O futuro em disputa. Entre o tecnofascismo e a esperança

Arte: IHU

Por: Lucas Schardong e Mônica Lima | 09 Mai 2026

Neste episódio, vamos falar sobre o genocídio que continua devastando Gaza mesmo após o cessar-fogo e a luta da nova flotilha humanitária para romper o bloqueio imposto à Faixa. Em um mundo atravessado por guerras, a inteligência artificial deixa os laboratórios e entra de vez nos campos de batalha. Lula e Trump frente a frente: três horas, muitos temas e uma trégua diplomática de prazo incerto.

Em uma perspectiva diferente da crise climática, talvez o maior desafio seja imaginar outra forma de viver no planeta. Um ano de Papa Leão XIV: o pontífice que confrontou Trump sem elevar o tom de voz e transformou a paz em programa de pontificado. Por último, fazemos memória de três grandes intérpretes do Brasil, pensadores que ajudaram a compreender o país, suas contradições e possibilidades.

Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.

Gaza: destruição, genocídio e solidariedade internacional

Quase três anos após o início da guerra entre Israel e Hamas, a Faixa de Gaza permanece devastada por uma tragédia humanitária sem precedentes. O território, antes densamente povoado, foi transformado em um cenário de ruínas, com escombros que escondem lixo, explosivos e milhares de corpos ainda não resgatados. Estudos científicos e reportagens indicam dezenas de milhares de mortos, muitos deles crianças feridas ou órfãs, além de milhares de desaparecidos sob os destroços. A crise também produziu um deslocamento em massa: centenas de milhares de crianças vivem em campos improvisados, enquanto mais de um milhão de adultos sobrevivem em tendas.

As condições sanitárias são alarmantes. A proliferação de ratos, pulgas e ácaros, associada à ausência de esgoto e coleta de lixo, amplia o risco de epidemias. A fome e a insegurança alimentar continuam a castigar a população, agravadas pelo bloqueio à entrada de ajuda humanitária. Nesse contexto, iniciativas como a Flotilha Global Sumud surgem como símbolos de solidariedade internacional, ao tentar romper o cerco israelense e levar alimentos, água e medicamentos à população palestina. No entanto, os ativistas foram interceptados pela Marinha israelense, em uma operação classificada por diversos observadores como um ato de pirataria e violação do direito internacional.

O caso ganhou repercussão com a prisão do ativista brasileiro Thiago Ávila, que denunciou ameaças e intimidações. Em carta à filha, ele justificou sua ausência como parte de uma luta por um mundo mais justo e seguro para todas as crianças.

IA militar e a ascensão do tecnofascismo

Durante anos, empresas de tecnologia cultivaram a imagem de agentes do progresso e da inovação. Contudo, essa narrativa foi abalada com a integração da inteligência artificial em operações militares conduzidas pelo Pentágono e por forças aliadas. Na prática, algoritmos passaram a ser utilizados para vigilância em massa, identificação de alvos e definição automatizada de ataques, transformando a IA em uma ferramenta capaz de recomendar quem deve morrer.

Israel foi pioneiro nesse processo com o sistema Lavender, que cruzava dados comportamentais e redes de contatos para gerar listas de alvos em Gaza. Nos Estados Unidos, grandes empresas como Google, Amazon, Microsoft, NVIDIA e OpenAI aderiram a projetos militares, apesar da resistência de centenas de funcionários. Especialistas como Paolo Benanti alertam que essa transferência de capacidades cognitivas artificiais para aparatos bélicos cria uma situação inédita, na qual decisões de vida ou morte são delegadas a sistemas sem responsabilidade moral.

Esse fenômeno vem sendo descrito como tecnofascismo. Empresas como a Palantir defendem abertamente o uso da inteligência artificial para guerras e controle social, enquanto estudiosos apontam que essas corporações reconfiguram o contrato social ao reduzir seres humanos a dados e padrões estatísticos. Embora existam algumas resistências, como a postura da Anthropic contra determinadas exigências do governo americano, o avanço dessa lógica evidencia o risco de erosão dos valores democráticos.

Lula, Trump e a disputa pela soberania brasileira

A ascensão do tecnofascismo e das tensões internacionais também repercute nas relações entre Brasil e Estados Unidos. Em reunião bilateral na Casa Branca, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump discutiram temas como terras raras, segurança e comércio. Apesar de um histórico recente de conflitos diplomáticos e questionamentos à soberania brasileira, o encontro foi considerado produtivo e marcado por um tom conciliador.

