“Precisamos criar novas narrativas sobre o que significa viver bem”. Entrevista com Amitav Ghosh

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01 Mai 2026

Na obra El gran delírio: Cambio climático y lo impensable (Capitán Swing), há um deslocamento constante: do dado ao imaginário, da infraestrutura à cultura, da energia às formas de vida que a tornam necessária. Para Amitav Ghosh (Calcutá, 1956), a crise climática remete a uma forma histórica de perceber o mundo que reduziu o não humano a um pano de fundo inerte e fez do consumo o principal mediador da experiência.

A entrevista é de Guillem Pujol, publicada por La Marea-Climática, 30-04-2026. A tradução é do Cepat.

Esse modo de perceber faz parte da própria arquitetura da modernidade, de sua genealogia colonial e de seus dispositivos culturais, entre eles, o romance. “Nossa imaginação está completamente presa ao consumismo”, afirma Ghosh. Nesse contexto, a mudança climática surge como um limite interno às formas de percepção que organizam a experiência contemporânea: “É aí que entram os escritores, os artistas e os cineastas. Não é algo que políticos ou economistas possam resolver”, argumenta. Conversamos com o autor indiano durante sua estadia em Barcelona, no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona - CCCB.

Eis a entrevista.

Em ‘El gran delirio’, você considera que a mudança climática é um fracasso da imaginação. Até que ponto esse fracasso faz parte da própria estrutura da modernidade?

É claramente uma característica estrutural da modernidade. É a modernidade que cria as condições sob as quais ocorre esse estreitamento das possibilidades da imaginação. E assim, nossa imaginação acabou atrelada ao consumismo e a uma forma de vida acelerada. Nesse sentido, a modernidade é em si uma condição estrutural de aceleração.

E você diria que é um fenômeno global, americano, europeu…?

Um pouco de tudo, mas, sem dúvidas, nos Estados Unidos isso vai ainda mais longe. Os personagens costumam ser definidos pelo carro que dirigem. Para muitos estadunidenses, a personalidade está intimamente ligada a isso. A primeira pergunta de alguém sobre outra pessoa pode ser qual é o carro que possui. E se a pessoa não dirige, isso é chocante. Meus filhos não dirigiam aos 20 anos e alguns familiares ficavam extremamente surpresos. Para muitos, dirigir é um rito de passagem para a vida adulta. É uma forma de cumplicidade muito profunda com esse sistema.

A imaginação está limitada pelo petróleo…

Eu diria, inclusive, que é uma imaginação completamente dependente do petróleo. No caso estadunidense, o modelo de liberdade está sempre ligado ao motor de combustão interna. É o que vemos constantemente no cinema, na publicidade e na cultura popular.

Mas se você pensar bem, fica claro que o carro não é um instrumento de liberdade; é o instrumento de uma forma de escravidão. Você fica subordinado ao mercado, aos produtores de petróleo distantes e aos sistemas de extração.

E, mesmo assim, as pessoas podem sustentar simultaneamente essas ideias contraditórias sob as condições da modernidade. Pensadores como Descartes acreditavam que os animais eram máquinas incapazes de sentir dor. É um bom exemplo de até que ponto essas formas de pensar podem se impor, mesmo contra a experiência mais evidente.

Um modo de produção que colonizou, como você explica, a literatura. Mas até que ponto o romance moderno não apenas é incapaz de representar a mudança climática, como também contribui ativamente para torná-la invisível?

O romance moderno, especialmente nos últimos 40 ou 50 anos, e sobretudo o romance estadunidense, tornou-se profundamente dependente do consumismo. Quando os escritores querem descrever um personagem ou uma personalidade, recorrem a marcas: roupas, objetos, acessórios.

Isso significa que a estrutura de sentido desses romances depende inteiramente do consumo, dos bens e da lógica do branding. Em muitos sentidos, acabam funcionando como uma extensão do próprio sistema de consumo industrial.

Em sua obra, você fala de encontros com o não humano como momentos de reconhecimento, também esquecidos por grande parte da tradição ocidental.

A ideia de reconhecimento vem de Aristóteles, que falava de narrativas em que os personagens se reconhecem, após terem ficado separados. É uma estrutura muito comum: irmãos separados ao nascer que se reencontram, filhos que se reencontram com seus pais… O que me interessa é outra forma de reconhecimento entre humanos e não humanos.

Mas, aqui, é necessário fazer uma distinção importante: a modernidade não é uma coisa só. Existem formas de modernidade que não compartilham essa visão ocidental do mundo como algo inerte. Por exemplo, se você pensa no Japão ou na Coreia, são sociedades muito modernas em termos tecnológicos, mas não acreditam que a natureza seja algo morto. Para eles, existe um mundo espiritual ligado à paisagem e aos seres vivos. Essa ideia de que o mundo é completamente desprovido de vida é uma construção específica da Europa Ocidental.

