23 Junho 2026
A sinodalidade convida os católicos a sair dos muros da Igreja, porque ela é para a Igreja, mas também para a sociedade, diz a teóloga Cristina Inogés-Sanz em entrevista ao 7MARGENS. Referindo-se à recente encíclica do Papa Leão, Magnifica Humanitas, que está "repleta de referências sinodais", acrescenta que "todos os temas do documento — do desarmamento ao combate à pobreza — estão directamente relacionados com o cuidado da casa comum, a fraternidade e a atenção aos mais pobres, focos da Laudato Si', Fratelli Tutti e Laudate Deum, textos do Papa Francisco".
Numa breve passagem por Lisboa há alguns dias — "Não procuro [nada em Portugal], encontro, é diferente desde a primeira vez" —, a teóloga que foi convidada pessoalmente pelo Papa Francisco para integrar o Sínodo sobre a Sinodalidade diz ainda que continua "a acreditar no processo sinodal e na necessidade urgente" de a Igreja Católica ser sinodal. E os leigos têm um papel: "Temos direitos baptismais que muitos católicos desconhecem. É um trabalho lento e, provavelmente, não veremos o seu fim, mas não podemos desistir."
O processo sinodal avança sobretudo na América Latina, diz ainda a colaboradora do 7MARGENS e da revista espanhola Vida Nueva. E o tema da ordenação de mulheres está ligado à dinâmica sinodal, mas requer, antes, a renovação do ministério presbiteral — a chave para a mudança está na formação dos seminários.
Nesta entrevista em que fala também dos seus gostos pessoais, Cristina Inogés-Sanz reflecte ainda sobre o modelo das viagens dos papas, a propósito da recente ida do Papa Leão a Espanha, e avisa contra a polarização vinda dos Estados Unidos e que já atinge a Espanha e a Igreja Católica.
A entrevista é de António Marujo e Jorge Wemans, publicada por 7Margens, 19-06-2026.
Eis a entrevista.
O seu Papa? "Francisco, sem dúvida alguma. Para sempre." E o que com ele conversou?…
"A sinodalidade não é apenas para a Igreja, mas também para a sociedade"
Cinco anos depois de Francisco ter lançado o tema da sinodalidade, pouco se avançou, pelo menos nas igrejas do sul da Europa. Está desanimada?
Não, porque acredito firmemente que não há outro caminho que não seja a sinodalidade. Não há outra saída, neste momento, na Igreja. É um assunto nosso, dos leigos e de todos, não tanto dos bispos, nem dos padres. É um convite a tomar a decisão de que podemos, se quisermos, ir transformando a Igreja numa Igreja sinodal.
O que implica isso? Talvez também ter de confrontar os bispos e os padres com a realidade. Mas, numericamente falando, nós, os leigos, somos em maior número e, se todos quisermos, sobretudo a partir de pequenas comunidades e de comunidades paroquiais, poderemos ir transformando e construindo uma Igreja sinodal.
E será que os leigos católicos querem uma Igreja sinodal?
Essa é a pergunta. Queremos ou estamos à espera que nos digam o que podemos ou não podemos fazer? Há muitos leigos que também não estão interessados em processos como este. Seria preciso perguntar-lhes: que tipo de Igreja vivem? Porque se, para eles, a Igreja é apenas ir à missa, que lhes interessa que a Igreja seja sinodal ou não?
Devemos distinguir entre as pessoas que são crentes e as pessoas que, embora crentes, são sobretudo religiosas. Estas últimas precisam de normas estabelecidas e de alguém que lhes diga: "isto sim e aquilo não". As pessoas crentes, mas não tão fechadas dentro da religião, são muito mais livres para ir adquirindo essa capacidade — talvez não de mudar as estruturas, mas de as tornar mais amigáveis e de, com o tempo, fazer com que elas acabem por mudar.
O Documento Final [DF] serviu para alguma coisa?
Em alguns lugares, sim. A questão é, em primeiro lugar, estarmos convencidos de que se trata de magistério eclesial por decisão do Papa Francisco. Isto significa que podemos pedir que seja cumprido e cumpri-lo nós próprios, os leigos. Em segundo lugar, é um documento que permite trabalhar com muita liberdade, porque não apresenta respostas fechadas. Temos de ser adultos na fé e ir trabalhando nós próprios na sua implementação.
