23 Abril 2026
"Do ponto de vista conjuntural, as circunstâncias políticas enfrentadas pelo 3º Governo Lula são muito piores do que as que prevaleceram em seus governos anteriores. Não é necessário detalhar a gravidade da ascensão do neofascismo-bolsonarismo e do empoderamento do Congresso Nacional através das emendas parlamentares."
O artigo é de Luiz Filgueiras, é professor titular aposentado da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), publicado por A Terra é Redonda, em 21-04-2026.
Eis o artigo.
"O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda assim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema… Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo, mesmo que boa parte da população não se veja como progressista. Ela quer o que nós propomos." (Luiz Inácio Lula da Silva)
A citação acima foi extraída de um discurso do presidente do Brasil, proferido em Barcelona, na Espanha, no dia 18 de abril do presente ano, quando de sua participação na primeira edição do evento Mobilização Progressista Global (MPG). O encontro reuniu ativistas e organizações de esquerda de diferentes partes do mundo com o objetivo de defender a democracia com justiça social e combater o avanço das forças autoritárias de extrema direita.
Um discurso semelhante já tinha sido feito por Lula no dia 24 de setembro de 2025, quando da segunda edição do evento "Em Defesa da Democracia e Contra o Extremismo". Realizado em paralelo à Assembleia Geral das Nações Unidas, é um Fórum Internacional em defesa das instituições democráticas e contra a desinformação, o discurso de ódio e a desigualdade social. Com a participação de 30 países, Brasil, Chile, Espanha, Colômbia e Uruguai estiveram na mesa principal.
Nesse Fórum, Lula perguntou: "o que fazemos hoje, como estamos exercendo a democracia em nossos países", e respondeu explicitamente que "a gente ganha as eleições com discurso de esquerda e quando começa a governar atende muito mais os interesses de nossos inimigos do que dos nossos amigos". A preocupação maior é com "a cobrança do mercado e a necessidade de contentar o mercado e os adversários", além de "dar resposta ao que a imprensa pública sobre nós".
Ademais, nesse mesmo discurso de 2025, Lula enfatiza que o Partido dos Trabalhadores era organizado em núcleos por local de trabalho, moradia e estudo. Não analisa o porquê disso ter sido abandonado pelo Partido, mas pergunta: "o que eu fiz na Presidência da República; o que eu fiz para fortalecer a organização popular e social?". Sua resposta genérica, estendida para a esquerda latino-americana: "abandonamos a organização dos trabalhadores e do povo".
A importância dos dois discursos tem três razões fundamentais:
(i) foram proferidos pelo responsável maior dos cinco governos do PT e de seus aliados eleitorais de ocasião;
(ii) declaram, sem meias palavras, que os governos de esquerda "sucumbiram à ortodoxia", na condição de "gerentes das mazelas do neoliberalismo", "praticando austeridade" e "abrindo mão de políticas públicas em nome da governabilidade", em suma, "nós nos tornamos o sistema";
(iii) ambos se referem à esquerda latino-americana e mundial, e não apenas à do Brasil.
Nesses discursos, Lula resume uma questão essencial para entendermos a ascensão do neofascismo em todo mundo, e a própria conjuntura política atual, qual seja: o "transformismo" dos Partidos Socialistas, Socialdemocratas e Trabalhistas, iniciado a partir da década de 1980, após a ascensão e hegemonia do neoliberalismo — primeiro nos países imperialistas, depois nos países periféricos, de capitalismo dependente.
A adesão ativa ao ideário do adversário (a direita neoliberal) ou a sua aceitação passiva criou um vácuo político na representação dos trabalhadores e do povo que, na incapacidade das correntes mais à esquerda preencherem, abriu as portas para a ascensão da extrema direita neofascista.
Dificilmente se pode discordar desse diagnóstico feito por Lula duas vezes, independentemente dos dois campos políticos em disputa hoje na esquerda brasileira: os que acusam os Governos do PT de neoliberais, com a adoção do Novo Arcabouço Fiscal (NAF) e o Banco Central independente, e os que os defendem, discriminando a adoção de políticas sociais que abrandam os efeitos do neoliberalismo e promovem uma melhora nas condições de vida das classes trabalhadoras.
