"Naquele dia, tive a impressão de que uma das principais contribuições de Edgar Morin talvez não esteja apenas em seus livros. Ela está na capacidade de reunir pessoas diferentes. Na recusa ao fatalismo. Na convicção de que a humanidade compartilha um destino comum, de uma terra-pátria. A Casa Edgar que encontrei naquela esquina parisiense acabou se tornando, para mim, uma metáfora."
O artigo é de Samuel Lopes Pinheiro enviado ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, em 10-06-2026.
Samuel Lopes Pinheiro atualmente é pós-doutorando no exterior através de financiamento CNPq. Seu pós-doutorado é em Educação Ambiental e tem por instituições executoras de seu projeto a Universidade Federal do Rio Grande (FURG) no Brasil e a Universidade Católica do Oeste (UCO) na França. Trabalha sobre os ritmos do Antropoceno.
No dia 3 de junho de 2026, participei do cortejo de Edgar Morin pelas alamedas do Cemitério do Montparnasse, em Paris.
Durante anos, Edgar Morin esteve presente em minhas leituras, desde o mestrado em Educação Ambiental em 2015, também em minhas aulas posteriormente enquanto professor no IFFAR de 2023 a 2025, em meus diálogos sobre educação ambiental, complexidade e questões sobre o futuro da humanidade. Como acontece com alguns poucos pensadores, a presença intelectual de Morin era tão constante que sua morte parecia improvável. Não porque fosse imortal, evidentemente, mas porque sua obra continuava tão viva, tão ativa e tão necessária, que era difícil imaginá-la dissociada de sua própria existência.
Início da cerimônia de sepultamento de Edgar Morin | Foto: Samuel Lopes Pinheiro
E, no entanto, naquela tarde do 3 de junho, eu caminhava entre familiares, amigos, pesquisadores e admiradores acompanhando seu último percurso em Montparnasse.
Mas essa história começa alguns dias antes.
Na noite de 28 de maio, eu estava reunido com colegas de pesquisa na cidade de Angers, no oeste da França. Alguns dias antes, nos dias 18 e 19 de maio, havíamos organizado um seminário transdisciplinar franco-brasileiro intitulado Alteridades e Devires de Naturezas em Colapso. Durante dois dias discutimos o Antropoceno, os ritmos da vida, as crises ecológicas, as possibilidades de imaginar outros mundos e a necessidade de diálogo entre ciências, artes, espiritualidades e comunidades.
Como tantas outras vezes, Edgar Morin estava presente na conversa porque remetia as questões do próprio seminário realizado. Ele não estava fisicamente. Mas em suas ideias e provocações, assim como em suas perguntas. Em sua insistência de que o mundo não pode ser compreendido por fragmentos isolados, mas pela articulação entre diferentes saberes.
Falávamos justamente sobre a necessidade de religar saberes. Sobre a importância de ultrapassar fronteiras entre as compreensões entre natureza e cultura, indivíduo e sociedade. Falávamos, sem saber, de alguém que estava vivendo seus últimos dias.
Na manhã seguinte, 29 de maio, recebi uma mensagem por meio de listas de discussão ligadas à transdisciplinaridade. A informação era preocupante: Edgar Morin encontrava-se em estado de saúde muito delicado e recebia cuidados paliativos.
Mais tarde, naquele mesmo dia, chegou a notícia de sua morte em meu celular.
Cento e quatro anos. Quase cento e cinco que seria em julho. Impressionantes cento e quatro anos. Não apenas pela longevidade biológica, mas pela intensidade da vida que ali se encerrava.
Poucos intelectuais atravessaram tantas épocas e permaneceram tão presentes nos debates de seu tempo. Morin foi membro da Resistência Francesa durante a ocupação nazista. Viveu os traumas da Segunda Guerra Mundial. Participou das grandes discussões intelectuais do pós-guerra. Dialogou com cientistas, artistas, educadores, sociólogos, filósofos e políticos. Criticou os totalitarismos do século XX sem jamais abandonar o compromisso com a justiça social. Foi um dos grandes defensores de uma reforma do pensamento capaz de responder à crescente complexidade do mundo contemporâneo.
E continuou ativo até o fim. Mesmo em seus últimos anos, quando muitos já teriam escolhido o recolhimento, Morin seguia escrevendo, concedendo entrevistas e intervindo no debate público. Em um contexto internacional marcado por guerras e ascensão de nacionalismos, posicionou-se de forma crítica diante das violências cometidas pelo Estado de Israel contra a população palestina em Gaza. Sendo filho de uma família judaica sefardita e profundamente ligado à história do povo judeu, recusou transformar essa identidade em justificativa para a barbárie. Manteve uma postura que atravessou toda a sua vida: a defesa incondicional da dignidade humana, independentemente de fronteiras, nacionalidades ou pertencimentos. Talvez essa coerência ética explique parte da admiração que tantas pessoas nutriam por ele.
