Ele nos disse: sem os pobres não há salvação. Artigo de Vincenzo Paglia

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23 Abril 2026

"Todos os cristãos são chamados a se preocupar com a construção de um mundo melhor. Uma nova cultura de solidariedade é necessária. É verdade que o Papa Francisco não tinha uma visão 'política' para propor, e talvez nem quisesse ter uma, mas estava convencido de que o mundo, assim como era, precisava ser mudado", escreve Vincenzo Paglia, em artigo publicado por l'Unità, 21-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O Papa Francisco foi um profeta deste início de milênio. E, como todo profeta, também pode ter trazido confusão. Estava ciente disso. Mas não havia outro caminho. Sua profecia está no próprio nome que escolheu: Francisco, ou seja, a testemunha de uma fraternidade universal, tanto com os homens, a começar pelos mais pobres, quanto com toda a criação, num mundo que fez do individualismo (alguns o chamam de hiperindividualismo) sua marca registrada (um vírus desagregador pior que o Covid).

Nenhum Papa, em oitocentos anos, jamais ousara se chamar Francisco. A sua foi uma profecia: teológica, pastoral e política no melhor e mais elevado sentido da palavra. Ela está resumida em duas grandes encíclicas: "Laudato Si'" e "Fratelli Tutti", documentos que, acredito, permanecerão mais do que os outros na história da Igreja e da humanidade. A visão que propõe — única no cenário internacional — é a única que pode salvar o mundo das guerras e dos conflitos explosivos. Sim, é a visão de que precisamos: uma só Casa (o planeta), uma só Família humana (a de todos os povos).

O Papa Francisco estava preparando a terceira parte de uma visão única: uma só Mesa (da qual ninguém seria excluído). E o Papa Leão, com sua primeira Exortação Apostólica, Dilexi te, a retomou. Escreve: “em continuidade com a Encíclica Dilexit nos, o Papa Francisco, nos últimos meses da sua vida, estava a preparar uma Exortação Apostólica sobre o cuidado da Igreja pelos pobres e com os pobres, intitulada Dilexi te, imaginando Cristo a dirigir-se a cada um deles dizendo: Tens pouca força, pouco poder, mas ‘Eu te amei’ (Ap 3, 9)”.

E o Papa Leão continua: “Ao receber como herança esse projeto, sinto-me feliz ao assumi-lo como meu – acrescentando algumas reflexões – e ao apresentá-lo no início do meu pontificado, partilhando o desejo do meu amado Predecessor de que todos os cristãos possam perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento a tornarmo-nos próximos dos pobres” (DT,3).

E acrescenta: “Na verdade, também eu considero necessário insistir nesse caminho de santificação, porque no ‘apelo a reconhecê-Lo nos pobres e atribulados, revela-se o próprio coração de Cristo, os seus sentimentos e as suas opções mais profundas, com os quais se procura configurar todo o santo’” (Ibid.).

Esse tríptico, a meu ver, resume a profecia do Papa Francisco. Na realidade, já havia sido delineada no Concílio Vaticano II. O Papa Francisco, acolhendo o magistério de  seus predecessores, a levou a cumprimento. Resumindo? “Sem os pobres, não há salvação”.

A escolha prioritária pelos pobres não pode ser relegada a uma simples exortação moral. O Papa Francisco — e o Papa Leão está seguindo seus passos — colocam nela uma força política de mudança.

Em diversas oportunidade o Papa Francisco advertia aqueles que se incomodavam quando se falava de ética, solidariedade mundial, distribuição de bens, defesa dos empregos, dignidade dos fracos e um Deus que “exige um compromisso com a justiça”, como escreveu em sua encíclica programática, “Evangelii Gaudium”. Ele era enfático ao reiterar que essa é a missão da Igreja, que escuta o clamor dos pobres. Se não o fizesse, “correria o risco da dissolução”.

Daí a esperança de uma nova consciência social compartilhada — fresca e vital, não doutrinária — tanto da justiça quanto da solidariedade: o homem religioso íntegro é chamado de justo porque é um "agente de justiça". Ele insistia: a justiça — que emana das Sagradas Escrituras — deve tornar-se cultura e também promover escolhas políticas.

João Paulo II também afirmava isso: uma fé que não se torna cultura não é uma fé verdadeira. E o Papa Francisco enfatizava sua urgência para promover uma "política" coerente: a fé vivida gera uma cultura que, mesmo com suas limitações históricas, é, no entanto, criadora de um senso compartilhado de justiça.

Aí está a grande diferença em relação às culturas idólatras, centradas no culto ao eu e do próprio interesse, por meio do liberalismo desenfreado, do consumismo, do hedonismo e de vários tipos de relativismo.

A cultura da justiça que estabelece uma relação privilegiada com os pobres coloca o homem, a pessoa humana, e sua dignidade no centro de suas atenções. Se fôssemos nos perguntar quando começa a justiça, poderíamos responder que o ponto de partida é a pergunta de Deus a Caim: "Onde está teu irmão?".

Da atenção pelo fraco, com Abel (que significa sopro, fraqueza), surge a pergunta sobre o homem. O senso de justiça — e essa é a descrição da ação de Deus ao longo do texto bíblico — nos impele a libertar os pobres de sua condição de exclusão e marginalização. A fé cristã leva o crente a sair de si mesmo e transformar a história. Uma fé autêntica — como o Papa Francisco frequentemente enfatizava — nunca é cômoda e individualista; sempre envolve um profundo desejo de mudar o mundo, de deixá-lo melhor do que o encontramos. Ele nos exortava a amar nosso planeta, onde Deus nos colocou, a amar a humanidade que o habita, com todas as suas tragédias e dificuldades, com seus anseios e esperanças, com seus valores e fragilidades, e a não excluir ninguém da liberdade e da dignidade humanas.

