Vance, o convertido, banca o teólogo com Prevost e celebra a guerra "que libertou os campos de concentração"

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18 Abril 2026

Se o partido perder nos distritos predominantemente católicos, Vance se tornará aquele que "quebrou a coalizão", e as primárias de 2028 se tornarão uma disputa aberta.

O artigo Matteo Persivale, jornalista, publicado por Corriere della Sera, 16-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo.

Há um fantasma assombrando a Rotatória do Observatório Número Um, a residência do Vice-Presidente dos Estados Unidos: o fantasma de Mike Pence. Ele deveria estar lá hoje, naquela residência oitocentista imersa em um parque verdejante: era vice-presidente de Trump durante seu primeiro mandato, mas cometeu o erro — clamoroso, em retrospectiva — de tentar, às vezes, se distanciar de Donald Trump. Pence, um homem profundamente religioso, havia sido escolhido por ser um garante para o eleitorado evangélico: conferiu credibilidade ao candidato laico, incorporador imobiliário, estrela de reality show e organizador de concursos de beleza, com três esposas, a última das quais havia posado nua para uma revista. Mesmo que não tivesse se rebelado contra a tentativa de Trump, em 6 de janeiro de 2021 de lançar no caos a certificação legal da votação que havia eleito Joe Biden e Kamala Harris, Pence já havia amplamente se autoeliminado.

O "fator Pence"

O fator Pence deve estar muito presente nos cálculos feitos por J.D. Vance, quando insistiu que o Papa deveria "ser muito, muito cuidadoso ao falar de teologia", porque foi com a guerra que "os campos de concentração do Holocausto foram libertados". A investida trumpiana contra Leão XIV (ontem publicou outra imagem gerada por IA em seu perfil Truth Social, na qual Jesus o abraça com uma grande bandeira estadunidense ao fundo, e a legenda "...talvez Deus esteja jogando seu trunfo", um trocadilho com a expressão "Trump card", carta vencedora) custou ao Partido Republicano numerosos consensos entre os católicos, que tradicionalmente votavam nos democratas (atingindo o pico com Kennedy: 80% em 1960), mas que se deslocaram para a direita desde Nixon, em 1972 (entre os católicos, Trump superou Harris por 15 pontos percentuais em 2024, graças aos hispânicos que agora o estão abandonando). Ao evitar a "armadilha Pence", Vance envia um sinal não aos católicos, mas ao restante dos eleitores republicanos. Com vistas às primárias de 2028— ele é o favorito, mas às suas costas existe Marco Rubio, secretário de Estado católico que, sobre o Papa, se manteve em silêncio— a "lealdade absoluta" é o ativo mais valioso na carteira de Vance. Ele aposta que sua base o perdoará por ter renegado o Papa, porque jamais o perdoaria caso viesse a renegar Trump.

O valor do dinheiro

Continua o trabalho já realizando para redefinir a própria ideia de catolicismo na direita estadunidense: converteu-se aos 35 anos e traz consigo uma visão diferente, certamente mais próxima do protestantismo — lei e ordem, apoio às guerras se forem "justas" e sucesso econômico como sinal da benevolência divina, tema este último muito forte em sua terra natal, os Apalaches, presbiterianos.

Antes de entrar para a política, Vance trabalhava para Peter Thiel na Mithril Capital e absorveu a cultura do mundo tecnológico-financeiro, no qual o dinheiro não é o esterco do demônio da visão franciscana, mas o capital necessário para remodelar o mundo. Ele corteja os católicos nacionalistas apostando na ideia de que os democratas concorrerão contra ele em 2028 com alguém tão à esquerda — não um centrista como os governadores da Pensilvânia e de Michigan, Shapiro e Whitmer — a ponto de tornar pouco atraente a chapa adversária até mesmo para os católicos ofendidos por suas declarações sobre o Papa.

Ele quer ser visto como o comandante-em-chefe, não apenas como vice-presidente. Se a guerra no Irã for considerada um sucesso entre agora e 2028, sua recusa em "se curvar ao Vaticano" será vista como um ponto de força. Vance, após as dúvidas iniciais, apoia Trump integralmente em relação ao Irã e, assim, constrói sua imagem como um líder belicista, sabendo que Rubio pode se dar ao luxo de permanecer em silêncio por ser Secretário de Estado e ter a desculpa de estar empenhado com a diplomacia entre Israel e Líbano.

A aposta em 2028

É uma aposta: ele aposta que a marca pessoal de Trump é atualmente mais influente entre os eleitores republicanos do que a autoridade moral do Papa. E que assim será também em 2028, quando as primárias serão realizadas. E em novembro deste ano, com as eleições de meio de mandato? Se os republicanos mantiverem o controle da Câmara, Vance será visto como um gênio que identificou corretamente que o "Papa estadunidense" não tinha a influência que todos lhe atribuíam.

Se o partido perder nos distritos predominantemente católicos, Vance se tornará aquele que "quebrou a coalizão", e as primárias de 2028 se tornarão uma disputa aberta.

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