No dia 2 de junho soube que haveria, no dia seguinte, uma homenagem em Paris, realizada nos Invalides, e que seria conduzida pelo próprio Estado francês com a presença de autoridades.
Moro atualmente em Angers, cidade na região Oeste da França, atualmente na realização de pós-doutorado financiado pelo CNPq do Brasil.
A viagem de trem até Paris poderia levar entre duas a três horas. Consultei horários, comparei preços, tentei encontrar combinações possíveis. Nada parecia funcionar. Aos poucos fui chegando à conclusão de que não chegaria a tempo e então não iria.
Foi então que soube que, após a cerimônia oficial nos Invalides, haveria uma despedida pública às 14 horas no Cemitério do Montparnasse.
A possibilidade reapareceu. E decidi ir.
Cheguei à estação Montparnasse em Paris pouco depois das 13h15.
O cemitério ficava a poucos minutos dali.
Enquanto caminhava, enviei uma mensagem para Florent Pasquier, meu antigo orientador de doutorado em Paris.
— Você estará lá?
Talvez nos encontrássemos.
Entrei por uma entrada lateral do cemitério e comecei a procurar o local da cerimônia.
Em determinado momento encontrei alguns funcionários do próprio cemitério.
Perguntei por onde passavam os carros funerários.
Um deles respondeu:
— Por quem o senhor procura?
— Edgar Morin.
A reação foi imediata.
— Ah! O filósofo!
Não precisou de explicação.
Apenas: o filósofo.
Me chamou atenção sua reação imediata. Isso dizia algo sobre a presença de Morin na cultura francesa.
Os funcionários me indicaram a direção correta.
Cheguei então ao local onde seria o sepultamento. Havia um retrato seu sorrindo ao lado da sepultura ainda aberta. Parei alguns instantes e depois caminhei até a entrada principal. Ali encontrei Renato Bastos, pesquisador brasileiro da Universidade de Brasília que atualmente realiza estudos em Paris. Esperávamos juntos o que sucederia.
Pouco a pouco foram chegando outras pessoas, pesquisadores, amigos, familiares. Quando o carro funerário atravessou os portões do cemitério, formou-se espontaneamente um cortejo. Seguimos caminhando atrás dele.
Havia algo de profundamente humano naquela cena. Nenhuma pompa excessiva. Nenhum espetáculo. Apenas pessoas acompanhando alguém que havia marcado suas vidas. Na chegada ao túmulo, um mestre de cerimônias distribuiu algumas folhas. Nelas estavam impressas as letras de duas canções.
A primeira foi Avec le temps, de Léo Ferré.
Cantamos todos juntos como que para dar início. A letra fala da passagem do tempo, da perda, da erosão das lembranças, daquilo que desaparece pouco a pouco.
"Com o tempo, tudo vai embora." Aquela música parecia carregar não apenas a despedida de uma pessoa, mas também a consciência da fragilidade da existência humana
Em seguida começaram os testemunhos.
O primeiro foi Régis Debray. Filósofo, jornalista, intelectual da esquerda francesa, antigo companheiro de Fidel Castro em Cuba e de Che Guevara na Bolívia. Contou que sua amizade com Morin remontava aos anos 1960. Falou de décadas de diálogo, divergências e cumplicidade. Disse que se tratavam mutuamente como "irmão mais velho" e "irmão mais novo". Enquanto falava, eu pensava em quanto tempo cabe dentro de uma amizade de tantos anos.
Depois veio Jean-Michel Blanquer, ex-ministro da Educação Nacional da França. Ele mencionou o diálogo intelectual que manteve com Morin em torno da ideia de uma educação voltada para a vida, para a complexidade e para a formação integral do ser humano.
Depois, seguiu-se com o depoimento de uma antiga aluna de Edgar. Ela falou sobre a liberdade intelectual que aprendera com Morin. Sobre a importância da dúvida. Sobre a necessidade de desconfiar das certezas. Sobre a coragem de pensar por si mesma. Falou também da alegria. Uma alegria frequentemente esquecida quando se fala dos grandes intelectuais. Descreveu um professor acessível, aberto ao diálogo, capaz de estabelecer relações horizontais com seus estudantes. Enquanto a escutava, pensava no quanto essa postura pedagógica continua sendo inspiradora.
Depois tomou a palavra uma de suas filhas, provavelmente Véronique Nahoum-Grappe. Seu testemunho trouxe outra dimensão. A dimensão familiar. A dimensão privada. A dimensão das ausências. Ela evocou momentos de sua relação com o pai. Momentos de afeto, mas também de distância.