Nesse sentido, qual o papel de imaginários como o de Frankenstein ou a ideia de máquinas conscientes?

A ideia de criar máquinas conscientes continua muito forte hoje em dia, sobretudo com a inteligência artificial. Muitos atores do setor tecnológico esperam produzir máquinas que pensem como os seres humanos. Contudo, isto se baseia em um erro fundamental. O pensamento humano não é possível sem o corpo.

Não se trata de termos um cérebro separado do corpo, nem de o corpo ser simplesmente um suporte mecânico. É o corpo que torna o pensamento possível. Até mesmo algo tão básico como o medo se experimenta primeiro fisicamente, no corpo, no estômago. Muitas formas de pensamento vêm literalmente do que chamamos de “sentimentos viscerais”. Separar mente e corpo é um erro profundo.

Você vinculou a crise climática à história do imperialismo. Como essa relação se expressa hoje?

Podemos vê-la muito claramente na geopolítica atual. O império anglo-americano foi construído sobre os combustíveis fósseis. Primeiro sobre o carvão e depois sobre o petróleo e o gás. Essa é uma das razões de conflitos como os que estamos vendo acontecer. Há uma clara obsessão pelo controle do petróleo. Primeiro, atacam a Venezuela, depois o Irã.

É como se tratasse de garantir o controle sobre os pontos cruciais do fluxo de petróleo, especialmente em regiões como o Oriente Médio, que são essenciais nesse sistema. E há uma ironia histórica em tudo isso: os combustíveis fósseis, que foram a base do poder do império anglo-americano, também estão contribuindo para o seu fim.

A transição para energias renováveis abre a possibilidade de imaginar outros modelos de vida?

Existe uma narrativa bastante otimista de que as energias renováveis substituirão os combustíveis fósseis e nos libertarão de suas limitações. Contudo, isto pressupõe que podemos manter o nosso estilo de vida mudando simplesmente a fonte de energia.

O problema é que as energias renováveis também têm impactos importantes. Os painéis solares exigem materiais cuja extração é muito destrutiva, como se vê em países como a China e o Chile. Os aerogeradores exigem grandes quantidades de concreto, que é uma das maiores fontes de emissões.

Além disso, essas infraestruturas têm uma vida limitada. E é necessário levar em consideração o paradoxo de Jevons: melhorias na eficiência tendem a aumentar o consumo total. Portanto, não podemos supor que substituir uma energia por outra nos levará automaticamente a um modo de vida mais sustentável.

Muitas dessas soluções são apresentadas como se fossem neutras, quando na realidade reproduzem dinâmicas extrativistas semelhantes. A mineração necessária para sustentar a transição energética já está gerando conflitos em diversos territórios. E, ao mesmo tempo, o aumento da eficiência não reduz o consumo, mas tende a expandi-lo.

É isso que o paradoxo de Jevons demonstra. Se a energia se torna mais barata ou mais acessível, o sistema encontra novas formas de consumi-la. Por isso, o problema climático não pode ser abordado apenas da perspectiva da produção de energia. Tem a ver com as formas de vida que essa energia sustenta.

Então, o problema não é apenas técnico, mas também cultural. Como redefinir o que entendemos por uma “vida boa”?

Essa é fundamentalmente uma questão de imaginação. E é aí que entram os escritores, os artistas e os cineastas. Não é algo que políticos ou economistas possam resolver. Precisamos criar novas narrativas sobre o que significa viver bem. Enquanto continuarmos associando a vida boa com a velocidade, o consumo e a mobilidade, por exemplo, dirigir em alta velocidade em uma rodovia, nada vai mudar. Não importa se o carro é elétrico ou a combustão, o impacto continuará sendo muito alto.

Mas se não há um ponto de partida claro, por onde podemos começar a construir essas novas narrativas?

É difícil enxergar por onde começar. Claro, concordo plenamente com os ativistas que deveríamos tentar nos afastar dos combustíveis fósseis, mas, aqui, há uma diferença de perspectiva importante. Se você perguntar a muitos ativistas climáticos ocidentais qual é o problema, dirão que o problema são os combustíveis fósseis. De certa forma, eles quase os tratam como se fossem o problema em si.

Contudo, se você fizer a mesma pergunta no Sul Global, não ouvirá isso. Dirão que o problema é a forma como os combustíveis fósseis estão sendo usados pelo Ocidente. Ou seja, desse ponto de vista, o consumo de combustíveis fósseis se situa em uma matriz de desigualdade. E consideram a desigualdade o principal motor da crise ambiental que enfrentamos hoje.

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