Além disso, nem tudo se resume a pôr o DF em prática como tal. Trata-se também de ter iniciativas que permitam avançar com a ideia da sinodalidade. Por exemplo, e não o digo por estar envolvida, na minha diocese faço parte de um grupo sinodal onde há vários padres e alguns leigos.
Padres?
Sim, daqueles que viveram o Concílio Vaticano II e que continuam a ter a esperança do Concílio; são muito criativos. Quando o Sínodo terminou, apercebemo-nos de que na nossa diocese era como se ele já tivesse desaparecido há muito tempo.
Que podíamos fazer? Fizemos algo que, no início, nos parecia muito modesto, mas também não tínhamos grande margem de manobra: criámos um blogue onde começámos a escrever (https://synodos.blog). Essa iniciativa simples, dois anos depois, reflecte-se em 34 mil visualizações e 152 assinantes do blogue, 510 seguidores da página do Facebook Hacia una Iglesia sinodal, 100 publicações e 15 páginas fixas, algumas das quais já ultrapassaram as 2.600 visualizações. Há um vasto público em países como os Estados Unidos, Argentina, México, Portugal, Colômbia, Chile, Itália ou Irlanda, para citar alguns. É partilhado com a Secretaria-geral do Sínodo através da sua página no Facebook e no X e, por vezes, partilhado pela própria Secretaria. E, neste momento, somos 28 autores, muito mais do que aqueles com quem iniciámos esta aventura.
E que efeitos há mais?
É verdade que a maioria temos formação teológica e isso permite-nos escrever artigos muito concretos, com temas específicos e bem argumentados. Mas também é verdade que, actualmente, outros autores não têm essa formação e integraram-se tão bem na dinâmica sinodal que argumentam com base no Documento Final e escrevem coisas maravilhosas.
O que conseguimos? Primeiro, que a secretaria do sínodo nos considere um "observatório sinodal da diocese", algo que nunca pensámos vir a ser, nunca! Foi uma coisa que nos caiu do céu! Depois conseguimos que o bispo e a equipa sinodal da diocese escutem algumas vozes diferentes. Nem sempre foi, nem é, fácil. Acreditamos que estamos a fazer o que devemos fazer. Só isso.
E no resto de Espanha?
Em Espanha, em termos sinodais, só se pode falar de uma diocese sinodal, Barbastro-Monzón (Huesca). Mas esta iniciou um processo ainda antes do Sínodo: um bispo com uma visão muito especial, muito pastoral, começou a transformar a diocese numa estrutura sinodal. E agora está muito mais consolidada. Madrid também segue nessa linha. Mas as outras… Málaga, por exemplo, teve uma mudança de bispo e também se está a notar a mudança. Mas fica por aqui, não há muitas mais dioceses com processos sinodais sérios.
"Onde o processo sinodal avança a toda a velocidade é mesmo na América Latina"
No conjunto da Igreja, que progressos houve e que acontecimentos valoriza mais, neste caminho de cinco anos?
O caminho sinodal está a consolidar-se na América Latina, sobretudo através da acção do Celam [Conselho Episcopal Latino-Americano]. Estão a preparar, por exemplo, a licenciatura em Teologia Pastoral Sinodal, o que é importante. E estão constantemente em processos de formação, para toda a gente, a todos os níveis, repetindo a formação que já fizeram há anos porque há sempre gente nova que se vai incorporando nas comunidades.
Não se deve olhar para a América Latina como a locomotiva da Igreja, porque isso seria um erro. A Europa foi durante muitos anos a locomotiva da Igreja e isso foi um erro. Muitos dos problemas que temos hoje devem-se ao facto de termos tentado europeizar a Igreja. Mas, neste momento, se quisermos ver uma Igreja que realmente avança na sinodalidade, é a latino-americana.
As Igrejas da Europa estão a estagnar ou não entraram numa dinâmica desse tipo?
Dizer sim ou não é complicado. Não conheço toda a Igreja europeia. Claro, há a Igreja alemã, mas é muito conflituosa e não avança ao mesmo ritmo que todas as outras. De qualquer forma, gosto do facto de ela não ter medo de falar de certos temas. Mas, a menos que haja uma diocese perdida algures que não conhecemos, em geral, onde o processo sinodal avança a toda a velocidade é mesmo na América Latina. Não será tanto porque todos os bispos estão a favor, mas sim porque a base da Igreja tem tanta força que, na verdade, ele avança e isso já se nota.
