29 Abril 2026
Abu Dhabi anuncia sua saída da organização, em meio a uma das piores crises energéticas da história e em um contexto geopolítico mais frágil do que nunca. Disputas com os sauditas e tensões decorrentes do conflito estão na raiz da decisão.
A informação é de Laura Lucchini, publicada por La Repubblica, 28-04-2026.
A notícia caiu como uma bomba, enquanto os países do Golfo se reuniam em Jeddah. Os Emirados Árabes Unidos anunciaram oficialmente sua saída da OPEP, desferindo um duro golpe no cartel do petróleo e, principalmente, em seu líder de fato, a Arábia Saudita. É uma decisão que vinha sendo gestada há anos, mas que chega em um momento dramático: uma das piores crises energéticas da história, causada pela guerra no Irã. Os Emirados, com suas enormes reservas e custos de extração entre os mais baixos do mundo, há muito lutam para suportar os cortes de produção impostos pelo grupo. Essas cotas excessivamente rígidas, segundo Abu Dhabi, os impediam de explorar plenamente o potencial de seus recursos.
Momento dramático
O momento do anúncio, no entanto, é particularmente dramático. O mundo enfrenta a pior crise energética em décadas, desencadeada pelo conflito entre os EUA, Israel e Irã e pelo fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa mais de um quarto do petróleo mundial e um quinto do gás natural liquefeito. E a medida só pode ser explicada pelas tensões regionais resultantes do feroz ataque do Irã aos países do Golfo, em resposta aos ataques dos EUA e de Israel.
Os Emirados Árabes Unidos, aliás, foram o país mais afetado e agora adotam uma postura intransigente, recusando-se a dialogar com Teerã. "Levará anos para recuperar a confiança", disse ontem o conselheiro diplomático emiradense Anwar Ghargash, lançando também uma crítica contundente aos seus aliados: "A posição do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) tem sido historicamente a mais frágil, dada a natureza do ataque e a ameaça que representou para todos. Quando falo do CCG, não me refiro ao Secretário-Geral ou ao Secretariado, mas aos Estados-membros."
Tensões com os sauditas
Num momento em que é necessária maior coordenação entre os produtores, a OPEP está a perder um dos seus membros mais importantes e dinâmicos. Fontes próximas da ADNOC, a companhia petrolífera nacional dos Emirados Árabes Unidos, citadas pelo Financial Times, têm vindo a salientar há muito o seu descontentamento com uma organização que consideram demasiado dominada pelos interesses da Arábia Saudita. Não é segredo que, nos últimos anos, os Emirados têm pressionado por maior flexibilidade, sem obter os resultados desejados.
A saída dos Emirados Árabes Unidos — o terceiro ou quarto maior produtor do cartel — corre o risco de enfraquecer ainda mais a coesão da OPEP, já fragilizada por divisões internas e pela crescente influência da OPEP+. É um sinal claro de que, na nova turbulência energética global, os países do Golfo estão optando por caminhos cada vez mais autônomos. As repercussões nos mercados serão imediatas: maior incerteza, mas também a perspectiva de mais petróleo disponível a médio prazo, caso Abu Dhabi decida aumentar a produção sem restrições. Em um mundo que precisa desesperadamente de estabilidade energética, o cartel está se desintegrando. E o Golfo parece mais fragmentado do que nunca.
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