Bergoglio, um Pontífice ajoelhado aos pés da África ferida e explorada

Papa Francisco durante viagem a África Central em 2018 | Foto: Vatican Media

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22 Abril 2026

"Francisco dedicou cinco viagens apostólicas à África, visitando dez países e promovendo a paz, a reconciliação e a justiça social, para 'a busca do bem comum, que deve ser um objetivo primordial', apelando à solidariedade e também à 'proteção da criação', 'num mundo que continua a explorar em vez de proteger a nossa casa comum', para que 'os governantes promovam modelos responsáveis ​​de desenvolvimento econômico'", escreve Stefania Falasca, jornalista, em artigo publicado por Avvenire, 21-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

“Nesta terra de sofrimento estão também todos os países que estão passando pela cruz da guerra”. Era 29 de novembro de 2015 quando o Papa Francisco, em uma zona de guerra civil no centro da África, em um dos países mais cobertos de sangue e divididos do mundo, devastado por décadas de massacres, dava início ao Jubileu da Misericórdia: “Por Bangui, por toda a República Centro-Africana, por todo o mundo, pelos países que sofrem com a guerra, pedimos paz!”, disse o Pontífice diante da Catedral, após descer, com o imã ao seu lado, de um papamóvel desprovido de qualquer proteção. Com esse corajoso gesto histórico, tão carregado de simbolismo, o Papa Francisco realizou sua primeira viagem à África. Uma viagem pela rota subsaariana que o levou a um continente assolado pela exploração, violências e conflitos, em um contexto internacional de altíssima tensão, minado pelo terrorismo, para fazer uma etapa, com um claro pedido para depor as armas e "trabalhar pela paz", primeiro no Quênia, depois em Uganda e, finalmente, na África Central, onde desejava antecipadamente abrir a Porta Santa, apesar do alerta de segurança, reiterando também à tripulação do avião que o levava ao Quênia: "Quero ir à África Central. Se não puderem, me deem um paraquedas!" Porque nessas nações, onde as tensões caracterizam todo um continente (pobreza, exploração, economias predatórias, crises ambientais, migração, tensões interétnicas e inter-religiosas, corrupção e guerras), o Papa nos pedia para percebermos que "essa é uma guerra mundial porque está bem ao nosso lado".

Francisco dedicou cinco viagens apostólicas à África, visitando dez países e promovendo a paz, a reconciliação e a justiça social, para "a busca do bem comum, que deve ser um objetivo primordial", apelando à solidariedade e também à "proteção da criação", "num mundo que continua a explorar em vez de proteger a nossa casa comum", para que "os governantes promovam modelos responsáveis ​​de desenvolvimento econômico". De 2015 a 2023, após Quênia, Uganda e República Centro-Africana, Francisco viajou para o Egito em 2017, depois para Marrocos, Moçambique, Madagascar e Ilhas Maurício em 2019, e finalmente para a República Democrática do Congo e Sudão do Sul em 2023. Sua relação com a África só foi se ampliando. Assim, em 2017, ele quis retornar à África, desembarcando no Egito. No Cairo, o gigante com 85% da população de fé muçulmana, mas também com uma antiquíssima comunidade cristã copta, o Papa participou da conferência internacional de paz promovida pela Universidade de Al-Azhar, onde proferiu um discurso sem precedentes sobre a paz na mais antiga universidade islâmica e a mais alta instituição acadêmica do Islã sunita.

O Papa havia sido convidado muito antes pelo Papa Copta Tawadros II, pelo Presidente al-Sisi, pelos bispos católicos e pelo Grande Imã de Al-Azhar, Muhammad Ahmad al-Tayyib. "Paz" foi a palavra central daquela décima oitava viagem, e os três temas básicos — pastoral, ecumênico e inter-religioso — também caracterizaram a terceira visita do Papa ao continente. No Marrocos, em março de 2019, o foco foi o diálogo inter-religioso com o mundo islâmico, para que as religiões pudessem ser veículos para a promoção da paz, da justiça e da proteção da criação, bem como para a defesa da dignidade humana.

