08 Junho 2026
O endurecimento do bloqueio, bem como as declarações de Donald Trump e Marco Rubio, o envio do porta-aviões USS Nimitz para o Caribe e a acusação formal do ex-presidente Raúl Castro, estão levando à mobilização da comunidade acadêmica.
O artigo é de José Sarrión Andaluz, professor de filosofia na Universidade de Salamanca, publicado por El Salto, 05-06-2026.
Eis o artigo.
Esta semana, mais de 150 professores e pesquisadores de mais de 30 universidades espanholas e do CSIC (Conselho Superior de Investigações Científicas da Espanha) publicaram o manifesto “Não à Agressão Militar contra Cuba”, um apelo à ação diante da ameaça de intervenção militar estrangeira que o governo Trump vem lançando contra a ilha caribenha há meses. Como tentarei explicar nestas linhas, princípios que nos dizem respeito a todos estão em jogo.
Vale a pena relembrar os fatos. Nos últimos meses, o presidente Donald Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio, declararam repetidamente que Cuba representa uma “ameaça à segurança nacional dos EUA”. Essas palavras foram seguidas por ações. O Pentágono enviou o grupo de ataque do porta-aviões USS Nimitz para o Caribe, uma medida que, segundo o próprio Comando Sul dos EUA, busca “garantir a segurança regional”. O padrão é semelhante ao que precedeu a operação militar que culminou na captura de Nicolás Maduro na Venezuela. Além disso, o Departamento de Justiça dos EUA indiciou o ex-presidente Raúl Castro por supostos eventos ocorridos em 1996, em um caso claramente fabricado para justificar a agressão militar.
Qualquer um desses elementos, isoladamente, seria preocupante. Mas, juntos, criam um cenário que nenhum cidadão consciente deveria ignorar.
O bloqueio como um ato de guerra
No entanto, a ameaça militar não começa com o envio de um porta-aviões. Ela começou anos atrás com um bloqueio econômico que já dura mais de seis décadas e constitui, em si, uma forma de guerra. Esse infame bloqueio não é uma medida isolada, mas sim uma rede de pelo menos 243 disposições que o governo Trump reforçou com 73 novas sanções. Trata-se de um sistema complexo de pressão financeira e regulamentações extraterritoriais que afeta todos os aspectos da vida cubana.
Essa política de pressão máxima atingiu seu ápice nos últimos meses com a intensificação do bloqueio energético, especificamente em 29 de janeiro, dia em que Trump assinou uma ordem executiva declarando “estado de emergência nacional” e estabelecendo um mecanismo para impor tarifas adicionais sobre as importações de qualquer país que forneça petróleo a Cuba, direta ou indiretamente. Em outras palavras, o objetivo não é mais apenas punir a nação caribenha, mas qualquer um que ouse fornecer-lhe combustível. Essa medida, concebida para pressionar os aliados da ilha, teve um efeito imediato sobre o México, um de seus últimos fornecedores significativos, que reconheceu ter suspendido temporariamente seus embarques de petróleo para Cuba. Isso foi agravado pela drástica redução dos embarques da Venezuela, seu principal fornecedor por anos, que já haviam caído de mais de 100 mil barris por dia para cerca de 30 mil até 2025, segundo estimativas independentes.
O resultado dessa estratégia de estrangulamento tem sido devastador. Em meados de maio de 2026, as autoridades cubanas declararam que o país havia ficado sem reservas de diesel e óleo combustível. Além disso, a acusação formal do ex-presidente cubano Raúl Castro e o envio do porta-aviões USS Nimitz para o Caribe demonstram uma escalada na pressão multidimensional do governo Trump contra Cuba.
Enquanto isso, o povo paga o preço: a grave crise energética resultante levou a apagões de até 22 horas por dia em Havana e outras províncias, paralisando hospitais, indústrias e transportes, e agravando a já crítica situação humanitária. O governo cubano descreveu essa situação como uma tentativa de “genocídio” contra o povo cubano, alertando que todas as esferas da vida seriam “sufocadas” pelas medidas dos EUA. Será isso um exagero? Vejamos os fatos.
O relatório apresentado por Cuba à Assembleia Geral da ONU em setembro de 2025 quantifica os danos causados pelo bloqueio entre março de 2024 e fevereiro de 2025 em US$ 7,556 bilhões. Mas, além dos números macroeconômicos — os danos acumulados ao longo de mais de seis décadas ultrapassam US$ 164 bilhões —, o bloqueio tem um lado humano que raramente aparece na grande mídia ocidental.
