13 Mai 2026
“ 'Neurose do papel' é revelada no nosso meio clerical quando prevalece a repetição do discurso institucional, sem criatividade, sem paixão; quando faltam as dúvidas; quando silenciam as perguntas; quando somos guiados por uma rigidez e intolerância moralista, quando adoece a nossa capacidade de envolvimento empático"
O artigo é de Flávio Lazzarin, padre italiano fidei donum que atua na Diocese de Coroatá, no Maranhão, e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Eis o artigo.
Recentemente, conversando com dois irmãos queridos sobre a longa aventura da nossa amizade e familiaridade, chegamos a hipotisar, brincando de poetas, que a graça destes relacionamentos repousa na busca de si mesmo em que cada um de nós continua insistindo. A comunicação flui entre nós, vacinada dos vírus do medo e da presunção, aberta às críticas, também quando podem saudavelmente machucar. Um entrelaçar-se de autenticidades, sem máscaras, sem hipocrisias, sem cumplicidades e oportunismos, sem teimosas e inoxidáveis certezas, na companhia de fragilidades, incertezas, dúvidas, sempre abertos diante do surgir de novas perguntas.
Isso, porque não estamos desistindo da tarefa, nunca concluída, de descobrir, entre luzes e sombras, a nossa verdadeira identidade.
Concordamos que nem sempre os seres humanos conseguem reconhecer e desenvolver as características marcantes do seu ser que se apresentam - claras, e ao mesmo tempo, enigmáticas - desde a infância, mas que, inevitável e frequentemente, traímos ao longo da nossa vida. Nisso, o viver pode virar uma sequência de equívocos inclusive até o esquecimento de si mesmo.
“Tornamo-nos o que somos”, porém, não é reduzível, dialeticamente, ao “somos os que nos-tornamos”, porque o que está em jogo não é o ‘ser’, nem o ‘devir’, mas a misteriosa unicidade e originalidade de cada ser humano. Trata-se de um chamado, de uma vocação que precede as escolhas de vida de cada um. É o nosso jeito de ser, onde se mesclam a genética, o temperamento e as balizas do caráter que iremos moldar e definir, marcados pelo ambiente familiar e circunstâncias sociais.
Autenticidade não é algo pronto, mas sempre se define num processo, em que a língua, a cultura, as influências do ambiente tem um papel determinante.
Não se trata de uma perspectiva essencialista, mas sim, da mistura misteriosa do que é, ao mesmo tempo, dado, antes da elaboração e processo permanente que comporta escolher e ser escolhido. Hardware e software.
Este acento, aparentemente prioritário sobre subjetividade e identidade, não exclui obviamente o fato de que estamos mergulhados na história trágica e contraditória da humanidade, onde injustiça, opressão, violência cada vez mais semeiam morte, dor, sofrimento.
Por isto seria uma traição postular caminhos e soluções só para as intimidades alienadas, que se recusam de escutar os dramáticos apelos da realidade.
Íntimo e êxtimo coincidem, caminham juntos. Não encontraríamos justiça na história a não ser trilhando caminhos de mudanças para nos tornarmos justos; não reconheceríamos a beleza, se, ao menos uma vez, não a tivéssemos hospedada no nosso íntimo. E essa concordância entre ‘interno’ e ‘externo’ se reapresenta quando buscamos a bondade e a verdade. As sombras externas são o espelho dos limites e negatividades que marcam também as nossas biografias. Contudo, também as luzes que encontramos são aliadas da parcela de claridade que hospedamos em nós. O que ilumina e oferece sentido, porém, não é o exterior que exilamos, mas o espírito em perene processo de autenticidade.
Não estou simplesmente descrevendo aspectos fundamentais do amor entre amigos. Não entendo valorizar a capacidade recíproca de lidar com luzes e sombras, talentos e limites do outro. Com efeito, quando os três conversavam sobre isto estavam tentando apreciar um aspecto, que, frequentemente, não é analisado.
