A missão impossível de Rubio: reconquistar os católicos sem desistir de Cuba

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08 Mai 2026

O secretário de Estado dos EUA é forçado a buscar um equilíbrio complicado para não comprometer suas ambições presidenciais.

A reportagem é de Anna Lombardi, publicada por La Repubblica, 08-05-2026. 

Marco Rubio retorna para casa com a caneta de madeira de oliveira que recebeu de Leão XIV como símbolo de paz; e com o risco de dividir, em vez de unir, a base eleitoral que se identifica com sua dupla identidade como católico e latino de origem cubana. A mesma identidade, em outras palavras, que, caso ele decida prosseguir com as aspirações presidenciais já expressas em 2016, será essencial para o seu sucesso em 2028.

Até agora, ser cubano e católico tradicionalista — o único representante credível na administração para restabelecer as relações com o Papa — ajudou a torná-lo um político republicano respeitado e intransigente, conhecido por sua postura anticomunista. Ele é um inimigo declarado da China, da Venezuela, da Nicarágua e, claro, de Cuba, a ilha onde nunca pisou, berço de seus pais, Mario e Oriales. O garçom e o barman que, ao contrário do que alegava durante os anos em que trilhava seu caminho dentro do partido em Miami, onde nasceu em 1971, nunca foram exilados anticastristas. Uma investigação do Washington Post revelou isso há alguns anos: eles chegaram à Flórida em 1956, dois anos antes de Fidel assumir o cargo. A investigação terminou com Rubio sendo forçado a alterar sua biografia oficial no site do Senado.

Bem, o risco de que, depois de Caracas e Teerã, os Estados Unidos tentem também uma mudança de regime em Havana, é motivo de grande preocupação para a Igreja. Ainda mais porque Trump afirmou explicitamente: "Em nosso retorno do Irã, poderemos passar por Cuba". Há meses, os EUA impõem um embargo muito mais severo do que no passado, privando a ilha de energia e deixando sua população à míngua: "Um massacre silencioso que afeta os pobres", como o classificou a Santa Sé.

De fato, antes de Jeanette Dousdebes, esposa de Rubio, ex-cheerleader do Miami Dolphins e mãe de seus quatro filhos, entrar na biblioteca papal onde o encontro ocorreu, com o rosto coberto por um véu, para a foto ritual — além da África e dos conflitos ao redor do mundo, o Papa e o chefe da diplomacia americana também falaram extensivamente sobre Cuba. O Vaticano mantém um canal aberto com Havana e pressiona por um alívio do embargo, afirmando estar disponível para enviar ajuda: medicamentos e alimentos. Em 13 de março, conseguiu a libertação de 51 presos políticos, "no espírito de boa vontade, de relações estreitas e fluidas entre o Estado cubano e a Santa Sé", escreveu Havana.

O temor agora é que a situação possa se agravar: devido a uma ação armada dos Estados Unidos, com o intuito, precisamente, de garantir algum tipo de vitória antes das eleições de novembro. Ou simplesmente devido ao clima de tensão criado pelas palavras desestabilizadoras de Trump, que aumentam o risco real de uma escalada violenta tanto dentro como fora da ilha: algo semelhante já aconteceu em 26 de fevereiro, quando a Guarda Costeira cubana matou quatro pessoas a bordo de uma lancha vinda dos Estados Unidos, que "estavam tentando se infiltrar para fins terroristas".

E quem sabe, talvez o secretário de Estado tenha refletido sobre isso durante a longa tarde passada ontem na "fortaleza" do Hotel Edition, na Via San Nicola da Tolentino — a poucos metros da embaixada americana com vista para a Via Veneto —, onde se refugiou após suas reuniões no Vaticano, justamente quando seu ministério anunciava novas sanções contra empresas cubanas atuantes no setor de extração mineral, demonstrando não ter intenção de afrouxar o controle. Ele só saiu ao pôr do sol, para jantar "à bolonhesa" em uma Piazza del Popolo completamente isolada para garantir sua privacidade.

Sem dúvida, a importância desta viagem aumentou, inclusive em nível pessoal. Marco Rubio, "o pacificador", não só precisa voltar para casa com as relações entre os Estados Unidos e a Santa Sé praticamente restabelecidas, como também precisa encontrar uma maneira de apaziguar o eleitorado cubano anticastrista, que há mais de meio século sonha com a recuperação da ilha. Isso precisa ser feito sem, no entanto, decepcionar os 55% dos católicos americanos que votaram em Trump nas eleições de 2024 e que agora estão horrorizados com as críticas do presidente ao Papa e com a tendência belicista adotada pelos Estados Unidos.

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