27 Mai 2026
"É necessário deixar de lado uma reflexão ingênua de que ciência é puramente voltada para o bem maior da humanidade. Pelo contrário: mesmo com a consciência de que as tensões produtivistas da humanidade influenciam o fazer científico, é possível mobilizar a humanidade em torno da contemplação da grandeza divina por meio dos avanços em ciência", escreve Vitor Gabriel Alves, SJ, escolástico da Companhia de Jesus e estudante de filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE.
Eis o artigo.
"O Fortuna,
velut luna,
statu variabilis,
semper crescis,
aut decrescis;
vita detestabilis
nunc obdurat
et tunc curat
ludo mentis aciem,
egestatem,
potestatem,
dissolvit ut glaciem”
(O Fortuna - Carmina Burana)
Lua não é alvo das imaginações e aspirações humanas somente na modernidade. Na mitologia grega, Selene, irmã de Hélio (Sol), representava a ambiguidade constante entre luz e escuridão na vida humana como um elemento importante de passagem entre o "bem" e "mal". Na mitologia Egípcia, Thoth (divindade lunar) chegou a ser associado a escrita, ao conhecimento e à patronagem dos escribas e estudiosos de diversas áreas (EFFGEN, 2023).
Já na fundação da modernidade, a Lua passou a ser objeto de estudo observacional por Galileu Galilei, Thomas Harriot (figura 1) e vários outros ao longo dos anos que foram desvendando sua topografia (incluindo jesuítas que deram nomes para várias crateras lunares) e até sua influência sob as marés terrestres por meio da física newtoniana.
Figura 1: Mapa da Lua desenhado por Thomas Harriot (à esquerda) e; desenho de Galileu representando as fases da Lua a partir da observação com um telescópio (à direita). Disponível aqui. Acesso em abril de 2026.
Hoje, com o sucesso da segunda fase da missão Artemis, a humanidade vislumbra um passo significativo no aprofundamento dessa relação da Lua com o desenvolvimento humano e tecnológico. Diante de uma realidade social ainda marcada pelas guerras armadas, uma nova corrida espacial, traz para o campo científico, uma disputa com o ideal de exploração presente em toda a história da humanidade, agora, abrindo caminho para a exploração de novos mundos (literalmente). Visando mais recursos, novas descobertas e obtenção de poder exploratório na Lua, as missões Artemis visam consolidar o caminho para Marte utilizando a Lua como parte deste.
Assim como os gregos na era clássica, poderemos pensar nessa ambiguidade, agora utilizando diferentes campos do saber, relacionando o desenvolvimento científico e disputa política de diversas formas: no âmbito histórico, como tal ambiguidade foi moldando a realidade humana até aqui; no âmbito da sociologia: como a partir daqui, poderemos pensar o futuro em termos de obtenção de recursos e distribuição (ou não) nas diferentes classes; no âmbito filosófico, um exemplo entre muitos seria: como a ciência consegue oferecer esperança no meio de tal ambiguidade. Ficaremos aqui com um pequeno vislumbre dessa última provocação.
I. A ciência como uma engrenagem para a humanidade.
A história da humanidade é, em grande parte, a história da nossa capacidade de observar o mundo e a tentativa de compreender as causas e os efeitos de fenômenos presentes na natureza. Assim como a arte e a religião, a ciência tem sido potencialmente uma linguagem que traduz a complexidade da existência e a vastidão do Universo. Da perspectiva inaciana, a ciência é um meio para alcançar o bem maior para a humanidade. Aprofundando essa perspectiva, segundo a Aparecida Vasconcelos, professora do Departamento de Teologia da FAJE, a partir de Teilhard de Chardin, é possível concluir que as ciências naturais apontam para o mistério divino que pode ser descoberto na grandiosidade do universo em via de criação (VASCONCELOS, 2018). Uma interpretação para tal é pensar que, se o universo está em via de criação, o homem através do conhecimento científico, pode colaborar em tal processo.
