23 Abril 2026
"Francisco não era um profeta da desgraça, era um médico que sabia ler os sintomas. A 'terceira guerra mundial aos pedaços’ não era uma metáfora poética. Era um diagnóstico, e os diagnósticos, quando ignorados, tornam-se prognósticos", conta Yoannis Lahzi Gaid, ex-secretário particular de Jorge Mario Bergoglio, presidente da Fundação Bambino Gesù no Cairo.
A entrevista é de Giacomo Galeazzi, publicada por La Stampa, 21-04-2026.
Eis a entrevista.
A guerra é a verdadeira globalização da indiferença?
É um sistema em que o sofrimento alheio já não penetra a consciência de quem detém o poder. Tudo é compartilhado, exceto a dor. Tudo é transmitido, exceto a responsabilidade. A criança que morreu afogada nas margens do Mediterrâneo torna-se uma imagem que passa entre um anúncio publicitário e outro. Ninguém se demora o suficiente para se sentir questionado. Francisco voltou de Lesbos em 2016 com doze refugiados no avião.
Não era um gesto simbólico, mas um desafio concreto ao cinismo daqueles que tratam as crises humanitárias como variáveis em cálculos eleitorais. Ele me disse naquele dia: ‘Se não trouxermos alguém conosco, as palavras continuarão sendo apenas palavras’. Ele não se contentava em simplesmente nomear o problema. Ele o tocava. Não tinha medo das críticas, de arregaçar as mangas. Sua marca até o fim.
Qual é a paz de acordo com os papas?
Desarmada porque não tem exércitos, recursos financeiros ou votos para conquistar. Desarmante porque toca em algo que as armas não conseguem defender: a consciência. Nenhuma fronteira é eterna, nenhum interesse nacional jamais justifica a desumanização do outro. A Igreja não aponta para um caminho cômodo. Aponta para o caminho certo. E os caminhos certos são muitas vezes os menos percorridos.
A geopolítica da misericórdia se mede por quem é visitado, quem é abraçado e quais periferias do mundo são escolhidas como destinos. Francisco foi a Bangui, na República Centro-Africana, quando nenhum líder mundial teria posto pé lá. Foi a Lesbos, Mianmar e Iraque. Não para fazer diplomacia, mas para dar testemunho de presença. A presença, especialmente em determinados lugares, vale mais do que qualquer declaração.
Geopolítica dos últimos?
A misericórdia redesenha o mapa do mundo não segundo o peso econômico ou militar dos países, mas segundo a urgência humana de seus habitantes. É uma visão radicalmente alternativa à dos grandes gabinetes do poder. É por isso que é tão necessária quanto incômoda. Leão está fazendo o mesmo. As sementes não frutificam no período de um pontificado.
O Documento sobre a Fraternidade Humana, assinado em Abu Dhabi em 2019, entrou para os currículos escolares de dezenas de países. A Laudato Si' mudou o léxico do debate ambiental global. O que falta não é a semente, mas o solo, e o que o prepara é a cultura, o tempo, a educação e a consciência coletiva. Francisco sabia disso e investia nos jovens, nas periferias, nos marginalizados. Não porque fossem os mais poderosos, mas porque são o futuro do solo.
A despedida final de Bergoglio?
Ele estava cansado. Mas aquele cansaço tinha uma qualidade particular, não era resignação, era exaustão. Como uma vela que espalhou toda a sua luz até o fim. O último encontro foi pouco antes de sua morte. Ele ainda sussurrava com aquela lucidez que sempre o distinguiu, com poucas palavras, mas cheias de luz. Como se já tivesse entregado algumas batalhas a Deus.
Ele pegou minha mão e disse algo que não vou repetir na íntegra, porque pertence àquele momento. Mas o sentido era este: não importam os resultados visíveis, siga em frente.
O que conta é a semente. A semente não vê o fruto. É uma daquelas frases que crescem por dentro com o tempo. Eu as ouvi na época. Agora as entendo. Graças a essas suas palavras-testamento, contínuo, por meio da Fundação Bambino Gesù no Cairo, que ele fundou, a transformar o conceito de fraternidade em ações concretas de ajuda, diálogo, apoio e humanidade. Disso nasce tudo.
Leão é como Francisco?
O primeiro traço comum é o contato físico com a realidade. Francisco não suportava a distância asséptica do poder. Leão tem o mesmo instinto, ou seja, ir, tocar, escutar antes de falar. Não é um detalhe de estilo, mas uma escolha teológica. A encarnação não é pregada do alto, mas vivida de dentro. A segunda característica, como vemos agora, é a rejeição da linguagem do poder.
Como se manifesta?
Ambos falam de uma maneira que até mesmo aqueles que não estudaram teologia entendem do que se trata. Simplicidade da linguagem não é ausência de profundidade. É escolher onde pôr profundidade. Não no léxico, mas no conteúdo. Um fator adicional, talvez o mais sutil, é a capacidade de estar no conflito sem ser consumido por ele. Francisco chamava isso de ‘suportar à tensão’. Não resolver tudo, não ter resposta para tudo. Mas também não fugir. Leão tem essa mesma raiz. A paz não como ausência de tensão, mas como capacidade de habitá-la.
Francisco era amado pelas multidões porque dizia o que as pessoas sentiam ser verdade, mas não sabiam como formular. Era pouco ouvido pelos poderosos porque dizia exatamente o que os poderosos não queriam ouvir. Mas ser pouco ouvido não significa ser inútil. A história e os acontecimentos têm tempos diferentes.
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