Então não perdeu três anos da sua vida a trabalhar no Sínodo?
Não, de forma alguma. Continuo a acreditar no processo sinodal e na necessidade urgente de sermos uma Igreja sinodal. Entristece-me muito ver como alguns bispos, padres e leigos em muitos países não fazem nada ou fingem que fazem para disfarçar ou provocam medo perante as mudanças. Isto é a prova de quão medroso e falso é o poder. Quanto medo devem ter de perder o poder para recorrerem ao medo!
Também me entristece ver como muitos leigos continuam à espera de ver o que a hierarquia lhes permite fazer. É necessário que muitas pessoas descubram ou redescubram o que nos é dado no baptismo. Temos direitos baptismais que muitos católicos desconhecem. É um trabalho lento e, provavelmente, não veremos o seu fim, mas não podemos desistir. Além disso, é o grande dom e legado de Francisco. Mas, ainda que seja um processo lento, não podemos deixar de trabalhar nele, porque o tempo vai-se esgotando.
E com Leão XIV estamos no bom caminho sinodal?
Sim, sem dúvida alguma. De outras formas, com o seu modo de ser, mas essa é a riqueza da diversidade petrina. Cada papa contribui com a sua vida, a sua experiência. Estes dois últimos papas, além disso, contribuem a partir de espiritualidades muito distintas. Tudo isso é uma riqueza.
Leão XIV colocou como referência importante a Assembleia Eclesial de 2028. Se tivesse oportunidade de lhe dizer algo, que iniciativas proporia?
O programa que está concebido é um bom programa, mas está a dar, na minha opinião, demasiada ênfase à sinodalidade colegial dos cardeais, dos bispos… O que é bom, mas tem de insistir muito mais no envolvimento dos leigos porque, em geral, os leigos temos pouca memória. Caso contrário, os leigos entenderão que se está a recuar e que, afinal, não importam, porque isso é apenas coisa para os bispos. Nós, leigos, temos de nos sentir interpelados, como com Francisco na primeira fase do Sínodo. Ou seja, surpreender-nos com o que podemos fazer.
Não está confiante de que apareça algo nesse sentido? Uma qualquer iniciativa do Vaticano mobilizadora dos leigos?
Este Papa não é muito de surpresas, não o vejo assim. Não tem grande capacidade de surpreender. Tem essa capacidade quando fala e quando escreve, isso é verdade. Mas em termos de gestos, não estou segura. Os seus gestos, de certo modo, são previsíveis. No tempo de Francisco, acordávamos de manhã, tomávamos um café enquanto se lia o jornal e procurávamos ver o que ele dizia ou tinha dito, ou o que propunha. Com este Papa, não. Os meios de comunicação só prestam atenção se ele disser algo contra Trump. Não me parece justo. Seja como for, ele é assim e age em conformidade.
Reparem neste pormenor: ele domina muito bem o espanhol — trabalhei com ele no mesmo grupo da assembleia sinodal —, mas nos encontros em Madrid, em Barcelona e nas Canárias, leu sempre respostas previamente escritas. Aos que lhe falavam, os jovens em Madrid, os migrantes nas Canárias e as reclusas na prisão de Brianza, na Catalunha, respondeu sempre lendo respostas escritas! Não gosta do improviso? Não sei…
É curioso o que diz, porque dois terços das respostas ao inquérito do 7MARGENS antecipam que este Papa dará um impulso decisivo à sinodalidade.
Acho que ele segue essa linha. Neste primeiro ano, repetiu três vezes que o seu programa é a [exortação] Evangelium Gaudium [do Papa Francisco]. Mas isso não quer dizer que devemos esperar algo surpreendente. É outro modo: mais lento, mais pausado, tudo é muito medido. Saímos de Francisco, que era como um furacão, e de repente chegámos à entrada da caverna de Elias com o silêncio…
"A ordenação de mulheres está ligada à mudança e ao processo de evolução da Igreja"
Na encíclica Magnifica Humanitas, o Papa identifica o bem comum com o rosto sinodal da Igreja. Concorda?