Em setembro de 2019, foi a vez de Moçambique, Madagascar e Ilhas Maurício, três países do Oceano Índico, dois dos quais insulares, todos particularmente atingidos pelos efeitos das mudanças climáticas. Mas foi o Sudão do Sul, destino, juntamente com a República Democrática do Congo, de sua última viagem à África em fevereiro de 2023, que recebeu ainda mais atenção do Papa. Oito anos após sua primeira viagem ao continente, Francisco retornou à África subsaariana para visitar dois países devastados por longas guerras civis e pela exploração das multinacionais. No Congo, dilacerado por conflitos e pobreza, desfigurado pelos neocolonialismos e pela brutalidade das economias predatórias, ele denunciou veementemente a exploração dos recursos naturais por potências estrangeiras, afirmando: "Tirem as mãos da República Democrática do Congo, tirem as mãos da África! Parem de sufocar a África: não é uma mina para ser explorada, uma terra para ser saqueada".

Dirigindo-se não apenas a líderes políticos e às multinacionais, mas também à consciência coletiva da comunidade internacional, Francisco denunciou o "colonialismo econômico", diante do qual o mundo fecha os olhos. "Se a justiça não for respeitada, o que são os Estados senão grandes quadrilhas de ladrões?", acrescentou Francisco, citando Santo Agostinho. A viagem ao Congo de Kinshasa e ao Sudão do Sul revisitou algumas das trajetórias mais profundas de seu pontificado: a crise migratória, em todas as suas facetas, a questão da guerra e, portanto, a da paz. No Sudão do Sul, o país africano mais jovem afetado pela guerra civil, Francisco, juntamente com o Arcebispo da Canterbury, Justin Welby, e o Moderador da Igreja Presbiteriana da Escócia, Iain Greenshields, fez uma visita de relevância histórica por seu forte impacto ecumênico. Um testemunho de ecumenismo real, um apelo à reconciliação e à unidade dirigido a uma nação profundamente dividida: "Venho como peregrino da reconciliação, com o sonho de acompanhar vocês em sua jornada de paz, uma jornada tortuosa, mas que não pode mais ser adiada", disse o Papa Francisco em seu discurso no jardim lotado do Palácio Presidencial. "Não vim aqui sozinho, porque na paz, como na vida, caminhamos juntos. Por isso, estou aqui com dois irmãos, o Arcebispo de Canterbury e o Moderador da Assembleia Geral da Igreja da Escócia ... e juntos, estendendo a mão, apresentamo-nos a vocês e a este povo em nome de Jesus Cristo, Príncipe da Paz." A visita havia sido precedida, em 2019, por um retiro espiritual no Vaticano para os líderes do Sudão do Sul, durante o qual Francisco fez um dos gestos mais marcantes do seu pontificado: ajoelhou-se diante do presidente e dos seus opositores, beijando-lhes os pés. Um gesto desarmante, repleto de humildade e súplica, com o qual o Papa implorava pela paz: "Peço a vocês de coração, fiquem em paz. Peço a vocês de joelhos." Na conferência de imprensa a três, no voo de regresso da sua viagem apostólica ao Sudão do Sul, exortou a humanidade a parar a tempo de evitar consequências irreversíveis: "A venda de armas é a maior peste. O mundo está em guerra, vamos parar."

Hoje, durante sua primeira viagem apostólica à África, Leão XIV homenageará seu antecessor Francisco, um ano após sua morte. Um dia antes de falecer, em sua última mensagem de Páscoa Urbi et Orbi, Bergoglio lembrou "as populações africanas vítimas da violências e conflitos, especialmente na República Democrática do Congo, no Sudão e no Sudão do Sul, e aquelas que sofrem com as tensões no Sahel, no Chifre da África e na região dos Grandes Lagos". Suas palavras, proferidas com firmeza e amor, atravessaram desertos, escombros, favelas, hospitais e campos de refugiados e ainda ressoam como um chamado irreversível à consciência do mundo.

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