"O Papa vai além da categoria de 'guerra justa', Vance está fazendo propaganda eleitoral". Entrevista com Daniele Menozzi, historiador

JD Vance | Foto: Gage Skidmore/Flickr

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22 Abril 2026

O vice de Trump sugeriu ao Pontífice que "tivesse cuidado" ao falar de teologia. Segundo o professor, a formulação do Catecismo torna "praticamente impossível" a aplicação do conceito desenvolvido pela Igreja nos séculos passados para as atuais formas de guerra.

A categoria de guerra justa passou por "uma profunda evolução ao longo do tempo" no magistério dos Papas e está "inadequada para os tempos". Daniele Menozzi, historiador do cristianismo e professor emérito da Scuola Normale Superiore, explica isso. Ele acredita que as críticas do vice-presidente americano, J.D. Vance, a Leão XIV sobre esse tema escondem uma "tentativa propagandística de manipulação do conceito para fins eleitorais".

A entrevista é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por La Reppublica, 17-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

O vice-presidente EUA sugeriu ao Papa agostiniano a "ter cuidado" ao falar de teologia porque a Igreja Católica, em sua opinião, defende o conceito de guerra justa. Ele está certo?

Não há dúvida de que a categoria de 'guerra justa' está presente no atual Catecismo da Igreja Católica, mas é preciso acrescentar imediatamente que ela passou por uma profunda evolução ao longo do tempo. Sua articulação no Catecismo atual é fruto de um processo evolutivo milenar que, segundo alguns teólogos, resultou em uma formulação que torna sua aplicação concreta às formas de guerra contemporâneas praticamente impossível. A maneira como o vice-presidente estadunidense aborda a questão pode sugerir a falta de compreensão dos fundamentos do catolicismo por parte de um recém-convertido, mas, considerando que ele é um político que almeja suceder o atual presidente, temo que devamos, em vez disso, considerar isso uma consciente tentativa propagandística de manipulação do conceito para fins eleitorais.

Como essa doutrina evoluiu ao longo do tempo e qual é o estado atual do Magistério?

A doutrina da guerra justa surge no período pós-conciliar com uma conotação que visa diferenciá-la da guerra santa: jamais se pode recorrer a Deus para fornecer uma justificativa religiosa para o exercício da violência bélica; mas existem circunstâncias em que, para o bem de uma comunidade política, seu governo tem o dever moral de iniciar as hostilidades. O Catecismo, publicado em 1997, prevê, na realidade, apenas uma circunstância: a legítima defesa do Estado, após todas as tentativas de resolução pacífica do conflito terem fracassado. Contudo, o Catecismo estabelece uma série de condições para o início das hostilidades, que são muito difíceis de atender. Em todo caso, entre essas condições está a de que nunca se pode chegar à destruição cidades ou regiões e que, caso fossem dadas ordens contrárias ao direito humanitário, isto é, o assassinato de civis ou a destruição de instituições de saúde, educação, assistenciais, religiosas, etc., é lícito ao soldado crente se recusar a obedecer. Não é coincidência que Leão XIV tenha feito sua intervenção depois que o presidente EUA ameaçou destruir uma civilização e reduzi-la à Idade da Pedra.

Ao longo de quase um ano de pontificado, o que Leão XIV disse sobre esse tema e como contribuiu para esse magistério?

Leão não abordou de maneira específica a guerra justa, mas desde o início de seu pontificado, indiretamente, repropôs sua aplicação (por exemplo, em relação à agressão russa contra a Ucrânia). Especificou, no entanto, que tal continuidade deveria ser acompanhada por um esforço para a educação dos fiéis para a não violência como alternativa às armas para a resolução de conflitos entre os povos. Seu ensinamento, em suma, visa a uma ação pedagógica que, com o tempo, possa permitir superar uma categoria, por ora inevitável, mas que já não é capaz de orientar os fiéis segundo as indicações da mensagem evangélica. Ele também desenvolveu o tradicional apelo aos fiéis para que orem pela paz em contextos bélicos: a oração não é apenas um espaço para acolher o dom da paz no íntimo da consciência enquanto a guerra assola o exterior; trata-se, ao contrário, de uma forma de alimentar o compromisso concreto dos fiéis em se tornarem ‘pacificadores’ no mundo, como pede o Evangelho.

Há continuidade ou ruptura nesse tema entre Francisco e Leão?

Francisco havia defendido uma revisão profunda da doutrina da ‘guerra justa’ precisamente porque ela já não é mais adequada aos tempos atuais, e havia solicitado a elaboração de técnicas não violentas para realizar também aquela legítima defesa, que representava a única tipologia capaz de fornecer justificativa moral (não religiosa!) para uma guerra. Leão se move dentro dessa perspectiva fundamental, identificando algumas ferramentas operacionais com que realizá-la: como o amplo compromisso das estruturas eclesiais com a pedagogia da não violência e a ressignificação do papel da oração pela paz diante das guerras. Francisco havia confiado ao seu sucessor uma encíclica sobre a não violência evangélica. Leão provavelmente não a publicará, mas está preparando as condições para que possa ser lançada.

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