Concordo. Estou a preparar um texto sobre esse tema, porque a encíclica está repleta de referências sinodais. Uma Igreja sinodal, por definição, pela sua própria constituição, pela sua própria forma de agir, é uma Igreja que busca o bem comum. E não apenas o bem comum dentro da Igreja. Ou seja, nós, cristãos, não nos limitamos apenas ao bem comum dentro da Igreja, mas ao bem comum do mundo, da sociedade em que vivemos. Porque a sinodalidade convida-nos a sair dos muros da Igreja. A sinodalidade não é apenas para a Igreja, mas também para a sociedade.
Todos os temas da Magnifica Humanitas, do desarmamento ao combate à pobreza, estão directamente relacionados com as [encíclicas] Fratelli Tutti e Laudato Si' e com a [exortação] Laudate Deum [do Papa Francisco]. Olhando com atenção para as notas de rodapé da encíclica, mais de metade são do magistério de Francisco. E Francisco é sinodalidade desde o início do pontificado, embora não tenha utilizado a palavra logo desde o início.
E a ordenação das mulheres só será possível numa Igreja sinodal? Ou o tema não se cruza com a sinodalidade?
Estou cada vez mais convencida de que a ordenação das mulheres requer, antes de mais, a renovação do ministério sacerdotal. O caminho para sermos uma Igreja sinodal terá de se articular com a renovação de muitas questões teológicas. A teologia dos sacramentos tem de ser revista de cima a baixo. Embora pareça que não tem nada a ver, é preciso renovar a teologia dos votos da vida consagrada, porque já não se encaixa na realidade que temos hoje. É preciso, ainda, que toda essa renovação teológica seja também uma renovação na teologia pastoral. E não basta reformar os seminários, mas renovar todo o processo de formação e a própria estrutura dos seminários.
A ordenação de mulheres está, quer queiramos quer não, ligada à mudança e ao processo de evolução da Igreja que temos para uma Igreja sinodal. Sobretudo porque o actual modelo de presbítero tem de mudar. Não porque ele não sirva por sermos mulheres, mas porque o que não nos serve é o modelo em si. Temos um modelo do Concílio de Trento e estamos no século XXI.
Ainda tentando sair do Concílio de Trento…
Sim. Há pessoas que se surpreendem quando digo que os seminários são conciliares, mas conciliares relacionados com o Concílio de Trento, não com o Concílio Vaticano II. Se considerarmos, no mínimo, que esse conceito de seminário conciliar corresponda ao Concílio Vaticano II, já teremos ganho muito. Mas, evidentemente, a questão da ordenação de mulheres, seja diaconal ou presbiteral, tem muito mais possibilidade de se concretizar numa Igreja sinodal.
Já disse em público que Francisco lhe tinha dito que gostaria de criar uma mulher cardeal. Acha que não o fez por medo de que acontecesse na Igreja Católica algo semelhante ao que está a acontecer na Igreja Anglicana?
Ele tinha essa ideia, queria nomear uma mulher cardeal, mas a oposição que enfrentava dentro do próprio Vaticano era tão grande que o risco era demasiado elevado. Não sei desde quando ele teria isso em mente, mas a mim e a alguns jornalistas, disse-o [na parte final] do pontificado. Se o tivesse feito no início… se é que ele pensou nisso. Isso eu não sei, mas mais para o final tinha tanta oposição e estava tão sozinho que era um risco demasiado elevado fazê-lo.
Sugeri-lhe algumas questões para que fossem abordadas na segunda assembleia geral do Sínodo e ele disse-me: "Deixa-me pensar nisso." Passados alguns meses, escreveu-me uma carta em que me dizia: "Não posso forçar tanto a corda." E compreendi.
"A chave para avançar está na formação nos seminários"
No recente inquérito do 7MARGENS ficou evidente que os grandes obstáculos à sinodalidade são o desinteresse dos bispos e a oposição dos padres e dos leigos mais clericalizados. Como poderão superar-se estes obstáculos?
Vejam este caso real que me relataram: quando alguém interroga o bispo sobre por que razão a diocese não avança sinodalmente, o bispo costuma responder: "Porque os padres não querem." Mas uma vez, quando deu esta resposta em público, alguém levantou a mão e perguntou-lhe: "E o que quer o senhor bispo dos padres?".