O padrão de desenvolvimento capitalista liberal-periférico
O que está subjacente aos discursos de Lula é a constituição, desde o início dos anos 1990, e sua permanência até hoje, de um padrão de desenvolvimento capitalista que denomino de "liberal-periférico", que tem as seguintes características principais:
A relação capital/trabalho teve a sua assimetria aumentada a favor do primeiro, em razão da reestruturação produtiva e da abertura comercial — que implicaram o crescimento do desemprego estrutural, do trabalho informal, da terceirização e da precarização do trabalho em todas as suas dimensões. Como consequência, a capacidade de organização, mobilização e negociação dos sindicatos se reduziu dramaticamente.
As relações intercapitalistas, em razão da abertura comercial-financeira e das privatizações, foram redefinidas: o capital financeiro (nacional e internacional) passou a ocupar posição dominante, deslocando a antiga hegemonia do capital industrial; o capital estatal perdeu relevância em favor do capital estrangeiro; e fortaleceram-se grandes grupos econômicos nacionais produtores/exportadores de commodities e o agronegócio.
A inserção internacional do país na nova divisão internacional do trabalho se alterou para pior: a pauta de exportação se reprimarizou e se aprofundou o processo de desindustrialização. Cresceu dramaticamente a dependência financeira, fragilizando o Estado e reduzindo fortemente a sua capacidade de fazer política macroeconômica. Tudo isso decorreu da abertura comercial-financeira que também alimentou o crescimento da dívida pública — esta, como em outros países periféricos, transformou-se em plataforma de acumulação para o capital financeiro internacional.
O papel e a importância do Estado se alteraram — em virtude do processo de privatização e da abertura financeira. O Estado fragilizou-se financeiramente e perdeu capacidade de regular a economia e de operacionalizar políticas macroeconômicas e de apoio à produção — apesar do seu resgate momentâneo pelos governos Lula e Dilma Rousseff.
O bloco no poder: em razão de todas essas mudanças, constituiu-se um novo bloco no poder, sob a hegemonia absoluta, num primeiro momento, do capital financeiro e da burguesia cosmopolita, que passou a ditar as políticas fundamentais do Estado. Posteriormente, cresceu a importância do agronegócio e da indústria produtora de commodities, com o protagonismo da burguesia interna.
Em suma, o padrão é neoliberal porque foi constituído a partir da abertura comercial e financeira, das privatizações e da desregulação da economia, com a clara hegemonia do capital financeiro. E é periférico porque o neoliberalismo assume características específicas nos países capitalistas dependentes, que o torna mais regressivo ainda quando comparado à sua agenda nos países capitalistas centrais.
As sucessivas fases do padrão liberal-periférico
Desde a sua constituição, no começo da década de 1990, o padrão liberal-periférico passou por seis momentos distintos:
(i) fase inicial de transição e ruptura com o padrão de substituição de importações, com o começo da hegemonia do capital financeiro (governo Fernando Collor);
(ii) ampliação e consolidação da nova ordem econômico-social neoliberal, com a implementação do Plano Real e das reformas neoliberais (primeiro governo FHC);
(iii) fase iniciada com o fim da âncora cambial em 1999 e a adoção do tripé macroeconômico (segundo governo FHC e primeiro governo Lula);
(iv) fase de ampliação da presença da burguesia interna no bloco no poder, com o Estado voltando a ter papel ativo (segundo governo Lula e governo Dilma Rousseff);
(v) os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, de recomposição da hegemonia absoluta do capital financeiro, com nova onda de reformas neoliberais;
(vi) o terceiro governo Lula, de manutenção do tripé macroeconômico em sua versão rígida, mas com o retorno das políticas sociais.
