17 Junho 2026
A Irmã Shuly Pascalina Rozario, de 48 anos, membro das Irmãs Missionárias da Imaculada, cresceu na paróquia de Banpara, no norte de Bangladesh, onde o testemunho das irmãs moldou silenciosamente sua vocação. Ela ingressou na congregação e fez sua primeira profissão em 8 de fevereiro de 2002.
Após quase uma década de trabalho de ensino e formação na Itália e em Bangladesh, seguida por um breve período de ministério paroquial, Rozario foi enviada como missionária ao Brasil em janeiro de 2022. Hoje, ela serve na Paróquia de São Sebastião em Parintins, uma cidade próxima ao Rio Amazonas.
Ela afirmou que são necessários muito mais missionários no exterior, destacando uma grave crise nas vocações religiosas.
"Há menos padres e freiras e menos pessoas para cuidar da vida espiritual das comunidades", disse ela, acrescentando que estão sendo feitos esforços para incentivar as vocações locais.
Em uma visita recente a Bangladesh, ela conversou com o Global Sisters Report sobre seu trabalho pastoral, desafios e esperanças.
A entrevista é de Sumon Corraya, publicada por Global Sister Reporter, 15-06-2026.
Eis a entrevista.
Você trabalha em uma paróquia perto da Amazônia. Como é a sua atuação pastoral no dia a dia?
Eu trabalho como coordenadora paroquial. Nossa paróquia inclui 20 pequenas comunidades cristãs, e grande parte do meu trabalho se concentra em crianças e adolescentes entre 2 e 14 anos. Ofereço catequese e educação religiosa utilizando materiais preparados pela paróquia. Além da formação na fé, também oferecemos educação moral, atividades artísticas como pintura e esportes, que ajudam as crianças a se sentirem integradas e seguras.
Outra parte importante do meu ministério é visitar famílias e levar a comunhão aos enfermos em suas casas. Sempre que os jovens organizam programas ou atividades, eles me convidam para acompanhá-los e oferecer apoio. Muitas pessoas também me procuram para aconselhamento. Se alguém está passando por dificuldades e pede ajuda, tento ouvir, encorajar e, quando necessário, encaminhar para apoio adicional. Meu trabalho pastoral está profundamente centrado em estar presente para crianças, adolescentes e famílias em situações de vulnerabilidade.
Você dá ênfase à escuta em seu ministério. Por que a escuta é tão importante?
A escuta é essencial, especialmente no Brasil, uma sociedade muito grande e dinâmica. Muitas famílias são frágeis ou desestruturadas, e as pessoas frequentemente se sentem sozinhas. Idosos e enfermos, em particular, sofrem com a falta de cuidado e atenção. Em famílias desestruturadas, as crianças podem viver parte com a mãe e parte com o pai, em meio a conflitos e desentendimentos. Essas crianças crescem carregando profundas feridas emocionais e sentimentos de inferioridade.
Muitas vezes, não há ninguém a quem possam expressar sua dor. No trabalho pastoral, ouvir é, por vezes, mais importante do que falar. Muitas pessoas nem sequer esperam por conselhos; simplesmente precisam de alguém que as ouça. Quando as escuto com paciência, começam a abrir o coração. Falo apenas quando necessário, oferecendo palavras de conforto ou uma orientação simples. Isso faz com que se sintam mais leves, como se alguém tivesse partilhado o seu fardo.
Observo isso especialmente entre os adolescentes. Eles crescem em uma sociedade muito livre, e essa liberdade às vezes os leva a dificuldades. Quando surgem problemas, eles se distanciam de suas famílias e da igreja, e alguns recorrem às drogas. Depois de ouvi-los atentamente, tento oferecer sugestões delicadas ou conectá-los com pessoas que possam ajudar. Dessa forma, alguns jovens encontram, aos poucos, um novo rumo e a cura.
Por que acha que os serviços religiosos são tão necessários para as famílias no Brasil hoje em dia?
Muitas pessoas se identificam como cristãs, mas sua fé muitas vezes não é praticada com profundidade. Há uma grave escassez de padres e religiosas, e em algumas áreas remotas as pessoas podem assistir à missa apenas uma ou duas vezes por ano. Algumas comunidades passam meses sem ouvir o Evangelho ser proclamado.
Como a formação na fé é fraca, a vida familiar também é frágil. As crianças transitam entre as casas dos pais e, por volta dos 12 ou 14 anos, muitas iniciam relacionamentos muito cedo. Há também uma forte resistência em casar na igreja. Em meus quatro anos de experiência, não vi um único casal jovem se casar na igreja antes de morar junto. Muitos casais vivem juntos por décadas, criam filhos e só mais tarde buscam a bênção da igreja.