Mais tarde lembrei de um trecho das memórias de Morin, em que ele se descreve como um "pai intermitente". Reconhece ter negligenciado parcialmente a convivência familiar em razão de seu nomadismo intelectual, de seus compromissos políticos e de sua intensa dedicação ao trabalho. Sua admissão faz lembrar que mesmo aqueles que dedicam a vida a compreender a condição humana permanecem atravessados por fragilidades, limitações e contradições.
Outro pesquisador da complexidade falou em seguida sobre a influência de Morin na América Latina. Não consegui registrar o seu nome, mas entendi que ele seria um interlocutor nessa relação da Epistemologia Complexa com a América Latina. Destacou sua abertura aos saberes indígenas, ancestrais e populares. Lembrou que a complexidade não é apenas uma teoria acadêmica, mas também uma forma de reconhecer a pluralidade dos modos de conhecer e habitar o mundo. Em seguida de seu testemunho, colocou uma canção de Joan Manuel Serrat.
A voz ecoou pelo cemitério:
"Caminante, no hay camino, se hace camino al andar."
Os versos de Antonio Machado, presentes também naquela canção, acompanharam Morin durante toda a vida, em várias passagens de sua obra.
O caminho não existe antes de ser percorrido. Ele surge enquanto caminhamos. Talvez não exista síntese melhor de sua filosofia. O futuro não está dado. Ele precisa ser construído. Passo a passo. Escolha após escolha. Esperança após esperança. A canção foi acompanhada de forma particularmente emocionada por Sabah Abouessalam, esposa de Edgar Morin.
Pouco depois veio o momento final. O caixão foi conduzido até a sepultura.
E todos fomos convidados a cantar Bella Ciao. A antiga canção dos partisans italianos ressoou entre os túmulos.
"Este é a flor do partisano morto pela liberdade."
Foi impossível não pensar no jovem resistente que, décadas antes, lutara contra o nazi/fascismo.
Aquela despedida parecia unir todas as etapas de sua vida. A resistência. A esperança. A fraternidade. A liberdade.
Havíamos cantado em francês, espanhol e italiano. Ao nosso redor estavam pessoas vindas de diferentes países. Havia europeus, latino-americanos, interlocutores e pesquisadores de países árabes, além dos familiares e parceiros de diferentes origens culturais.
Filho de judeus sefarditas, intelectual profundamente francês e ao mesmo tempo cidadão do mundo, Morin parecia reunir em torno de si uma comunidade improvável. As três canções resumiam algo de sua própria trajetória. Uma vida feita de travessias e de diferentes culturas.
Ao final assinei o livro de presença. Agradeci silenciosamente à vida.
Despedi-me dos colegas do CIRET que estavam ali presentes, grupo que Edgar Morin ajudou a fundar em 1987 e que continua discussões da Transdisciplinaridade. Estavam Gustavo Castro, Florence Dravet, Florent Pasquier, Renato Bastos, Marc-William de Bono e outros tantos que não saberia citar os nomes.
Cada um seguiu em uma direção. Eu saí por uma porta lateral do cemitério. Ainda faltava algum tempo para meu trem. Caminhei sem rumo. Talvez precisasse apenas continuar andando. Cheguei então em seguida ao Boulevard Raspail, e ali encontrei uma imagem inesperada. Diante de mim estava um restaurante chamado Maison Edgar (Casa Edgar).
A Casa Edgar. Na frente dele estavam reunidos familiares e pessoas próximas. Sorri e os cumprimentei.
Depois de uma tarde inteira atravessada pela morte, aquela cena parecia falar justamente da continuidade da vida. Uma casa. As mesas. Pessoas reunidas. Comida. Conversas. Abraços. Pensei naquilo durante os próximos passos da caminhada.
Vivemos uma época marcada por guerras, catástrofes socioecológicas, desigualdades crescentes e múltiplas formas de desesperança. Em muitos lugares do mundo, a barbárie parece avançar mais rapidamente do que nossa capacidade de imaginar alternativas.
Mas, naquele dia, tive a impressão de que uma das principais contribuições de Edgar Morin talvez não esteja apenas em seus livros. Ela está na capacidade de reunir pessoas diferentes. Na recusa ao fatalismo. Na convicção de que a humanidade compartilha um destino comum, de uma terra-pátria. A Casa Edgar que encontrei naquela esquina parisiense acabou se tornando, para mim, uma metáfora.
Uma casa suficientemente ampla de acolhimento. Uma casa capaz de resistir à barbárie. Uma casa onde a fraternidade ainda possa ser apreendida e partilhada. Uma casa onde possamos continuar cantando, apesar de tudo. E talvez esta seja a tarefa que Morin nos inspira.
A de continuar construindo coletivamente essa casa. Não em um lugar específico, de um país ou de uma cidade. Mas em cada lugar onde ainda existam pessoas dispostas a acreditar que outro mundo continua sendo possível.