"Sem rupturas, mas defendamos os direitos. A Terra Santa pertence a todos. E devemos aprender a conviver em paz". Entrevista com Fernando Filoni

Foto: Diego Delso | Wikimedia Commons

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02 Abril 2026

"Veja bem, uma ruptura não fazia sentido, de nenhum dos lados. A diplomacia nunca queima pontes. Reivindica-se um direito, mas sempre se deixa um caminho aberto. Esse deve ser o princípio." O Cardeal Fernando Filoni, 79 anos, está entre os grandes diplomatas da Santa Sé, ex-Substituto na Secretaria de Estado e prefeito da Propaganda Fide: durante a segunda Guerra do Golfo, foi o único embaixador ocidental a permanecer em Bagdá sob os bombardeios estadunidenses; sua cruz peitoral foi doada a ele por um muçulmano iraquiano por não ter abandonado o país. Hoje, ele é Grão-Mestre da Ordem do Santo Sepulcro de Jerusalém. "O fato de as autoridades israelenses terem garantido aos representantes das Igrejas o direito de celebrar no Santo Sepulcro é certamente um ponto de virada positivo, um primeiro passo importante. Como disse o Cardeal Pizzaballa, trata-se de encontrar soluções concretas..."

A entrevista é de Gian Guido Vecchi, publicada por Corriere della Sera, 31-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis a entrevista. 

Eminência, o que o senhor pensou ao saber que o Santo Sepulcro estava fechado no Domingo de Ramos?

Eu disse a mim mesmo: pronto, chegamos ao ponto em que não se conhecem mais os limites. A segurança tem sua própria lógica e é importante, claro. Mas também existem os sentimentos dos fiéis, existe a liberdade religiosa que deve ser garantida. Esse aspecto não pode ser ignorado.

A nota do Patriarcado, seguida pelas garantias israelenses e Pizzaballa falando de "mal-entendidos". O Cardeal Parolin também expressou "pesar" ao embaixador israelense pelo "episódio desagradável" e "tomou ciência" do acordo.

O gesto do Patriarca foi um ato de grande diplomacia. Ele é uma pessoa de grande prudência, que defende os princípios, mas sabe que é preciso ir além. O gesto do Secretário de Estado também se enquadra na esfera diplomática: o que importa, como dá a entender, é que os acordos alcançados não sejam arbitrários, mas sempre consensuais, sempre em conformidade com os direitos fundamentais.

Mas como se pode fazer?

A segurança não pode ser o único critério. Afinal, deve ser avaliada por quem vive no lugar e sabe o que pode e o que não pode ser feito. A Santa Sé acompanha tudo atentamente e avalia as medidas apropriadas, sempre que necessário.

E qual poderia ser uma solução concreta?

Para começar, que não seja impedido o acesso aos locais de culto. Garantir a segurança, mas permitir pelo menos uma abertura moderada. Os lugares sagrados não podem permanecer fechados. É também uma questão de bom senso, e acredito que as autoridades israelenses percebem isso: cada um deve poder expressar sua fé, judeus, cristãos, muçulmanos. A Terra Santa vive disso, não é um museu arqueológico.

Agora, pelo menos, se abre para os representantes das igrejas no Santo Sepulcro...

Mas não se trata apenas dos patriarcas ou dos religiosos; há também os fiéis leigos que vivem lá. Uma solução razoável pode ser encontrada. Houve um incidente, vamos colocar a questão assim, mas os princípios fundamentais não devem ser desrespeitados. Espero que essa virada seja útil no futuro. Afinal, não é como se as casas fossem mais seguras do que os locais de culto. Não estou falando de grandes aglomerações, mas de um mínimo: não vamos impedir a presença da comunidade de fiéis em oração. Seria um sinal importante.

Em que sentido?

Jerusalém foi sitiada ou destruída dezenas de vezes, um retorno periódico do sofrimento. Mas a Terra Santa pertence a todos. Empenhar-se pela convivência significa trabalhar pela paz. Como dizia o Papa Francisco, se a Terra Santa não for um lugar de fraternidade, que outro lugar no planeta poderá sê-lo?

Como Grão-Mestre, como procedeu?

Escrevi uma carta a todos os membros da Ordem do Santo Sepulcro, pedindo a cada um para viver a Semana Santa como uma peregrinação espiritual a Jerusalém. Estamos ligados à Terra Santa desde o século XIV; ela é o centro da nossa atividade, mas sabemos que, nestes tempos, não podemos ir para lá como peregrinos. No entanto, podemos continuar a rezar, a trabalhar em prol das populações e a apoiar todas as iniciativas por uma convivência pacífica.

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