Certo, a maioria dos padres não querem saber da sinodalidade, mas se não se tenta descobrir porquê, se não forem encorajados e ajudados na formação, que se pode esperar? Vamos ter de nos perguntar: o que fazer com os padres que travam o processo sinodal?
Por exemplo, o valor dos conselhos pastorais paroquiais é tremendo, é imenso. Mas estamos muito habituados, pelo menos no meu país, a que os membros do conselho estejam nele para ouvir e ver o que diz o pároco. Contudo, a importância do conselho paroquial não é essa. O seu principal valor é dar a iniciativa aos leigos.
Falta o quê?
Estamos perante uma questão de maturidade na fé. Devemos ter consciência de que, nós leigos, somos corresponsáveis, temos um mandato recebido no baptismo que temos de exercer. Temos uma série de direitos baptismais que nos abrem a porta para fazer muitas coisas que nunca fizemos.
O padre não quer? Bem, é preciso ver realmente o que não quer e depois dizer-lhe: "Vais continuar a ser o pároco, ninguém te vai tirar o cargo de pároco, mas é preciso fazê-lo de outra forma. Tens de entender que não estás acima da comunidade, nem a comunidade é propriedade tua pela simples razão de que pertences a ela."
Temos muito medo de iniciar um processo, não de confronto, mas de dizer que, assim como coexistem desde há muito tempo duas formas de Igreja, vão coexistir duas formas de paróquia. No futuro próximo, por mais padres que sejam ordenados, haverá cada vez menos. Por isso, em algum momento, teremos de adoptar o modelo suíço, no qual o pároco aparece quando é estritamente necessário, e o resto, a gestão, fica a cargo de leigos formados, muito bem formados. Não é que o modelo me agrade, mas reconheço que talvez não haja outra solução.
Há paróquias onde, pelo facto de não haver pároco, alguns leigos copiaram o carácter hierárquico e autoritário ao desempenharem algumas das funções do pároco…
Como os leigos nunca tiveram essa responsabilidade, como não aprenderam a gerir a responsabilidade da comunidade, o que fazem é agir por imitação dos modos do pároco, porque não conhecem outros. Temos de nos encorajar uns aos outros a adquirir formação teológica; não é preciso que todos estudem teologia, mas que tenham uma formação teológica um pouco mais sólida, precisamente para que estas coisas não aconteçam. Porque o problema é este: o padre diz que não e, como não há ninguém com argumentos para lhe responder, a situação não muda; mas se surgir algum ou alguma leiga com argumentos sérios, a situação muda.
"O futuro da Igreja e o modelo de paróquia sinodal"
Há teólogos e pastoralistas que afirmam que o futuro da Igreja não está na paróquia, mas sim nas pequenas comunidades. Que lhe parece? Como seria uma futura paróquia sinodal?
Falar de uma paróquia sinodal sem a evolução para uma Igreja sinodal, não fará muito sentido. Se transformamos a paróquia, estamos a transformar a Igreja, e se transformamos a Igreja, a paróquia tem de se transformar.
Sim, mas imaginando uma paróquia sinodal…
Em primeiro lugar, o conceito de paróquia tem de mudar. Será preciso começar também a diferenciar entre o meio urbano e o meio rural. Numa aldeia é possível criar uma comunidade de comunidades com as aldeias vizinhas, é o que se chama as unidades pastorais; no entanto, essa mudança tem de começar primeiro na cidade, porque chegará um momento em que, por falta de padres, metade das igrejas em meio urbano terá de ficar fechada.
Vamos ter de criar outros modelos que talvez sejam pequenas comunidades que possam encontrar-se no edifício da paróquia sem que seja uma paróquia, ou em outros espaços na comunidade paroquial. Procurar locais que sejam ótimos para todos, onde as crianças possam também estar. Estes locais talvez não se reduzam ao espaço paroquial, nem mesmo do templo. As Igrejas são um património que há que manter, mas cuja manutenção custa imenso dinheiro. Não nos podemos dar ao luxo de que funcione uma ou duas horas por semana e no resto do tempo esteja fechado e vazio.
É preciso vendê-las para discotecas como já se fez no norte da Europa?
Se levarmos a sério a questão dos abusos, acabaremos, como em Boston, a vender tudo menos a catedral para pagar às vítimas. Para que serão vendidas, não saberemos, mas teremos de as vender para pagar.