Trata-se da autenticidade, o conjunto de emoções, estilo de pensamento, comportamento que caracterizam as pessoas que não querem viver por imitação, condicionamentos e pressões sociais, na submissão total à autoridade, também renunciando à autonomia crítica, ética e política, até a cega obediência aos inimigos da vida. É autenticidade não falsificar, mascarar, maquiar o que somos, ou a tentativa de ser diferente a qualquer custo. Em suma, não ‘ser visto’, mas ‘ser real’.
E esta autenticidade não coincide com “o que eu sou”, mas com o “como eu vivo, mesmo que inconscientemente, o que eu sou”.
E não pode ser simplesmente identificada com personalidades que se impõem por originalidade, autoafirmação pública, estrelismo, que até podem ser autêntica expressão de si, mas também podem não passar de uma mera máscara performativa, chamativa, algo teatral, moldado, oportunisticamente, para agradar convenções sociais, religiosas, políticas.
Pode surgir, nesta altura a pergunta sobre a utilidade deste longo falatório.
A pergunta inicial brotou naquela conversa entre três amigos, que, não sei por que, tentavam entender uma informação de um leigo que relatava sinteticamente a visita pastoral do bispo a uma paróquia da sua diocese. A visita foi positiva. O bispo escutou com atenção as comunicações dos responsáveis de todas as pastorais, dialogou, reconheceu acertos e apontou desafios. Tudo correu bem, mas no fim do evento uma pergunta atormentava o nosso fiel: “Mas o que pensa de verdade o nosso bispo?”
Essa pergunta, aparentemente banal, nos fez pensar ao nosso estilo de padres e a quase mais lembrada “neurose do papel”, onde o sujeito deve suprimir a sua própria subjetividade para encarnar a instituição.
Quando viramos reféns do papel clerical – e episcopal – a liberdade e a autenticidade podem ficar reprimidas e até suprimidas. Quando falamos para confirmar o nosso papel, somos impulsionados a falar o que é prescrito falar e o que os fiéis esperam que a gente fale. Em suma, corremos o risco de não dizer nada e interpretar um papel num teatro vazio, repetindo clichés e roteiros que não incidem e que não mobilizam pensamentos e sentimentos.
É quando o papel passa a dominar a identidade da pessoa e a pessoa vira o papel. Outros papéis e dimensões do eu desaparecem. Identidade e função se identificam. Isso porque todas as instituições religiosas, políticas, empresariais têm normas e regras, são detentoras da ‘verdade’, nos dizem o que está certo e o que está errado e orientam o nosso comportamento. Se nós internalizamos sem hesitação todas as prescrições, passamos a agir como se fossemos a própria instituição, ou a sua extensão, e pensamos e decidimos como a própria instituição.
E aí parece mesmo que temos um problema: a complexidade do sujeito fica esquecida, ignorada e quando os papeis socialmente cristalizados prevalecem o ‘eu’ verdadeiro fica escondido. O problema, porém, não é ter papéis. Todos e todas temos um papel. O problema é grave quando nós somos levados a esquecer que são meros papeis e não manifestações ontológicas. Claro que, neste sentido, somos todos expostos à possibilidade da neurose, porque devemos lidar com esta complexidade da nossa identidade e dos condicionamentos sociais e ninguém pode se subtrair ao processo de aprendizagem para ser homem, mulher, aluno, profissional. Ter um papel, desde os papeis simbólicos originários, non é opcional, mas constitutivo do ser humano. O problema, porém, não é ter um papel, mas achar que somos ‘o papel’. Esquecendo, assim, que o papel é uma herança, uma construção, que vem de fora e que existe algo profundo em nós, que fatalmente escapa desta construção social.
A luta contra a alienação passa por atitudes que não colam totalmente com o papel.
“Neurose do papel” é revelada no nosso meio clerical quando prevalece a repetição do discurso institucional, sem criatividade, sem paixão; quando faltam as dúvidas; quando silenciam as perguntas; quando somos guiados por uma rigidez e intolerância moralista, quando adoece a nossa capacidade de envolvimento empático.