Porém, o caráter científico foi perdendo ao longo dos anos seu sentido de reverência e, alguns com maior concentração de poder em mãos, encaram a natureza mais como uma força que devemos conquistar e a que devemos opor, desvelando seus segredos em benefício da humanidade (LUCARELLI, 2019). Tal visão tecnicista afasta do homem a capacidade de contemplação da realidade diante o natural, perdendo a possibilidade de integrar a ciência com outros campos de expressão da complexidade da existência, o que ajuda a elucidar o atual conflito epistemológico com a religião, por exemplo.
Ainda assim, perante conflitos epistemológicos diante da verdade e conflitos de interesses no uso de resultados científicos, a ciência continua a encantar a humanidade com momentos que marcam a história. Após cinquenta e dois anos desde o último lançamento das missões Apolo, após países assinarem os Acordos Artemis – incluindo o Brasil – a Agência Espacial Norte-Americana (Nasa), concluiu com sucesso os testes tripulados com seres humanos para a Lua (sendo a viagem mais distante com recursos próprios).
Mesmo sem pousar no satélite, a Nasa pôde coletar dados importantes para a exploração lunar além de disponibilizar para a humanidade imagens de alta resolução capturadas pelos astronautas do lado oculto da Lua. Com a tripulação mais diversa em uma viagem espacial para a Lua, os feitos da Artemis II, fizeram os olhos da humanidade brilhar diante da beleza do satélite natural da Terra. Como boa parte dos avanços em ciência fundamental, alguns dos benefícios de tal empreitada serão percebidos apenas a longo prazo.
II. A ciência como ferramenta de Esperança
"Precisamos abandonar, de uma vez por todas, a ideia de uma ciência que não reflita sobre
as consequências de suas ações. A técnica não se sobrepõe a ética"
(Papa Francisco)
Estudiosos da relação entre Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS), concordam que toda produção científica carrega em si um conjunto de vieses que advém da complexa realidade humana. É impossível separar o desenvolvimento científico e tecnológico da relação entre homem e natureza, já que um constitui a outra. Milton Santos geógrafo brasileiro que foi famoso por sua geografia crítica, por exemplo, elabora uma ontologia do espaço, que inclui uma análise sobre as técnicas, o tempo e assinala a afirmação anterior (NUNES, 2007 apud SANTOS, 1999). Como a tecnologia atua como mediadora dessa relação, exige-se uma constante reflexão sobre os meios de produção científica para que os resultados técnicos não sobressaiam às condições éticas.
Papa Francisco, que alimentou o debate de produção cientifica do ponto de vista da fé cristã, sempre ressaltava em seus discursos, em diversas ocasiões, para cientistas e membros de comunidades acadêmicas, que a ciência deve ser voltada para o serviço do bem de toda a humanidade e que não deve estar restrita para poucos. Ele incentivava constantemente a paixão pela pesquisa científica como uma expressão de amor pela verdade e pelo conhecimento sobre o mundo em diferentes níveis, além de visar toda a vida em seu "esplendor sinfônico" (FRANCISCO, 2022; 2023).
É justamente sob essa perspectiva de responsabilidade e esperança que se apresenta a Missão Artemis. Empreendimentos como esse, detém de um valor simbólico para a humanidade: devolvem a utopia das viagens espaciais. E, como lembrado pelo filósofo Bruno Pettersen, professor do departamento de Filosofia da FAJE, a utopia "nos desloca do imediato, do urgente, do trágico e nos reinsere em uma dimensão de possibilidade. A utopia não é um lugar que existe, mas um ponto que orienta" (PETTERSEN, 2026). Mais do que um projeto de engenharia para o retorno da humanidade à Lua, a Artemis carrega o simbolismo de uma nova era: a de estabelecer a possibilidade de uma presença sustentável e inclusiva no espaço.