Mas o que exatamente implica o bloqueio? Para começar, ele proíbe a importação de produtos com mais de 10% de componentes americanos (durante o governo Obama, o limite era de 25%). Imagine o que aconteceria se a Espanha tivesse que operar sob essas condições, sem poder importar um único produto com mais de 10% de componentes americanos. Essa medida, por si só, é um tiro no pé para qualquer setor.
Vejamos um exemplo concreto: Cuba não pode comprar ração animal ou matérias-primas (milho, soja, etc.) de empresas americanas ou suas subsidiárias. Mesmo que um fornecedor fosse encontrado em outro país, se o produto contiver mais de 10% de componentes de origem americana — como pode acontecer com a soja ou o milho, que são dominados por empresas americanas no mercado global — a compra se torna complicada ou simplesmente é bloqueada. Isso levou a uma redução drástica na produção de ovos, frango e carne suína em Cuba, agravando a escassez de alimentos.
Mas não se trata apenas de ração animal. A lista de itens de primeira necessidade que Cuba normalmente não consegue comprar é interminável: combustível (petróleo, diesel, gasolina, gás liquefeito), já que as sanções contra empresas de transporte marítimo e seguradoras impedem seu transporte, mesmo de países terceiros; fertilizantes e pesticidas, essenciais para a agricultura; materiais de construção (cimento, aço, canos, cabos elétricos), necessários para habitação e infraestrutura; equipamentos de refrigeração, essenciais para a conservação de alimentos e medicamentos; reagentes de laboratório para pesquisa científica e produção de medicamentos; tecnologia educacional (computadores, tablets, softwares, componentes eletrônicos); equipamentos esportivos, de bolas a uniformes de competição; produtos de higiene, de pasta de dente a absorventes higiênicos; próteses e cadeiras de rodas para pessoas com deficiência… a lista é quase infinita.
Como os efeitos do bloqueio tendem ao infinito, para entendermos esse problema de forma mais direta, vamos nos concentrar em um setor específico: o setor da saúde, a joia da coroa do sistema de proteção social de Cuba, construído após 1959.
Por um lado, o bloqueio obriga Cuba a recorrer a fornecedores mais distantes e caros para adquirir equipamentos de diagnóstico, ventiladores e reagentes, como já ocorreu durante a pandemia de COVID-19. Segundo dados do Ministério da Saúde Pública de Cuba (MINSAP), há atualmente uma escassez de 364 medicamentos no país, o que representa 56% da lista de medicamentos essenciais. Há mais de 96 mil pacientes em listas de espera para cirurgias, dos quais mais de 11 mil são crianças. As restrições energéticas, consequência direta das sanções que impedem a ilha de adquirir combustível e equipamentos, obrigam os hospitais a priorizar emergências e adiar cirurgias eletivas.
Mas por que esses medicamentos estão em falta? A resposta está na própria engenharia do embargo. A perseguição financeira extraterritorial impede Cuba de pagar os fornecedores, mesmo quando o dinheiro está disponível, porque os bancos internacionais, sob ameaça de sanções do Departamento do Tesouro dos EUA, se recusam a processar as transações. Quando o pagamento é finalmente autorizado, ele precisa ser feito antecipadamente e em dinheiro vivo, em navios não americanos, e transportando produtos com menos de 10% de componentes fabricados nos EUA. Assim, adquirir um simples antibiótico se torna um pesadelo logístico e financeiro.
Dezesseis dias de bloqueio equivalem ao financiamento anual da Lista Básica de Medicamentos, avaliada em US$ 339 milhões. Quatorze horas de bloqueio equivalem à insulina necessária para todos os diabéticos cubanos durante um ano. Vinte e uma horas de bloqueio equivalem ao custo total dessa insulina. Esses são números que raramente aparecem na narrativa hegemônica dominante porque desmantelariam a narrativa do "Estado falido".
