03 Junho 2026
A partir de que ponto alguém se torna rico demais? A pesquisadora belga-holandesa Ingrid Robeyns levanta essa questão em seu ensaio Limitarianism: The Case Against Extreme Wealth (Limitarismo: o caso contra a riqueza extrema). A filósofa e economista desenvolve um novo conceito: limitarismo. Seu princípio? Limitar as fortunas individuais a 10 milhões de euros para construir um mundo sem super-ricos e combater as desigualdades extremas que são política e moralmente insustentáveis.
A entrevista é de Emilie Echaroux, publicada por Usbek & Rica, 02-06-2026. A tradução é do Cepat.
Eis a entrevista.
Encarregado de elaborar um relatório sobre a tributação dos super-ricos pelo G20 em 2024, o economista Gabriel Zucman chegou a uma medida fundamental: tributar os ativos que excedam 100 milhões de euros a uma taxa de 2% ao ano. Debatida na Assembleia Nacional francesa, a tributação dos ultrarricos está agora inspirando outros países, como a Itália, que considera uma “contribuição solidária” semelhante. Estaríamos testemunhando uma virada na questão da tributação?
A falta de legitimidade da riqueza extrema está longe de ser um conceito recente. Platão já afirmava em As leis que, quando os mais ricos possuem de três a quatro vezes mais do que os mais pobres, a estabilidade da pólis – e, portanto, da democracia – vacila. A maioria dos pensadores medievais acreditava que o excesso de dinheiro corrompe o caráter. Hoje, muitos acadêmicos, como Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman, estão examinando a tributação de altas rendas, mas poucos determinam quando alguém se torna rico demais. Pessoalmente, foi isso que me interessou. Porque tudo indica que não só é legítimo, como também desejável, estabelecer limites para a acumulação de riqueza.
Por quê?
No imaginário coletivo, presume-se que os ricos conquistaram sua fortuna por meio de trabalho árduo. No entanto, não é segredo que a sorte desempenha um papel significativo em nossas vidas. Não escolhemos nossos genes, nossos pais ou nossa origem social. Aproximadamente metade dos ultrarricos deve sua fortuna à herança. Até mesmo as oportunidades econômicas muitas vezes dependem do que se chama de “sorte de mercado”: dois empreendedores podem lançar produtos semelhantes simultaneamente, mas um se tornará um padrão enquanto o outro cairá no esquecimento, independentemente do esforço ou do talento.
É também um equívoco comum pensar que a riqueza dos bilionários beneficia a todos. Os estudos empíricos, no entanto, mostram que a extrema concentração de riqueza entra em conflito direto com a igualdade política: os mais ricos financiam partidos políticos, influenciam decisões tributárias, investem pesadamente na mídia… em suma, exercem pressão sobre a democracia. A economista Julia Cagé demonstrou brilhantemente a extensão em que essas dinâmicas são generalizadas em seu ensaio Le Prix de la démocratie (O Preço da Democracia).
Além disso, os estilos de vida e os investimentos dos mais ricos são incompatíveis com a transição. O pesquisador Lucas Chancel, codiretor do Laboratório Mundial da Desigualdade da Escola de Economia de Paris, calculou que o 1% mais rico emite, em média, 110 toneladas de CO₂ por ano per capita, em comparação com 1,6 tonelada para os 50% mais pobres. Tais níveis de emissão são simplesmente destrutivos para o planeta.
Você propõe um limite “político” de 10 milhões de euros. Como chegou a esse limite tributário?
Metodologicamente, estabelecer um limite máximo para a riqueza é muito difícil. Podemos aceitar um certo nível de desigualdade: algumas pessoas trabalham mais, assumem mais riscos ou mais responsabilidades, e devemos preservar os incentivos econômicos. Mas essas disparidades não podem ser ilimitadas. Assim, a pedido dos meus editores, cheguei à conclusão de que poderíamos tolerar até 10 milhões de euros acumulados ao longo da vida: uma riqueza significativa, mas não suficiente para influenciar indevidamente a vida política. Observe que esse valor é apenas uma estimativa aproximada, nada definitivo. Precisamos de dados concretos para identificar os verdadeiros pontos de inflexão, aqueles em que a concentração de riqueza se torna prejudicial à democracia, à coesão social ou à economia. É claro que a decisão final deve ser da sociedade, mas a pesquisa pode contribuir para isso.