Ao longo dessas seis momentos, o padrão liberal-periférico sofreu três inflexões:
- a âncora cambial do Plano Real no primeiro governo FHC;
- o tripé macroeconômico rígido no segundo governo FHC e em parte do primeiro governo Lula; esse mesmo tripé flexibilizado no segundo governo Lula e no primeiro governo Dilma;
- e a retomada do tripé em sua versão rígida nos governos Dilma 2, Michel Temer, Jair Bolsonaro e Lula 3.
São esses regimes de política macroeconômica que diferenciam os governos de FHC, Michel Temer e Jair Bolsonaro dos governos de Lula e Dilma — apesar de todos eles se assemelharem do ponto de vista do predomínio do padrão de desenvolvimento capitalista liberal-periférico, seja por meio de sua promoção ativa (os primeiros), seja por meio de uma adaptação passiva (os segundos). Essa adaptação foi maior no 3º governo Lula, pressionado pelas forças neofascistas-neoliberais, o que o levou a adotar o NAF e a manter o tripé macroeconômico em sua versão rígida.
Conclusão
O argumento fundamental apresentado neste texto foi o de que, apesar dos distintos regimes de política macroeconômica adotados desde o início dos anos 1990, e de algumas inflexões no bloco no poder, não se alteraram as características essenciais do padrão de desenvolvimento capitalista brasileiro. O padrão liberal-periférico é uma variedade histórica específica de neoliberalismo, no preciso sentido de que o neoliberalismo realmente existente é também produto das características da formação econômico-social que o incorpora.
Ao longo da trajetória do padrão liberal-periférico, forjou-se um consenso básico entre as distintas frações do capital sobre:
(i) a abertura comercial e financeira;
(ii) a dominância do capital financeiro e o processo de financeirização da economia;
(iii) a continuação do processo de privatização;
(iv) a desregulamentação do mercado de trabalho e a flexibilização da legislação trabalhista;
(v) as reformas neoliberais e a redução das políticas sociais a um mínimo possível.
Desse modo, mais do que nunca, não há qualquer possibilidade de construção política de um projeto nacional, de caráter capitalista, vir a ser concebido e dirigido por qualquer fração da burguesia brasileira. Em particular, a sua fração dominante, a burguesia cosmopolita, não consegue e nem aceita conviver com uma melhor distribuição de renda; a necessidade de superexploração do trabalho está entranhada em seu ethos de classe.
Do ponto de vista conjuntural, as circunstâncias políticas enfrentadas pelo 3º Governo Lula são muito piores do que as que prevaleceram em seus governos anteriores. Não é necessário detalhar a gravidade da ascensão do neofascismo-bolsonarismo e do empoderamento do Congresso Nacional através das emendas parlamentares.
Contudo, também é forçoso reconhecer que a trajetória do 3º Governo Lula não pode ser explicada sem considerar suas decisões e vontade políticas. As suas políticas sociais e externa, que de fato o diferenciam dos governos de FHC, Michel Temer e Jair Bolsonaro, não o absolvem de suas escolhas políticas, aceitando a famosa "correlação de forças" que insulou no Parlamento a disputa política contra o neofascismo-neoliberalismo.
Dito tudo isso, é óbvio que o momento, mais uma vez, é de se buscar a unidade e a organização das classes trabalhadoras e da esquerda contra o neoliberalismo-neofascismo. Eleger Lula tornou-se, mais do que nunca, fundamental. Mas está cada vez mais claro que a prioridade do combate à extrema direita não pode se descolar do combate ao neoliberalismo, pois estão ambos cada vez mais unidos contra a democracia e na destruição dos direitos sociais-trabalhistas e na subordinação ao imperialismo.
A natureza autoritária do neoliberalismo, já anunciada em 1944 por Friedrich Hayek em seu livro O caminho da servidão (ao defender a prioridade da "liberdade" do capital em relação à democracia) e no seu apoio na década de 1970 ao regime fascista e à ditadura de Augusto Pinochet no Chile, escancarou-se de vez na nova fase do capitalismo e do imperialismo: um regime de acumulação mundial sob a dominância financeira. A democracia tornou-se, definitivamente, um estorvo para o capitalismo financeirizado.
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