Outro dado do nosso inquérito diz que 96,5 por cento das pessoas querem a Igreja Católica como uma Igreja sinodal, mas só um terço delas pensa que isso irá acontecer em Portugal. Sente o mesmo pessimismo em Espanha e noutros locais?
Eu não falaria de pessimismo… Há, sim, Igrejas e pessoas que vão mais depressa do que outras. Creio que, neste momento, além de termos dado passos importantes para criar essa estrutura sinodal e para criar essa Igreja sinodal, o fundamental agora é transmitir às gerações futuras que outra forma de ser Igreja é possível. Não só isto, como dizer-lhes que essa Igreja, essa outra forma de ser Igreja nunca estará totalmente concluída, porque a Igreja sinodal é uma Igreja aberta a receber as mudanças de cada geração, do que acontece no seu ambiente social, no ambiente económico, político e climático; por isso, é uma Igreja que nunca estará totalmente concluída.
Sempre em processo?
O importante é que as gerações que vêm atrás de nós vejam que não se trata de mudar e criar outra Igreja, mas sim que na Igreja sinodal é possível continuar a evoluir. Os passos seguintes serão dados de acordo com as necessidades que cada geração identificar. Além disso, tais passos não têm de ser dados à mesma velocidade nem em todo o mundo em simultâneo. Nem mesmo num país ou numa cidade: haverá paróquias que evoluirão mais rapidamente, outras que evoluirão mais lentamente, mas isso não significa que não evoluam.
"As viagens papais e a polarização MAGA que chega à Igreja"
Já escreveu no 7MARGENS sobre a recente visita do Papa a Espanha. Que avaliação faz?
Há questões que, talvez por uma questão de sensibilidade minha, gostaria que tivessem tido um destaque maior. Mas o balanço é positivo. A pergunta é: dentro de um mês, o que ficou? O Papa falou no Congresso. Os deputados, que creio que não perceberam nada, aplaudem durante sete minutos e no dia seguinte quando está a voar para Barcelona, estão outra vez a "matar-se" no mesmo Congresso. Então o que escutaram? O que aplaudiram? Porque aplaudiram? Não só por estarem no mesmo ambiente hostil, agressivo, mas porque, além disso, as próprias palavras do Papa serviram para se atacarem uns aos outros. E o que fica da visita às Canárias e da reflexão que ele fez sobre a migração?…
Mas não é sempre assim? O que poderia o Papa ter dito ou feito de diferente?
Ele fez o que tinha de fazer e disse o que tinha de dizer, ele interpela… Disse coisas fortes nos discursos, coisas muito fortes. Mas, por exemplo, no discurso do Congresso, creio que metade de Espanha estava à espera que ele pronunciasse uma palavra: corrupção. E isso não aconteceu. Depois, reúne-se com os bispos e diz que é preciso pedir perdão pelo dano e pela dor causados por membros do clero. Mas não menciona a palavra "abusos". Organizam-lhe a agenda para que tenha tempo para se reunir com Bad Bunny, mas a reunião com as vítimas de abusos não pode durar menos de uma hora…
Tal como estar em Montserrat, rezar o Rosário em Montserrat e não pedir perdão, quando o centro da corrupção sexual da Igreja catalã é Montserrat… Sinceramente, não consigo imaginar o Papa Francisco ir a Montserrat e não dizer nada sobre as vítimas. O mosteiro de Montserrat é o centro religioso do independentismo catalão. Ainda que nem todos os catalães sejam independentistas, veem Montserrat como um centro espiritual. Um lugar demasiado importante para deixar passar a oportunidade.
Leão diz coisas muito fortes, mas às vezes é excessivamente diplomático e a maioria das pessoas não vai reler os discursos — há muitas coisas que, com este Papa, precisam ser lidas. Mas as pessoas não o irão ler, por isso muitas, creio eu, não vão ficar a saber o que ele, verdadeiramente, disse. Mas a minha pergunta é: estas viagens, no final, o que deixam?…
Diria o mesmo da viagem a África? É o modelo das viagens que está em causa?
África foi importante: durante o tempo da viagem (que foi longo), o foco recaiu sobre esses países, o que é muito bom. É uma pena que os meios de comunicação tenham desviado a atenção das declarações do Papa para as do presidente dos EUA. Mas também é verdade que o modelo tem de mudar.
