
“Desapareçam para que Cristo permaneça”, disse Leão XIV em sua primeira homilia como Papa. Desde o início, ele insistiu na coragem de proclamar o Evangelho.
Nossa missão, como Igreja e como cristãos, centra-se em proclamar Cristo e testemunhar dele. O desafio reside em discernir como fazê-lo em cada lugar e tempo. Muitos cristãos reduzem isso a uma atividade "oral", ou seja, simplesmente proferir certas frases. Mas a evangelização não se limita a isso. Trata-se de proclamar a fé por meio de ações, de viver um estilo de vida que incorpora o Evangelho.
O Papa alertou contra uma fé íntima, na qual o espiritual se separa do social. Isso representa um risco real?
O espiritualismo sempre representou um perigo na vida cristã. A fé sem obras é morta. Ela se vive em comunidade: isto significa comunhão; é proclamada e alimentada pela Palavra de Deus: isto leva à formação; é celebrada na liturgia; e é vivida diariamente no compromisso com o Reino. Quatro dimensões sem as quais o “veículo” da vida cristã não pode avançar. E elas precisam estar bem alinhadas e equilibradas.
O Papa Leão XIV aponta para o diálogo inter-religioso como uma forma de contribuir para a paz.
As atuais circunstâncias políticas exigem uma clara condenação do uso do nome de Deus para justificar a guerra ou qualquer tipo de violência. O Papa Francisco já afirmou isso no Documento sobre a Fraternidade Humana, assinado em Abu Dhabi com o Imã al-Tayyib em 2019. Leão XIV reitera isso firmemente.
O Papa nos convida a investir nos jovens. Ele dedicou sua primeira encíclica aos desafios digitais que os aguardam.
Sempre se disse que, se um país quer progredir, deve investir em educação. Os políticos avaliam isso principalmente sob uma perspectiva econômica. Nós, como Igreja, sabemos que, se quisermos que a civilização do amor deixe de ser uma utopia, devemos investir na educação de todos, mas especialmente dos jovens. O Papa Leão XIV estava ciente disso.
Tanto em sua viagem à África quanto em sua encíclica, o Papa condenou uma economia que mata e enfatizou a necessidade de garantir a inviolabilidade dos direitos humanos. É necessário um maior compromisso com a justiça social?
Claro. O Papa escolheu o nome Leão em homenagem a Leão XIII, pai da Doutrina Social da Igreja. Um “corpo doutrinário” proposto a todos os cristãos e a toda a humanidade.
Um ano do pontificado de Leão XIV. O que mais lhe chama a atenção neste período?
A serenidade, a prudência e a firmeza corajosa com que o Papa enfrenta o exercício do seu ministério, especialmente em matéria de governo da Igreja e na proclamação dos valores do Evangelho ao mundo, sobretudo a paz.
Um Papa “migrante”, que une o Norte e o Sul do mundo em sua história pessoal e em seu serviço eclesial.
Creio que a experiência de Leão XIV como missionário e bispo no Peru, e como superior da Ordem Agostiniana, o influenciou profundamente e, eu diria, o preparou para o ministério petrino. Como Prior Geral, ele enfrentou situações que lhe permitiram desenvolver uma sólida força para resistir às dificuldades e à dissidência; por isso, ainda hoje, diante de certas críticas indisciplinadas ou excêntricas, ele reage com completa serenidade.
Além disso, ele possui uma perspectiva universal: visitou mais de 50 países em todos os continentes, e não como turista; poucos cardeais no Conclave tinham uma visão tão ampla do mundo e da Igreja. Soma-se a tudo isso o seu tempo no Vaticano, que, embora breve, permitiu-lhe compreender o funcionamento interno da Cúria e desempenhar um papel decisivo na nomeação de várias centenas de bispos.
Alguns argumentam que Leão XIV transita entre a "sólida tradição" e o "progresso legítimo", como bem se poderia dizer nas palavras do Concílio.
Tradição e progresso não são conceitos opostos, mas sim realidades que se complementam. Não há progresso se não partirmos do passado, da experiência vivida; e a tradição morre se se fossilizar, se se transformar numa relíquia de museu. O problema surge quando confundimos Tradição com tradições e esquecemos que a Tradição tem as suas raízes no próprio Cristo. Precisamos voltar ao primeiro século da Igreja, ao Evangelho, e não às tradições de um, dois ou três séculos atrás.
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