Mas Cuba não é um Estado falido: é um Estado sitiado. Um Estado falido não instala painéis solares em 282 policlínicas, 97 maternidades e 78 lares para idosos em meio a uma crise energética. Um Estado falido não desenvolve sua própria indústria de biotecnologia — com medicamentos como o Heberprot-P, comprovadamente eficaz no tratamento de úlceras diabéticas nos pés, ou vacinas como a Soberana O2 — que nem mesmo cidadãos americanos podem receber devido ao embargo. Estima-se que um milhão de pacientes nos Estados Unidos não têm acesso ao Heberprot-P justamente por causa das sanções impostas pelo próprio governo.
E não só isso: durante a pandemia, Cuba garantiu acordos para exportar milhões de doses de suas vacinas contra a COVID-19 para outros países, mas o bloqueio financeiro a impediu de receber o pagamento por essas vendas em muitos casos, porque os bancos internacionais, sob ameaça de sanções, se recusaram a processar as transferências. O bloqueio não a impede apenas de comprar: também a impede de vender.
Vejamos outro exemplo. Toda família tem, em maior ou menor grau, um parente com Alzheimer, uma doença implacável que devasta aqueles que sofrem com ela e seus familiares mais próximos. Talvez seja importante lembrar que a NeuralCIM já existe, uma promissora vacina nasal contra o Alzheimer desenvolvida pelo Centro de Imunologia Molecular em Cuba, e cuja história é contada no documentário O Sonho de Teresita (Daniel Montero, 2025).
Este medicamento, que demonstrou em ensaios clínicos sua capacidade de retardar a progressão da doença em estágios leves e moderados, não pôde ser comercializado internacionalmente devido aos obstáculos que o embargo impõe aos ensaios clínicos internacionais, à assinatura de acordos com empresas farmacêuticas e às transações financeiras. Milhões de pacientes em todo o mundo — incluindo os mais de seis milhões de americanos que sofrem de Alzheimer — não podem se beneficiar desse avanço científico por causa de uma decisão política. O embargo não mata apenas cubanos, mata cidadãos de todo o mundo.
Os dados abrangem todas as áreas da saúde. Há 32 mil gestantes aguardando ultrassonografias porque o funcionamento contínuo de equipamentos médicos não pode ser garantido, devido a cortes de energia e escassez de combustível. Há 30 mil crianças com calendários de vacinação atrasados, aumentando sua exposição a doenças evitáveis. E os números mais alarmantes dizem respeito àqueles que dependem de tratamentos contínuos: 16 mil pessoas recebem radioterapia e mais de 2.800 pacientes em hemodiálise vivem em uma situação energética descrita como “precária”, onde qualquer interrupção prolongada no fornecimento de eletricidade pode colocar suas vidas em risco imediato.
O impacto na segurança alimentar é igualmente devastador. A escassez de combustível, consequência direta do bloqueio, impede a coleta e distribuição de leite, o que significa que mais de 117 mil crianças não estão recebendo seu litro diário, e o leite em pó importado chega com atraso para mais de 36 mil gestantes e 7.700 crianças com doenças crônicas. Cinco milhões de cubanos não têm acesso ao pão de cada dia devido à falta de farinha, um produto já pago, mas que os navios não podem transportar por causa das sanções contra as empresas de navegação. Mais de 20 mil toneladas de ajuda alimentar das Nações Unidas permanecem retidas em portos e armazéns devido à falta de combustível diesel para distribuição.
Essa estrangulação material é agravada pela coerção financeira. A natureza extraterritorial do bloqueio — a perseguição global de qualquer entidade que faça negócios com Cuba, sob ameaça de multas do Departamento do Tesouro dos EUA — leva os bancos internacionais a se recusarem a processar transações com a ilha. Grandes empresas de transporte marítimo, como a CMA CGM e a Hapag-Lloyd, suspenderam suas operações por medo de sanções. A chamada “regra dos 180 dias”, que impede a entrada nos Estados Unidos de qualquer navio que atraque em um porto cubano durante esse período, aumenta o custo do frete e do seguro para todas as importações, de alimentos a combustíveis.
O resultado é uma “escassez de energia”, nas palavras de especialistas da ONU, que viola os direitos humanos ao negar o acesso à eletricidade e à água potável. Havana sofre apagões de até 22 horas consecutivas; em outras províncias, eles podem durar dois dias inteiros. O gás de cozinha liquefeito tornou-se um produto escasso, com longas filas e falta de abastecimento. O transporte público está paralisado.