Com o Papa a encontrar-se, por exemplo, com grupos da Igreja ou da sociedade e que as pessoas possam falar com ele?
Ou encontros informais. Por exemplo, quando ele se reuniu em Madrid com os agostinianos, a primeira frase, que parece engraçada, marca uma realidade: "Consegui que me deixassem alguns minutos para estar convosco." Ele agora é o Papa, é evidente que gostaria de ter passado um pouco mais de tempo com os agostinianos.
No encontro que teve no [estádio] Santiago Bernabéu com a sociedade civil, falaram o empresário, o sindicalista… Para que isso acontecesse pela primeira vez em 15 anos, uma semana antes a Conferência Episcopal tinha-se reunido e chamado os sindicalistas. Estavam há 15 anos sem se encontrarem. No fim, voltamos ao mesmo: lê-se uma página e o Papa já tem a resposta. Talvez os encontros devessem ter outra estrutura que não fosse um espectáculo… E, acima de tudo, porque, mesmo que seja de forma voluntária, expor as experiências de algumas pessoas em público… Não sei.
Que não fosse apenas estar num palco?
O Papa vai às Canárias, a um centro [de refugiados] e fala com todos; que se vejam imagens dois ou três minutos e o resto sem imagens, para não ser tudo tão protocolar como se fosse um chefe de Estado…
Na Igreja pode deixar-se toda a gente satisfeita?
Isso responde-se com outra pergunta: Jesus tentava deixar toda a gente satisfeita? Não, não tentava. Ele semeava o reino com a sua vida, as parábolas, os gestos… Não se preocupava com os ritos, as vestes litúrgicas nem em chamar a atenção pela forma como se vestia no seu dia-a-dia. É curioso como tudo o que ele quis deixar para trás, para alguns é a única coisa que consideram importante e, pior ainda, necessária para a salvação. Pobrezinhos! Ainda não perceberam que já fomos salvos por Jesus Cristo com a sua morte e ressurreição. A Igreja poderá deixar todos contentes quando deixar verdadeiramente de ter medo da liberdade do Espírito. É tão fácil… Porque o Espírito vai ao essencial.
Sente-se desanimada com a situação actual da Igreja?
Não quero ter muitos desânimos. Prefiro não negar a evidência, porque isso seria muito tolo, e ver que há um problema. Não fico presa ao problema, tento procurar a solução, as possíveis soluções ou as pessoas que possam resolver, porque nem sempre somos nós que o conseguimos.
A chave para avançar está na formação nos seminários — e aí gostaria que fosse muito mais rapidamente. É fundamental e tem de ser um ponto de partida de uma vez por todas, com tudo o que isso implica: formar previamente os formadores que entram nesses seminários, porque aí reside parte do sucesso, da rapidez com que podemos começar a caminhar como Igreja.
E em relação à sociedade, o que teme mais?
CIS — No meu país, já existe um problema: somos uma sociedade tremendamente polarizada e essa polarização também se reflectiu já dentro da Igreja. Aqui em Portugal, não vejo isso de forma tão forte. Mas há outro tema com o qual teremos de ter muito cuidado: toda a influência que a teologia MAGA [Make America Great Again], dos Estados Unidos, está a trazer. Ela já influencia a Igreja e, da Igreja, passa para a sociedade. Esses dois focos são os mais importantes neste momento, por diferentes motivos: a mudança real na formação dos seminários e muito cuidado com a teologia MAGA que nos vem dos Estados Unidos.
"Não procuro Portugal, encontro — e isso diz muito a favor dos portugueses"
7M — Nos últimos anos, vem muitas vezes a Lisboa e a Portugal. O que busca aqui?
CIS — Não procuro, encontro. É diferente desde a primeira vez. O primeiro contacto com Portugal foi com o jornalista Octávio Carmo, que me fez a primeira entrevista ao sair da sessão de abertura do Sínodo, em Outubro de 2021. Depois, foi através do José Alberto Lopes Costa, da Capela do Rato. Ainda estávamos em pandemia e tivemos uma reunião online. Depois passou um mês e meio ou dois e o [padre dehoniano] António Pedro Monteiro contactou-me para participar numa vigília do Movimento Sopro. Ele ensinou-me muito sobre Portugal e, acima de tudo, ajudou-me imenso a nível pessoal.