Todos os cristãos são chamados a se preocupar com a construção de um mundo melhor. Uma nova cultura de solidariedade é necessária. É verdade que o Papa Francisco não tinha uma visão "política" para propor, e talvez nem quisesse ter uma, mas estava convencido de que o mundo, assim como era, precisava ser mudado. E sabia bem que as verdadeiras revoluções e as mudanças profundas vêm por obra de homens espirituais, que sabem entrar nas profundezas da história e ligar o Evangelho aos "sinais dos tempos" para iniciar um movimento de mudança.

Vejo aqui a conexão entre Francisco e Leão XIV. Na escolha dos cardeais foi decisiva a dimensão missionária de Prevost: um sacerdote, um religioso agostiniano, um bispo, um cardeal familiarizado com as situações globais de riqueza e pobreza. Que tem na paz sua estrela guia. Vemos isso transparecer nas acusações de Trump, quando o apelo por Paz e Justiça se torna incômodo. Mas essa é a Igreja dos Apóstolos. Não por acaso o encontro dos cardeais em fevereiro e o próximo, em junho, estão focando na discussão e no debate no documento de Francisco, "Evangelii Gaudium", que completa o tríptico das duas encíclicas que mencionei.

A Igreja é missionária: proclama o Evangelho da Paz, da fraternidade universal em nome de Deus, da Criação que deve ser preservada, protegida e salvaguardada.

As guerras e os conflitos negam tudo isso e negam a visão religiosa da vida.

Por uma dessas coincidências da história e da minha história pessoal, 21 de abril de 2025, dia da morte do Papa Francisco, coincidiu com o meu aniversário de 80 anos. E fui tomado, literalmente, pela emoção pela perda de um amigo, além de Papa reinante naquele momento. Ele era um amigo com quem eu podia conversar, trocar opiniões e confidências, sempre pronto para a escuta, para uma frase espirituosa, para sorrir, capaz de olhar além das dificuldades do momento. De certa forma, o Papa Francisco me fez entrar em sua biografia, e é importante lembrar o título daquele livro biográfico de alguns anos atrás: História dentro da história individual de uma pessoa que atravessou o século XX e o primeiro quarto do século XXI, desde suas origens italianas, passando pela Argentina, pela Igreja na América Latina até o Vaticano.

No plano humano, teológico e sacerdotal, o Papa Francisco possuía o dom da caridade; encarnava a visão do capítulo 13 da Carta aos Coríntios: "Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, esses três; mas o maior desses é o amor!" Ele certamente viveu essa dimensão com a radicalidade de seu caráter. No entanto, estou convencido de que a Revolução que trouxe para a Igreja foi de natureza espiritual. Amor, justamente. O Papa Francisco não destruiu dogmas, tradições ou Magistério, como seus detratores injustamente ainda afirmam, apesar das evidências.

Ele, porém, não se importava com seus detratores; seguia seu caminho: a Revolução Espiritual da escuta, a capacidade de olhar além dos conflitos para apontar caminhos a seguir e de se abrir a processos eclesiais e sociais para nos fazer compreender que a atitude profunda precisa mudar.

Ele disse isso em seu primeiro Angelus, em 17 de março de 2013, dedicado inteiramente ao extraordinário poder da Misericórdia: "Um pouco de misericórdia torna o mundo menos frio e mais justo. Precisamos entender plenamente essa misericórdia de Deus, esse Pai misericordioso que tem tanta paciência."

Uma mensagem espiritual com profundas implicações sociais, políticas e humanas. Ainda me lembro de uma afirmação quando o debate sobre questões relativas à família se tornava incandescente: "Lembrem-se de que o último artigo do Código de Direito Canônico afirma que a primeira e fundamental lei da Igreja é a 'salus animarum', não a 'salus principiorum'." O poder da misericórdia como alavanca para mudar o mundo. Hoje vemos o poder dessa mensagem diante de tantos, demasiados, que sofrem com a fome e diante da prepotência do poder. Uma mensagem que toca todos os âmbitos da vida, das ciências, das tecnologias e da reflexão de uma Igreja que busca se reorganizar — como explica claramente o documento de reforma da Cúria Romana — para estar a serviço da humanidade, para salvaguardar os valores humanos e conter firmemente a desumanização, sempre e especialmente quando esta se manifesta por meio das inovações tecnológicas.

Eis outro sinal poderoso, a participação do Papa Francisco no G7 sobre inteligência artificial, em 14 de junho de 2024. Aqui também vemos a Profecia em ação: a tecnologia pode nos ajudar a construir aquele banquete para todos e de todos, mas somente dentro de uma visão de humanidade comum. E foi uma honra especial para mim ouvir o Papa no G7, quando citava o documento promovido em 2020 pela Pontifícia Academia para a Vida, que eu presidia na época, sobre a ética na inteligência artificial — o "Rome Call for AI Etics" — adotando pessoalmente a abordagem daquele texto.

Neste dia, para mim se misturam memórias pessoais e estímulos para seguir em frente, seguindo agora o Magistério do Papa Leão XIV; sabendo que continua o trabalho de seu antecessor. A Igreja é chamada a servir aquele ser humano comum que o Concílio Vaticano II havia proposto, não apenas para a abertura apaixonada dos crentes, mas também para a atenção de toda a humanidade.

É o único caminho que torna possível a convivência pacífica entre povos diferentes. Vamos segui-lo!

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