Entre as principais preocupações do governo brasileiro está a tentativa de influência política dos Estados Unidos, especialmente em temas como crime organizado e eleições. O Brasil rejeita a classificação de facções criminosas como grupos terroristas, temendo que isso seja usado como justificativa para interferências externas. Ao mesmo tempo, a riqueza mineral brasileira, com reservas de cobre, níquel, nióbio e lítio, tornou-se estratégica no contexto global, atraindo o interesse americano.

As tarifas sobre produtos brasileiros e as negociações econômicas permanecem em aberto, refletindo a importância do Brasil para os interesses de Trump em um momento de desgaste interno. Embora o encontro tenha evitado confrontos e produzido ganhos diplomáticos, ainda não está claro se essa trégua se sustentará diante das disputas geopolíticas e eleitorais.

Meio ambiente, crise climática e o fracasso da imaginação

Além das disputas geopolíticas, o planeta enfrenta uma crise ecológica que exige mais do que acordos diplomáticos: demanda uma transformação profunda da imaginação coletiva. O escritor indiano Amitav Ghosh argumenta que a sociedade permanece presa ao consumismo e a um modelo acelerado de vida, incapaz de conceber alternativas ao padrão de desenvolvimento atual.

Essa limitação se reflete em dados alarmantes, como o Dia da Sobrecarga da Terra, que esgotou em apenas quatro meses o orçamento ecológico previsto para todo o ano. No Brasil, a usina de Belo Monte exemplifica esse fracasso: apresentada como símbolo de progresso, provocou impactos severos no Rio Xingu, destruindo ecossistemas e deslocando comunidades tradicionais.

Na Amazônia, o avanço da mineração ilegal, do narcotráfico e da extração de madeira ameaça territórios indígenas e reforça a conexão entre degradação ambiental e crime organizado. Em contraponto, iniciativas como a conferência de Santa Marta, com representantes de 57 países, romperam o silêncio ao defender explicitamente o fim dos combustíveis fósseis. Ainda que sem grandes acordos, esses encontros indicam o surgimento de novas narrativas capazes de enfrentar a crise climática.

O primeiro ano do pontificado de Papa Leão XIV

Em meio a guerras, desigualdades e crises ambientais, cresce a expectativa sobre lideranças capazes de oferecer novos horizontes éticos. Nesse contexto, destaca-se o primeiro ano do pontificado de Papa Leão XIV, iniciado em 8 de maio de 2025 com a saudação “A paz esteja convosco”.

Inspirado por Santo Agostinho, Leão XIV tem buscado unir uma Igreja polarizada por meio do cristocentrismo e da escuta. Seu perfil combina posições progressistas em temas sociais e políticos com maior conservadorismo no campo moral. Ao mesmo tempo, desloca o foco da moral católica para questões como justiça, igualdade e liberdade religiosa, priorizando o combate ao sofrimento humano.

No plano geopolítico, o Papa ganhou destaque ao condenar publicamente a escalada militar contra o Irã e ao se posicionar como um obstáculo moral ao discurso agressivo de Donald Trump. Em vez de adotar a lógica do confronto, Leão XIV enfatiza pobreza, imigração e exclusão social, tentando reconstruir a autoridade moral da Igreja pela presença, serenidade e compromisso com a paz.

Intérpretes do Brasil e a esperança em outros futuros

Diante da aceleração das crises contemporâneas, torna-se necessário recuperar perspectivas que conectem sociedade, território e natureza. Povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos oferecem visões de mundo nas quais não há separação entre seres humanos e meio ambiente, apontando caminhos alternativos ao capitalismo tecnofascista.

Entre os grandes intérpretes do Brasil, destaca-se Milton Santos, cujo centenário é celebrado em 2026. O geógrafo desenvolveu conceitos como tecnosfera e psicosfera para explicar como a técnica molda tanto os territórios quanto as subjetividades. Embora essas estruturas possam servir à dominação das grandes corporações, também podem ser reapropriadas por populações vulnerabilizadas, gerando solidariedade e formas alternativas de organização social.

Outros pensadores, como Guimarães Rosa e Fernando Novais, contribuíram para compreender a formação histórica e cultural do país. Suas obras reforçam a importância de imaginar futuros baseados na diversidade, na autonomia local e na superação das desigualdades, mostrando que o Brasil possui em sua própria tradição intelectual as ferramentas para pensar caminhos mais justos e sustentáveis.

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