O setor turístico, que desde a década de 1990 tem sido um dos motores da economia cubana como uma forma criativa de escapar do isolamento do Período Especial, não está imune a essa dinâmica. A rede hoteleira espanhola Iberostar anunciou o fechamento de seus estabelecimentos na ilha, incluindo o icônico Hotel Habana Riviera, devido à crise energética e à queda no turismo, ambas consequências diretas do embargo. E este não é um caso isolado: a empresa canadense Blue Diamond Resorts, que administrava 62 instalações turísticas em Cuba, encerrou completamente suas operações. A inclusão de Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo afasta turistas americanos e canadenses, complica as transações financeiras e, em última instância, expulsa empresas estrangeiras que poderiam gerar empregos e divisas na ilha.
Todo esse esquema diabólico é consequência direta de uma política de sanções unilaterais que a Assembleia Geral da ONU condenou 33 vezes consecutivas por uma esmagadora maioria desde 1992, sendo a última votação com 165 votos a favor, 7 contra e 12 abstenções. Como se pode ver, o isolamento da posição dos EUA é praticamente absoluto. E, no entanto, o bloqueio se intensifica ano após ano.
A tudo isso se soma a inclusão de Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo, uma decisão tomada por Trump nos últimos dias de seu primeiro mandato, em janeiro de 2021, sem qualquer justificativa. Essa designação, mantida pelo governo Biden e agora reforçada pelo próprio Trump, não é um gesto simbólico: impede Cuba de acessar empréstimos internacionais, desestimula bancos estrangeiros a fazer negócios com a ilha e agrava o embargo econômico.
O manifesto “Não à agressão militar contra Cuba”
O manifesto, apresentado por 150 professores universitários, não é um documento partidário. A lista, disponível na íntegra no site do manifesto, inclui representantes de mais de trinta universidades e do CSIC (Conselho Superior de Investigações Científicas): Universidade Complutense de Madri, Universidade Autônoma de Madri, Universidade de Barcelona, Universidade Autônoma de Barcelona, Universidade Pompeu Fabra, Universidade de Sevilha, Universidade de Granada, Universidade de Oviedo, Universidade de Valência, Universidade de Salamanca, Universidade de Valladolid, Universidade de Saragoça, Universidade de La Laguna, Universidade de Córdoba, Universidade de León, Universidade Pablo de Olavide, Universidade Pública de Navarra, Universidade Politécnica de Madri, Universidade Politécnica da Catalunha, Universidade Carlos III, Universidade Rei Juan Carlos, UNED (Universidade Nacional de Educação a Distância), Universidade do País Basco, Universidade de Jaén, Universidade de Murcia, Universidade de Alcalá, Universidade da Corunha, e muitas outras.
Não estamos unidos por uma ideologia comum. Os signatários variam de marxistas a social-democratas, de ambientalistas a democratas ou liberais no sentido clássico do termo. O que nos une é a defesa dos princípios consagrados na Carta das Nações Unidas, princípios que, no contexto atual, correm o risco de serem desrespeitados.
Não somos um comitê de solidariedade nem uma plataforma política. Somos professores e pesquisadores que trabalham em instituições públicas e acreditamos que a universidade não pode permanecer isolada quando princípios fundamentais como a paz e o respeito ao direito internacional estão em jogo. A universidade pública, financiada por todos os cidadãos, tem o dever de se manifestar quando esses princípios são ameaçados.
O Artigo 2.4 da Carta da ONU proíbe tanto o uso da força quanto a ameaça de seu uso contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado. Quando uma potência como os Estados Unidos posiciona um porta-aviões na costa de um país que previamente declarou como uma “ameaça à sua segurança nacional”, está incorrendo em uma ameaça que o direito internacional proíbe.
O manifesto “Não à agressão militar contra Cuba” estabelece três exigências concretas: a cessação imediata das ameaças militares, o fim do bloqueio econômico que pune o povo cubano e o pleno respeito à soberania e autodeterminação de Cuba. Essas exigências não requerem simpatia ideológica pelo governo cubano; basta um compromisso com o direito internacional e a paz.
O texto completo e a lista integral dos 150 signatários estão disponíveis neste link. Manifestações de apoio podem ser enviadas para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..
Em contraste com a lógica da lei do mais forte, a nossa é a lógica das palavras. Palavras ditas a tempo, antes que seja tarde demais. Convidamos o leitor a aderir ao manifesto através do link fornecido. Como dizemos no manifesto: “Cuba não está sozinha”.
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