A independência é muito valorizada, mas muitas vezes leva à separação em vez da reconciliação. Quando os relacionamentos se tornam difíceis, as pessoas simplesmente se afastam. Nesse contexto, o acompanhamento espiritual é urgentemente necessário para ajudar as famílias a redescobrirem a fé, o compromisso e o perdão.
Como missionária de Bangladesh no Brasil, que tipo de testemunho pretende dar através da sua vida?
Não vim ao Brasil em meu próprio nome, mas como representante da Igreja Católica em Bangladesh. Procuro dar o meu melhor e testemunhar através do amor. Assim como Jesus me amou, quero refletir esse amor em minhas palavras, ações e comportamento. Quando encontro pessoas, procuro cumprimentá-las com um sorriso, mesmo aquelas que estão sofrendo profundamente. Alegria e bondade abrem corações.
O Brasil era um país novo para você. Como se sentiu ao ir para lá como missionária e quais desafios enfrentou?
No início, não gostei nada. Tudo era novo para mim — a comida, as roupas, a cultura, o clima e o estilo de vida. Senti-me como uma criança pequena novamente. O idioma tornou-se o meu maior desafio. Quando não conseguia comunicar, sentia-me impotente, quase como se fosse muda. Chorei muito no começo porque não conhecia ninguém e ninguém falava inglês. As freiras incentivaram-me a concentrar-me apenas em aprender português, pelo que até o italiano era desencorajado. Para as necessidades básicas, tive de recorrer a gestos.
Houve momentos em que quis voltar para Bangladesh. Então, percebi que irmãs mais experientes haviam confiado a mim essa missão e se sacrificado para me enviar. Essa consciência me deu forças. Aos poucos, comecei a passar tempo com as crianças na escola, ouvindo e observando. Mais tarde, consegui um professor particular de idiomas.
Os desafios físicos também foram significativos. Parintins fica perto da floresta amazônica, com temperaturas que chegam a 40 ou 45 graus Celsius. Os insetos estão por toda parte e sofro de alergias causadas por eles. Mesmo assim, vejo todas essas dificuldades como parte de carregar a cruz com Cristo.
Hoje, as mesmas pessoas que antes não conseguiam falar comigo agora me consideram próximo de seus corações. O amor delas é a alegria da minha ressurreição. Se eu não tivesse suportado o sofrimento, não teria experimentado essa alegria.
Como os leigos no Brasil apoiam a Igreja local?
Os fiéis leigos são muito generosos e participativos. Ao contrário de Bangladesh, onde os padres geralmente arcam com a maior parte das despesas da paróquia, no Brasil os párocos costumam se reunir com os fiéis e tomar decisões em conjunto. Quando são necessários projetos de infraestrutura, a comunidade assume grande parte da responsabilidade.
Muitos catequistas até mesmo pagam pelos seus próprios estudos para poderem ensinar melhor a fé à próxima geração. Esse senso de responsabilidade e serviço me comove profundamente e fortalece a igreja local.
O vício em drogas e as famílias fragilizadas representam grandes desafios. Que iniciativas existem para lidar com esses problemas?
O governo possui programas para tratar a dependência química, mas o acompanhamento costuma ser deficiente e a dimensão do problema é avassaladora. O tráfico de pessoas, especialmente envolvendo mulheres e crianças, é outra preocupação grave.
Dentro da Igreja, redes de leigos, padres e religiosas trabalham juntas para responder rapidamente quando casos são identificados. Quando alguém fica sabendo de uma criança em risco, alerta a rede para que medidas imediatas possam ser tomadas para proteger e apoiar os afetados. Não é o suficiente, mas é um sinal de esperança.
Hoje em dia, missionários transitam entre Bangladesh e o Brasil. O que esse intercâmbio significa para você?
Na comunidade onde moro, há irmãs da Itália, de Bangladesh e do Brasil. Duas irmãs PIME [Missionárias da Imaculada] de Bangladesh servem em outras partes do Brasil, juntamente com padres PIME e xaverianos também de Bangladesh. Ao mesmo tempo, duas irmãs missionárias brasileiras servem em Bangladesh. Isso criou uma bela ponte entre nossos países.
Há uma troca mútua de cultura e fé. Em ocasiões especiais, visto um sari e cozinho comida bengali, que as pessoas apreciam muito. Sinto orgulho em compartilhar minha cultura.
Para mim, essa troca também é um sinal de que a igreja em Bangladesh amadureceu. Missionários vieram para semear a fé em nossa terra. Agora, essas sementes cresceram e se tornaram árvores frutíferas. Com mais de 50 missionários bengaleses servindo no exterior, não estamos apenas recebendo; também estamos dando. Sou profundamente grato aos missionários que nos precederam, porque sem eles, não entenderíamos hoje o verdadeiro significado de ser enviado.
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