Você também identifica um limite “ético” de 1 milhão de euros, acima do qual não é mais moralmente aceitável acumular riqueza. Esse limite pode parecer baixo, considerando o quanto os preços aumentaram: em Paris, por exemplo, o preço médio por metro quadrado é de 9.500 euros.
Uma casa é um bem que pode ser avaliado e, portanto, pode ser considerado no cálculo de limites políticos ou éticos. No entanto, é essencial levar em conta as circunstâncias de cada indivíduo. Sustentar pais idosos com uma pequena pensão ou um parente com deficiência naturalmente exige mais recursos.
Mas, na minha opinião, o limitarismo não se resume apenas aos ultrarricos: ele nos convida a refletir sobre o que consideramos “suficiente”. É por isso que defendo um “ethos limitarista”. A acumulação de riqueza não deve mais ser o único foco de nossas vidas. Precisamos desenvolver contravalores enraizados em nossa cultura que celebrem a frugalidade. Isso implica um esforço coletivo que cabe não apenas aos economistas, mas também aos artistas, que têm um papel crucial a desempenhar na imaginação e na construção de um futuro diferente, desejável.
Em relação à reforma, você propõe uma alíquota de 100% sobre a riqueza dos ultrarricos acima de um determinado limite. A tributação é o único caminho a seguir?
Primeiramente, os cidadãos devem ter garantido um padrão de vida digno, incluindo um salário mínimo, acesso a serviços públicos e saúde, e educação gratuita e de qualidade. Mas essas medidas por si só não são suficientes para reduzir as grandes desigualdades: um sistema tributário redistributivo continua sendo essencial. A receita tributária, obtida pela tributação dos mais ricos, poderia financiar as necessidades urgentes dos mais pobres e ser investida em áreas de utilidade pública, como educação e saúde.
Segundo alguns economistas liberais, existe uma alíquota tributária ótima, além da qual o aumento de impostos poderia reduzir a receita tributária, desestimulando o investimento e dificultando a inovação. Você compartilha dessa visão?
Este é um argumento bastante controverso. O economista sueco Jacob Lundberg afirmou que a Suécia ultrapassou a alíquota tributária ótima sobre as rendas mais altas, frequentemente estimada entre 70% e 80%, dependendo do país, e que essa carga tributária reduziu a receita, desestimulando o trabalho e o investimento. Outras análises oferecem uma perspectiva mais matizada: alguns economistas (como o estadunidense Peter Lindert) demonstram que os países nórdicos mantiveram altas alíquotas tributárias, ao mesmo tempo que retiveram receitas robustas, graças a um forte consenso social e a gastos públicos redistributivos que estimulam o crescimento. Além disso, a taxa marginal de imposto ideal – supondo que esteja entre 70% e 80% – permanece bem acima dos níveis de impostos atuais, o que já justifica aumentos de impostos, particularmente sobre o capital e a renda do capital, que são tributados muito menos do que a renda.
Também poderíamos limitar o risco de evasão fiscal construindo uma coalizão internacional para fechar paraísos fiscais e zonas econômicas especiais onde certos bilionários da tecnologia, em particular, buscam estabelecer suas próprias regras. A União Europeia poderia definir uma alíquota mínima de imposto, mesmo sem harmonização completa, para evitar uma corrida para o fundo do poço entre os Estados-membros (atualmente, apenas as grandes multinacionais que operam dentro da UE são tributadas, de forma harmonizada, a uma alíquota mínima de 15% – nota do editor).
Dado que o imposto Zucman foi rejeitado de forma esmagadora em novembro de 2025 pela Assembleia Nacional francesa, você acha que é realmente possível implementar esse tipo de limitação tributária?
Não no curto prazo. É mais um ideal regulatório, uma direção que é legítimo buscar. Também é papel da filosofia abrir caminhos para a reflexão, mesmo quando eles não são imediatamente aplicáveis. O imposto Zucman (embora modesto demais) é um bom ponto de partida, mas aprovar leis não é suficiente; a aplicação deve ser garantida. Estamos entrando em um período perigoso: historiadores e sociólogos mostram que os muito ricos e os movimentos autoritários frequentemente acabam formando coalizões. Hoje, nos Estados Unidos, bilionários apoiam Trump e vice-versa. Poucos Estados realmente compreenderam a dimensão do problema, mas os ativistas permanecem vigilantes. Um grupo de ativistas ricos, os Patriotic Millionaires, por exemplo, está promovendo a reestruturação do sistema tributário. Uma mudança fundamental parece estar em curso. Portanto, não estamos começando do zero.
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