"As acusações contra Raúl Castro são um pretexto para justificar uma ação militar contra Cuba". Entrevista com Fabio Fernández

Foto: Raul Castro | Wikimedia Commons

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22 Mai 2026

Fabio Fernández, podcaster e professor de história cubana na Universidade de Havana: "Uma saída seria através de reformas, mas quando se está sitiado, isso é impossível. E o governo já não tem o consenso necessário."

Fabio Fernández, de 38 anos, professor de História de Cuba na Universidade de Havana, é uma das vozes mais ouvidas entre os jovens universitários por sua postura reformista. Na opinião pública, ele representa uma espécie de terceira via entre a ortodoxia castrista e aqueles que aguardam a intervenção dos EUA. Encontramo-nos com ele no café do Museu Napoleônico de Havana.

A entrevista é de Laura Lucchini, publicada por la Reppublica, 21-05-2026.

Eis a entrevista.

Por que os EUA apresentaram a acusação contra Castro?

É uma forma de elevar a retórica, de pressionar o governo cubano. Funciona como uma ameaça, mas também como apoio a uma possível ação violenta, que nos dias de hoje se assemelha cada vez mais ao que aconteceu na Venezuela. Está criando as bases para uma intervenção, mas também serve para pressionar as negociações, que aparentemente ainda existem.

O bom senso sugere que a captura de Raúl Castro, um homem de 95 anos, provavelmente não despertará muita simpatia…

Poderia ser um mecanismo de pressão extrema. Como se dissesse: "trazendo o sangue Castro como troféu" caso as condições exigidas não sejam aceitas. Outra hipótese é que o governo esteja jogando em várias frentes e tenha feito isso simplesmente como um presente para os exilados anticastristas, no dia 20 de maio. Vejo três possíveis interpretações: que seja uma forma de negociação coercitiva, típica de Trump; que seja o preâmbulo de uma ação; ou que seja a isca para o exílio de Miami com fins eleitorais.

A notícia de ontem à noite deu conta de que o porta-aviões americano está entrando no Caribe. Você não acha que já ultrapassamos um pouco as três opções?

O que é certo é que o caso para justificar uma ação militar contra Cuba está pronto. Além disso, a proximidade logística é tal que não há necessidade de um porta-aviões. Tudo está preparado. Se isso acontecerá ou não, depende exclusivamente de avaliações internas dos EUA. É certo que uma intervenção militar poderia ter um alto custo humano: os cubanos lutaram na Venezuela e tudo indica que lutariam também em Havana. Um bombardeio nos moldes do que ocorreu com o Irã seria uma iniciativa arriscada, com baixas civis e um esforço de reconstrução a ser arcado, especialmente porque não funcionou no Irã. Uma invasão, por outro lado, seria muito complexa. Meu receio é que a retórica tenha escalado a tal ponto que é muito improvável que nada aconteça.

Sente que estamos em um ponto de virada e que a mudança é inevitável?

Todas as variáveis apontam para a necessidade de mudança. Há quatro cenários: ação externa, com intervenção dos EUA; uma revolta popular, que permanece uma possibilidade, dadas as condições extremas; ou poderia haver uma transformação sistêmica a partir do topo da hierarquia; e, finalmente, há um último cenário, que para mim seria o mais desejável, ou seja, que o sistema inicie rapidamente um caminho de reformas econômicas e políticas necessárias.

Não será tarde demais para isso?

Este cenário é dificultado pelos problemas que estamos enfrentando atualmente. Como podemos implementar reformas sob este cerco? Como podemos reformar a economia de uma ilha sob bloqueio? O tempo para reformas se esgotou. E o governo perdeu o consenso necessário para reformas consensuais.

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