25 Abril 2026
"A minoria cristã deve ter a possibilidade real de exercer uma verdadeira influência evangélica no coração da humanidade. Contudo, não se deve ter nem a obsessão da influência na sociedade, nem a temer. A verdadeira vida cristã carrega em si uma mensagem de humanização. A espiritualidade cristã é, em última análise, uma arte de viver humanamente", escreve Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Stampa-Tuttolibri, 18-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Durante séculos, confundimos o Evangelho com o registro civil e a fé com o pertencimento a um grupo social. Hoje, o desaparecimento da cristandade — aquele sistema de poder e costumes nascido com Constantino — não é uma tragédia a ser lamentada, mas a oportunidade que o cristianismo esperava para voltar a ser ele mesmo. Livre do fardo das instituições que precisam agradar a todos, a fé pode finalmente retornar ao que era no início: uma escolha radical, minoritária e, precisamente por isso, revolucionária. O fim da cristandade é uma oportunidade para o cristianismo, já que até agora o cristianismo viveu em uma ambiguidade, a de “ser” cristão sem ter que se tornar cristão. Essa coincidência entre fé e sociedade não existe mais, e a nova situação de minoria dos cristãos é uma oportunidade para demonstrar que sua fé é vivida em liberdade e por amor.
Alguns cristãos temem que se tornar minoria possa levar ao seu futuro desaparecimento, mas ser minoria não significa ser insignificante. Existem minorias eficazes que atuam na sociedade para garantir que a mensagem cristã seja ouvida. Devemos, portanto, ter cuidado para que essa condição de minoria não leve à asfixia, mas sim sirva como sal ou luz do mundo.
A minoria cristã deve ter a possibilidade real de exercer uma verdadeira influência evangélica no coração da humanidade. Contudo, não se deve ter nem a obsessão da influência na sociedade, nem a temer. A verdadeira vida cristã carrega em si uma mensagem de humanização. A espiritualidade cristã é, em última análise, uma arte de viver humanamente.
O renomado teólogo Armando Matteo — professor de teologia fundamental na Pontifícia Universidade Urbaniana de Roma e secretário da Seção Doutrinária do Dicastério para a Doutrina da Fé — há tempo dedica sua vasta produção ensaística à análise da relação entre a fé cristã e a sociedade contemporânea. Recentemente, publicou "La fortuna di essere irrilevanti. Trasformazioni strutturali di una Chiesa dalla quale nessuno o quasi si aspetta più nulla” (A sorte de ser irrelevantes. Transformações estruturais de uma igreja da qual ninguém ou quase ninguém espera mais nada, em tradução livre), pela Edizioni San Paolo. Um ensaio no qual Matteo se confirma, apesar de seu importante e delicado papel como secretário do antigo Santo Ofício, como um teólogo livre, corajoso e apaixonado, capaz de imaginar uma Igreja diferente, um cristianismo diferente.
É verdade que hoje quase ninguém espera mais nada da Igreja, no máximo, atividade social e caritativa, preservação da piedade popular e conservação da religião como cola de valor e, em determinados casos, de interesses. A tese central de Armando Matteo é que a irrelevância atual da Igreja não é uma condenação, mas uma libertação das expectativas mundanas que permite redescobrir a essência do Evangelho. Assim, ele delineia uma visão do futuro do cristianismo que transforma a marginalidade social em um recurso estratégico.
O ocidental médio não vê mais o Evangelho como um recurso para sua própria felicidade, e essa ruptura estrutural marca o fim definitivo do cristianismo como "tradição automática". Por essa razão, ser uma realidade "da qual ninguém espera mais nada" oferece à Igreja a liberdade de mudar corajosamente, sem o fardo de ter que manter papéis sociais ou institucionais preestabelecidos, e isso representa uma bênção para a Igreja, a bênção da liberdade. Certamente, um abandono tão massivo da fé e do pertencimento à Igreja causa desconforto e sofrimento, mas também pode representar a oportunidade para transformações profundas que a Igreja necessita há décadas, mas que foram por demais evitadas e adiadas.
Para o teólogo Matteo, o futuro do cristianismo não reside na preservação de estruturas, mas na capacidade de voltar a propor a figura de Jesus como caminho para uma vida plena e feliz, dirigindo-se sobretudo àquele "vazio" deixado pelas gerações adultas. A visão do autor sugere uma transformação estrutural que abandone a autorreferencialidade para se tornar companheira de jornada para os homens e as mulheres de hoje, aceitando ser uma minoria que se destaca pela qualidade de sua missão e não pelo número de seus adeptos.
Para Armando Matteo, o futuro do cristianismo não é um lento declínio rumo à extinção, mas uma oportunidade de passar de uma pertença por convenção para uma escolha consciente e alegre, possibilitada justamente porque a Igreja deixou de ser um centro de poder social. O teólogo não se limita a teorias, mas aponta escolhas concretas e necessárias, como passar da “pastoral do funil” para a “pastoral da encruzilhada”, onde a paróquia não deve mais se comportar como um funil que espera que as pessoas entrem para encaminhá-las em percursos preestabelecidos (sacramentos, catecismo). A paróquia deve se tornar um lugar de intersecção com a vida real, saindo de seus próprios limites para encontrar as pessoas onde elas vivem, trabalham e buscam a felicidade.
Matteo argumenta que o verdadeiro problema não são os jovens, mas os adultos que deixaram de ser testemunhas credíveis. As paróquias devem ajudar os adultos a redescobrir a beleza de sua própria idade e da responsabilidade, parando de perseguir modelos juvenis. A proposta pastoral deve apresentar a fé como aquilo que dá sentido a uma vida adulta complexa, ligando-a aos temas de bem-estar interior e da generatividade. Em um contexto de irrelevância, os sacramentos não podem mais ser "ritos de passagem" sociais. A liturgia deve voltar a ser uma experiência espiritual e de encontro real com Cristo, capaz de transmitir uma mensagem positiva mesmo para aqueles que estão distantes. As paróquias devem deixar de ser "guichês de certidões" religiosas e se tornar comunidades de fraternidade onde a fé é uma escolha.
O valor do belo ensaio de Armando Matteo reside em sua visão profundamente evangélica da natureza disruptiva da irrelevância do cristianismo. O fim da cristandade não é o funeral da fé, mas sim sua fuga para a liberdade. Durante séculos, confundimos o Evangelho com uma certidão de nascimento, reduzindo Deus a um mero acessório do aparato social; agora que o mundo finalmente deixou de pedir cerimônias vazias e garantias morais, a Igreja não tem mais desculpas.
Permanecer irrelevantes significa deixar de ser o guichê burocrático da alma e retornar àquilo que o poder sempre temeu: uma minoria profética. Se a paróquia deixar de funcionar como um funil que engarrafa fiéis por inércia, poderá finalmente se transformar em um laboratório de felicidade subversiva. O paradoxo está posto: precisamente hoje, quando ninguém espera mais nada da Igreja, ela pode voltar a oferecer a única coisa que importa — não uma tradição a ser preservada em formol, mas o encontro com um Cristo que liberta a vida adulta do vazio do consumismo.
O futuro não pertence àqueles que resistem ao cerco, mas àqueles que têm a coragem de habitar o deserto com a fragrância de uma alegria que não precisa de licenças institucionais para brilhar.
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