Não sei porquê, a partir daí houve uma presença mais assídua de Portugal na minha vida, pessoas que entravam em contacto comigo e comecei a vir. Da primeira vez, vim como turista. O país fascinou-me, e fiquei também fascinada pelas pessoas que tive a sorte de conhecer naquele momento. A partir daí, continuo a vir, mas não procuro; encontro, o que é diferente. Venho a Portugal e encontro sempre coisas que não esperava e pessoas que nunca pensei que fosse conhecer e que me ajudaram mais do que poderão imaginar. Também é verdade que encontro tranquilidade e segurança e um espaço para a reflexão teológica que não tinha no meu país. Pode ser que haja pessoas que não acreditem nisso, mas, a sério, eu não procuro. Encontro sempre. E isso diz muito a favor dos portugueses.
"Francisco, sem dúvida alguma. Para sempre"
E agora algumas perguntas mais pessoais: na música e na pintura o que prefere?
Não tenho formação musical, mas gosto de música clássica. Gosto cada vez mais de jazz, um pouco de rock (suave). Gosto da música pela emoção que me provoca. A pintura agrada-me muito. Às vezes, quando tenho tempo, vou ao Museu do Prado, em Madrid, e dedico-me a ver com calma algumas pinturas. Sempre que vou, visito a sala onde está o Cristo de Velázquez, que para mim é uma das mais belas representações do Evangelho de São João. Vou ver O Jardim das Delícias de Hieronymus Bosch. Uma verdadeira maravilha. Depois, quase entro em êxtase com A Descida da Cruz, de Van der Weyden. Aquelas figuras contorcidas pela dor, a disposição das figuras, os detalhes, as lágrimas, a palidez de Jesus morto, de Maria. Também vou ver A Anunciação de Fra Angelico que, após o restauro, é uma pintura que nos envolve. E gosto muito de Mark Rothko e da época azul e rosa de Picasso…
E no cinema?
Gosto do cinema negro americano dos anos 40 e 50, pela psicologia das personagens. Gosto de Bergman, Renoir e, claro, do neorrealismo italiano. Fico a reflectir sobre muitas coisas sempre que vejo O Evangelho Segundo São Mateus, de Pasolini. Confesso que não conheço muito o cinema português…
E na literatura?
Adoro ler. Ensaios, romances, poesia… Quando venho a Lisboa, tenho sempre dificuldade em fechar a mala, de tantos livros que compro. E, se vier à Feira do Livro, é quase impossível fechá-la!… Os livros são o melhor do mundo. Podem ser um refúgio em certas ocasiões; noutras, abrem-nos os olhos para novas ideias. Convivem silenciosamente connosco e, quando os abrimos, é como se as palavras ganhassem vida e nos chamassem e falassem connosco. Se tivermos a possibilidade de ler em diferentes idiomas, isso já é o paraíso. Por exemplo, de Saramago tinha lido algo em espanhol, mas agora posso fazê-lo, devagar, em português. Gostaria de ter a liberdade que ele demonstra em O Evangelho Segundo Jesus Cristo. É uma joia.
Qual foi o melhor presente que já lhe deram?
Um ramo de flores, que nunca chegou por culpa do transporte. Havia muito carinho, muita ternura nesse presente. Isso não tem preço. Por isso é o melhor presente que já me deram. Nada poderá superar esse presente.
A liberdade tem um preço?
Sim, muito alto e paga-se de muitas formas. Também na Igreja.
E vale a pena pagar esse preço tão alto?
Tudo depende de como se quer manter uma conversa com a sua consciência. Se a pessoa quer uma conversa que depois não a faça sentir vergonha de se olhar ao espelho, vale a pena pagar esse preço tão alto.
Quem é o seu Papa?
Francisco, sem dúvida alguma. Para sempre. Sinto muito a sua falta. Releio as suas cartas manuscritas e é como se ouvisse a sua voz. Isso não significa que desvalorize o que outros disseram ou fizeram, mas para mim, o meu Papa é e será Francisco.
De que falava com Francisco quando se encontrava com ele a sós, em privado?
Isso é algo que ficará entre ele e eu. É privado.
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