29 Abril 2026
A história demonstra que o esporte é uma ferramenta formidável para promover boicotes contra estados genocidas ou que praticam o apartheid. Seu poder brando não causa milhares de vítimas como as guerras em Gaza, Irã e Líbano. Nem causa escassez de recursos vitais de saúde como o bloqueio que Cuba enfrenta. Não gera a expulsão de milhares de migrantes como está acontecendo hoje nos EUA. Nem causa fomes ou deslocamentos populacionais na África provocados por potências capitalistas que exacerbam as mudanças climáticas.
A reportagem é de Gustavo Veiga, publicada por Página|12, 29-04-2026.
Em 2026, a ideia de sanções esportivas contra dois alvos — os Estados Unidos e Israel — ganhou força novamente. Dentro da comunidade do futebol e em seus círculos adjacentes, suas políticas belicistas contra muitos povos do mundo são rejeitadas. Mas o COI e a FIFA, as duas organizações esportivas mais poderosas do planeta, aplicam um padrão duplo quando se trata de sanções. Agiram da mesma forma com a Rússia quando esta invadiu a Ucrânia, mas fecham os olhos para a aliança entre Washington e Jerusalém e seus crimes, como o genocídio em curso na Faixa de Gaza.
Os governos de Trump e Netanyahu são há muito tempo alvos de organizações de direitos humanos, movimentos sociais, confederações, associações, atletas e cidadãos comuns que condenam os crimes contra a humanidade nos territórios palestinos. O mesmo ocorre na Argentina. A mensagem desses grupos coletivos é direcionada diretamente à Associação de Futebol Argentino (AFA) e à Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL).
Em uma longa carta a ser entregue nesta quarta-feira à sede da associação, a organização é instada a "promover e apoiar a exclusão de Israel da FIFA". Esta não será a primeira vez. O mesmo pedido já foi feito pela Confederação Asiática de Futebol, que reúne 47 países, por especialistas das Nações Unidas, pela presidente da Federação Norueguesa de Futebol, Lise Klaveness, pela associação italiana de treinadores e pelo ex-jogador Eric Cantona, entre 1,5 milhão de pessoas que assinaram diversas petições.
Agora, o Coordenador de Direitos Humanos do Futebol Argentino, o Comitê Argentino de Solidariedade com o Povo Palestino, o Clube de Futebol Norita, o grupo Bicho Antifascista, La Neurona Rebelde e outros grupos darão uma coletiva de imprensa na sede das Mães da Praça de Maio às 14h e, de lá, se juntarão à marcha dos aposentados na Praça do Congresso, que é invariavelmente reprimida pela polícia.
O ex-técnico do Huracán e do River Plate, Ángel Cappa, falando de Madri, expressou sua solidariedade à iniciativa, criticando tanto Trump quanto Netanyahu e afirmando que “é indecente aceitar sediar a Copa do Mundo nos Estados Unidos, ignorando ou fingindo ignorar os abusos assassinos de seu governo. A Copa do Mundo ainda poderia ser disputada, excluindo os EUA, no México e no Canadá”. Fernando Signorini, técnico e amigo de Diego Maradona, também endossou a carta.
O documento a ser submetido à AFA expressa “profunda preocupação com relação ao acordo que a CONMEBOL mantém com a Associação Israelense de Futebol (IFA)”. Solicita que “o texto integral do acordo assinado entre a CONMEBOL e a IFA em abril de 2024 seja tornado público, pois consideramos a transparência neste assunto fundamental”.
Em seu parágrafo final, a carta declara inequivocamente o que pede aos dirigentes do futebol nacional: “Que a AFA promova o cancelamento do acordo assinado com a Associação Israelense de Futebol (IFA) pela CONMEBOL. Que a AFA promova ativamente a exclusão de Israel da FIFA. Que a AFA promova a ideia de que a próxima Copa do Mundo masculina não seja disputada em um estado genocida e sim realizada apenas no México e no Canadá.”
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