Edgar Morin, o último grande europeísta inimigo de todo populismo. Artigo de Roberto Esposito

Edgar Morin. (Foto: Fronteiras do Pensamento/Flickr)

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06 Junho 2026

"Excluída das mesas de negociações que contam, abandonada pelo aliado estadunidense, cercada por novos impérios, a Europa não tem outra escolha senão trilhar o caminho que Edgar Morin repetidamente lhe indicou: tornar-se o centro de gravidade complexo de uma nova ordem internacional", escreve Roberto Esposito, filósofo italiano, professor da Escola Normal Superior de Pisa e ex-vice-diretor do Instituto Italiano de Ciências Humanas, em artigo publicado por La Repubblica, 31-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Quando Jürgen Habermas faleceu em 14 de março, aos 96 anos, muitos pensaram que Edgar Morin era a última testemunha da grande tradição filosófica europeia ainda entre nós. Claro, existem outros filósofos europeus. Mas talvez nenhum, como os dois, tenha parecido tão intimamente ligado ao que significa Europa a ponto de encarnar plenamente sua história dramática.

Diferentes em temperamento e formação — Habermas, herdeiro da Escola de Frankfurt, focado nos temas da ética e da comunicação, e Morin, empenhado há décadas na laboração de uma teoria da complexidade — ambos sempre defenderam as razões da unidade europeia como frente de resistência à deriva em curso. É por isso que a morte de Morin representa não apenas uma perda irreparável para o pensamento, mas também o último sinal de fissuras de toda uma civilização intelectual.

Há muitas coisas para lembrar sobre Morin — sua longa vida, que abrangeu quase todo o século passado, estendendo-se profundamente até o nosso. Seu engajamento na resistência ao nazismo, a adesão e posterior afastamento do Partido Comunista Francês, a luta ecológica contra a crise ambiental. E, por fim, a construção de um método em prol de um conhecimento complexo, livre de fronteiras disciplinares e até mesmo da tradicional divisão entre as "duas culturas". Para Morin, filosofia, sociologia, antropologia e epistemologia são simplesmente perspectivas diferentes voltadas ao mesmo objeto — o ser vivo, explorado em seus múltiplos aspectos. Exposto aos riscos da natureza e da história, mas também capaz de recursos inimagináveis que o impulsionam a se superar continuamente. A tecnologia é o que permite aos seres humanos compensar suas deficiências instintivas, liberando suas potencialidades ilimitadas. Mas — e esta é outra característica que o aproxima do Habermas da fase final — sem romper o equilíbrio com o mundo vital. Uma advertência ainda mais relevante hoje, quando o salto tecnológico ameaça por dentro não apenas a inteligência natural, mas também a própria cadeia evolutiva da espécie humana.

Mas o que talvez seja ainda mais importante, dadas as ameaças que agitam o mundo contemporâneo, é que esse delicado cruzamento entre responsabilidade e inovação, Morin sempre o vinculou à história e ao destino da Europa. Sem jamais esconder de si mesmo as lacerações e as violências que ela abriga, mesmo após ter estado à beira do suicídio nas décadas de 1930 e 1940, Morin nunca deixou de acreditar no continente.

Quase como se as próprias tragédias que vivenciou contivessem um antídoto para a doença mortal que o atingiu primeiro com o imperialismo e depois com o totalitarismo. Foi preciso a morte daquela Europa, em 1945, para que um caminho diferente se abrisse ao longo da trajetória que levou à queda do Muro de Berlim.

Ainda mais negativamente afetou quem creditou a essa passagem de civilização o que aconteceu primeiro na antiga Iugoslávia e depois na Ucrânia, onde todas as promessas de Ventotene pareceram traídas. Como pôde essa mesma Europa, renascida em nome da democracia política e da emancipação social, voltar a falar a linguagem violenta da purificação étnica e da sacralização das fronteiras? Depois de ter constituído por séculos ponte entre Ocidente e Oriente e, durante a Guerra Fria, ponto de equilíbrio entre os dois blocos opostos, surge novamente não só internamente dividida, como também propensa a expor o mundo ao risco de um conflito global.

Contudo, como Morin escreveu recentemente com Mario Ceruti no livro La nostra Europa (Cortina), só pode haver um caminho a seguir. Não podendo mais se conceber como "fortaleza Europa", nem se limitar ao ainda assim obrigatório acolhimento dos desesperados que desembarcam nas suas costas, à Europa só resta voltar a ser o que tem sido desde o princípio, naturalmente numa nova forma. Ou seja, como Morin desde sempre defende, unitas multiplex, arquipélago de diversidade, federação de diferenças. Não só isso, mas também lugar de mediação ativa dos conflitos mundiais, revivendo a vocação diplomática que sempre a caracterizou.

Só a Europa possui a história e o patrimônio cultural para tentar tal operação. Certamente, hoje, sob os abalos sísmicos que sacodem o mundo, secando as fontes do direito internacional, tudo isso parece fora de alcance. Mas, às vezes, o que a vontade não pode querer, a necessidade impõe fazer: evitar o inevitável, abrir-se ao imprevisível. Excluída das mesas de negociações que contam, abandonada pelo aliado estadunidense, cercada por novos impérios, a Europa não tem outra escolha senão trilhar o caminho que Edgar Morin repetidamente lhe indicou: tornar-se o centro de gravidade complexo de uma nova ordem internacional.

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