29 Abril 2026
O país árabe, quinto maior exportador mundial de petróleo bruto, está prejudicando a organização mais influente do mercado de energia desde a década de 1970 com sua saída.
A reportagem é de Caio Mattos, publicada por El País, 29-04-2026.
A guerra no Irã, que em apenas dois meses abalou a cadeia global de suprimentos de energia, está agora abrindo uma brecha em um dos pilares da diplomacia do petróleo das últimas cinco décadas. Em meio ao bloqueio do Golfo Pérsico, os Emirados Árabes Unidos anunciaram na terça-feira sua saída da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), o cartel que ditou os rumos do mercado de petróleo bruto desde a crise energética da década de 1970. Essa organização perdeu influência com a ascensão de outros produtores, como os Estados Unidos, o Canadá e o Brasil, o que aumentou o custo econômico e político de influenciar os preços do petróleo por meio de aumentos ou cortes na produção.
A decisão dos Emirados Árabes Unidos, que será formalizada nesta sexta-feira, é um dos maiores golpes da história da OPEP, composta principalmente por países árabes, além do próprio Irã. Comparável em tamanho à região espanhola de Castela-La Mancha, mas com significativa capacidade de produção e reservas, os Emirados Árabes Unidos eram, até o fechamento do Estreito de Ormuz, o quinto maior exportador de petróleo do mundo, com 2,7 milhões de barris de petróleo bruto por dia, segundo o último relatório anual da OPEP, de 2024.
O que é a OPEP?
Essa organização é um cartel no sentido mais estrito: um grupo de países produtores que coordena a oferta com o objetivo de fixar os preços de um produto, neste caso, o petróleo. Seu propósito é manter os preços altos o suficiente para maximizar a receita, mas não tão altos a ponto de prejudicar as economias e reduzir a demanda, e consegue isso estabelecendo cotas de produção para cada país.
A OPEP foi fundada em 1960 pelo Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela como uma reação ao domínio do mercado pelas grandes companhias petrolíferas multinacionais, as chamadas Sete Irmãs, um grupo de empresas petrolíferas americanas e britânicas que controlavam a produção e fixavam preços baixos nos países produtores.
O cartel ganhou força na década de 1970, quando seus membros — que então incluíam os Emirados Árabes Unidos — reduziram o fornecimento de petróleo bruto como forma de pressão durante as guerras no Oriente Médio entre os países árabes e Israel. O cartel controlava, na época, metade das exportações globais de petróleo, em comparação com os 44% atuais, e seus cortes quadruplicaram os preços em 1974 e 1979, desencadeando um período de inflação e recessão globais. Uma catástrofe energética em um mundo ainda mais dependente do petróleo do que é hoje.
Qual é a produção da OPEP?
Ao longo dos anos, a organização perdeu terreno para o aumento da produção em países como Brasil, Rússia, Canadá e Estados Unidos, atualmente o maior produtor mundial. Ainda assim, a OPEP mantém um papel fundamental no fornecimento internacional de petróleo: ela responde por quase 40% das exportações de petróleo bruto, segundo dados da própria organização.
De acordo com dados da própria OPEP referentes a 2024, seus 12 membros permanecem entre os maiores produtores mundiais. A Arábia Saudita é a principal exportadora de petróleo bruto, com aproximadamente seis milhões de barris por dia. O Iraque, com 3,3 milhões, é o quarto maior exportador mundial. Os Emirados Árabes Unidos vêm a seguir, com 2,7 milhões de barris por dia, em quinto lugar. Outros membros importantes incluem o Irã, que, apesar das sanções dos EUA, exportou cerca de 1,5 milhão de barris por dia até o momento, e o Kuwait, com aproximadamente 1,1 milhão.
Na área de produtos petrolíferos refinados, a influência da OPEP é muito menor: o cartel controla apenas 15% das exportações globais, em comparação com a força de outras economias como os EUA e a Holanda. Só os americanos exportam mais produtos refinados do que todos os membros da OPEP juntos, e os holandeses vendem para outros países cerca de metade do que o cartel coloca no mercado.
Qual o motivo da decisão dos Emirados?
O governo dos Emirados Árabes Unidos defendeu sua saída da OPEP como uma forma de escapar dos limites de produção do cartel, o que lhe daria mais margem de manobra para aumentar sua produção a longo prazo. O país já está se preparando para aumentar significativamente a produção assim que o tráfego marítimo no Golfo Pérsico retornar à normalidade.
“Trata-se de uma decisão política, tomada após uma análise minuciosa das medidas atuais e futuras relacionadas aos níveis de produção”, declarou o ministro da Energia dos Emirados Árabes Unidos, Suhail Mohamed al-Mazrouei, na terça-feira. A medida também possui uma componente geopolítica, visto que as alianças e rivalidades internacionais têm corroído a coesão da OPEP nos últimos anos.
Os Emirados Árabes Unidos são um forte aliado dos Estados Unidos, um país que se opõe ao cartel, e ao mesmo tempo rivaliza com a Arábia Saudita, líder de fato da OPEP e que efetivamente define as quotas de produção, muitas vezes em detrimento dos seus parceiros. Esta tensão interna, aliada ao incumprimento repetido das quotas por parte de vários membros, tem pressionado os preços durante anos: o preço do barril manteve-se em torno dos 60 dólares — o mais baixo desta década — durante os últimos três anos, até recuperar com a guerra de preços, que o elevou para mais de 110 dólares.
A decisão dos Emirados Árabes Unidos não é inédita. Em 2019, o Catar retirou-se do cartel usando argumentos muito semelhantes. Embora menos relevante no mercado de petróleo, é o maior exportador mundial de gás natural liquefeito e responsável por aproximadamente 20% do fornecimento global. Em sua decisão, o governo catariano argumentou que buscava maior autonomia.
O que é a OPEP+?
Em 2016, a Arábia Saudita liderou uma aliança da OPEP com outros dez grandes produtores, incluindo a Rússia, para recuperar a influência sobre os preços do petróleo bruto sem comprometer sua liderança dentro do grupo. Esse acordo, com compromissos mais flexíveis, é conhecido como OPEP+.
Essa aliança existe no papel, mas não tanto na prática. Apenas quatro anos após sua formação, a Rússia entrou em conflito com a Arábia Saudita sobre os níveis de produção em meio à queda acentuada da demanda devido ao surto da pandemia de Covid-19. O resultado foi uma produção desenfreada que derrubou o preço do petróleo para US$ 20 o barril, seu nível mais baixo em duas décadas. A medida se mostrou um tiro pela culatra de forma espetacular, e os membros da OPEP pagaram o preço.
O tempo mostrou que as contradições inerentes a qualquer cartel — interesses divergentes, quebras de contrato e rivalidades internas — acabam por corroê-lo. A saída dos Emirados Árabes Unidos é o exemplo mais recente disso e o mais significativo na história da organização. Por ora.
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