O Papa Leão XIV, em audiência para os estudantes da Escola de Verão da Specola Vaticana em junho de 2025 além de reconhecer o "momento entusiasmante para ser um astrônomo" por conta das observações do James Webb Space Telescope (JWST), evoca os estudantes ao "compartilhamento alegre das 'sementes' que Deus espalhou na harmonia do universo". Em alusão as "razões seminais" de Agostinho, que permitem que a natureza se desenvolva, o papa ressalta que quanto mais alegria [os jovens cientistas] compartilharem, mais alegria criarão e, por meio da busca do conhecimento, contribuirão para um mundo mais pacífico e justo (LEÃO, 2025). Às vésperas da publicação de sua primeira encíclica (Magnifica humanitas), Leão XIV prepara o catolicismo para um novo passo de reflexão nas relações entre humanidade e tecnologias.
É necessário deixar de lado uma reflexão ingênua de que ciência é puramente voltada para o bem maior da humanidade. Pelo contrário: mesmo com a consciência de que as tensões produtivistas da humanidade influenciam o fazer científico, é possível mobilizar a humanidade em torno da contemplação da grandeza divina por meio dos avanços em ciência. O splashdown (pouso no mar) da cápsula Órion ocorrido no dia dez de abril, marca o sucesso do trabalho em conjunto de diferentes cientistas para a realização do sonho humano de alcançar grandiosidade do Universo. Especialmente no tempo pascal, o olhar a partir da pequenez da realidade humana para a grandeza do Universo, ressalta o amor que Deus dispõe à toda humanidade.
Referências
EFFGEN, A. L. (2023). Entre Thoth e Hermes Trismegisto: As cosmogonias egípcias na Literatura Hermética. Universidade Federal da Paraíba, Programa de Pós Graduação em Ciências das Religiões. João Pessoa: Dissertação (Mestrado) - UFPB/CE.
FRANCISCO, P. (10 de setembro de 2022). DISCURSO DO PAPA FRANCISCO AOS PARTICIPANTES NA PLENÁRIA DA PONTIFÍCIA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS. Fonte: Vaticano: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2022/september/documents/20220910-plenaria-pas.html
FRANCISCO, P. (23 de fevereiro de 2023). DISCURSO DO PAPA FRANCISCO À DELEGAÇÃO DA SOCIEDADE MAX PLANCK. Fonte: Vaticano: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2023/february/documents/20230223-delegazione-mplanck.html
LEÃO, P. (16 de Junho de 2025). ADDRESS OF THE HOLY FATHER TO THE PARTICIPANTS OF THE SUMMER SCHOOL OF ASTROPHYSICS PROMOTED BY THE VATICAN OBSERVATORY. Acesso em abril de 2026, disponível em Vaticano: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/en/speeches/2025/june/documents/20250616-specola.html
LUCARELLI, V. L. (2019). CIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE NO PENSAMENTO DE TEILHARD DE CHARDIN. São Bernardo do Campo - SP: Universidade Metodista de São Paulo.
NUNES, E. J. (2007). Ciência, tecnologia, sociedade e desenvolvimento sustentável: velhos e novos encontros teóricos. In: NASCIMENTO, A. D., FIALHO,N.H., and HETKOWSKI,T.M. Desenvolvimento sustentável e tecnologias da informação e comunicação [online]. Salvador - BA, Bahia: EDUFBA.
PETTERSEN, B. (09 de abril de 2026). “Ad astra per aspera”: uma reflexão filosófica a partir do voo da Artemis II. Fonte: Portal FAJE: Palavra & Presença: https://faculdadejesuita.edu.br/ad-astra-per-aspera-uma-reflexao-filosofica-a-partir-do-voo-da-artemis-ii/
SANTOS, M. (1999). A natureza do espaço: técnica e tempo: razão e emoção. . São Paulo: Hucitec.
Santos, M. (2006). A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo. Razão e Emoção. São Paulo - SP: Editora da Universidade de São Paulo.
VASCONCELOS, A. d. (2018). Cristo e o Universo: A visão Mística de Teilhard de Chardin. São Paulo - SP: Paulinas.
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