O México confirmou oficialmente que há 130 mil pessoas desaparecidas no país

Foto: Julio Lopez/Unsplash

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31 Março 2026

Os casos foram atribuídos à “guerra suja”, ligada aos desaparecimentos forçados promovidos pelo Estado entre as décadas de 1950 e 1990, e à onda que começou em 2006 com a guerra contra as drogas.

A reportagem é publicada por Página/12, 28-03-2026.

O governo mexicano confirmou na sexta-feira que mais de 130 mil pessoas estão desaparecidas no país, apresentando um relatório atualizado do Registro Nacional de Pessoas Desaparecidas e Não Localizadas, juntamente com o progresso realizado na revisão e depuração do sistema. Na coletiva de imprensa regular da presidente Claudia Sheinbaum, o crime foi atribuído a dois períodos: os desaparecimentos forçados patrocinados pelo Estado entre 1950 e 1990 e a guerra contra as drogas em 2006.

“De 2006 até o presente, existem 130.178 registros de pessoas que permanecem desaparecidas”, afirmou Marcela Figueroa, chefe da Secretaria Executiva do Sistema Nacional de Segurança Pública, durante a coletiva de imprensa presidencial. A autoridade detalhou que, de 1952 a 2026, 394.645 pessoas foram registradas como desaparecidas, das quais 262.111 foram localizadas — 66% — e, destas, 92% foram encontradas com vida.

Figueroa explicou que os registros desde 2006 totalizam 130.178 casos, divididos em três grupos de acordo com as informações disponíveis. O primeiro grupo, disse ela, “corresponde a 46.742 casos, 36% do total, para os quais os dados estão incompletos”, dificultando a busca. O segundo grupo compreende 40.308 casos (31%) com dados suficientes e “atividades posteriores à data do desaparecimento”, incluindo casamentos, processos civis e registros no Instituto Nacional Eleitoral (INE).

O terceiro grupo inclui “43.128 casos, 33% do total”, com dados completos, mas sem atividade recente identificada. Neste último grupo, apenas 3.869 têm investigação em andamento, enquanto mais de 26.000 são simplesmente denúncias sem apuração formal. Além disso, Figueroa detalhou que, de outubro de 2024 a março de 2026, 31.946 pessoas dadas como desaparecidas foram localizadas.

"Guerra suja" e "guerra contra as drogas"

O Subsecretário de Direitos Humanos, População e Migração, Arturo Medina, enfatizou que esse crime tem duas fases históricas: a “guerra suja”, ligada aos desaparecimentos forçados patrocinados pelo Estado entre 1950 e 1990, e a onda que começou em 2006 com a “guerra irresponsável contra as drogas”. O funcionário destacou que, em 2025, após descobertas no Rancho Izaguirre, usado pelo Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) como centro de treinamento forçado, foram emitidas ordens para fortalecer as capacidades de busca e reformar as leis em coordenação com grupos de direitos humanos.

Em julho daquele ano, foram publicadas reformas que estabeleceram um sistema nacional de alerta de busca, obrigando a abertura de inquéritos desde o primeiro registro e criando ferramentas como uma plataforma única de identidade e o fortalecimento do Banco Nacional de Dados Forenses. Nesse ínterim, a Secretária do Interior, Rosa Icela Rodríguez, explicou que, ao receber uma denúncia, “um alerta é gerado com todos os dados da pessoa, sendo distribuído de forma massiva e instantânea” para mais de 500 instituições.

Rodríguez enfatizou que “é obrigatório que os boletins de ocorrência de pessoas desaparecidas incluam a abertura de um inquérito” e detalhou a criação de unidades especializadas, o banco de dados nacional de processos e a plataforma unificada de identidade. O governo federal indicou que as novas reformas legais exigem a coleta de informações mínimas de identificação desde o primeiro registro, bem como a abertura imediata de inquéritos, com o objetivo de proporcionar maior segurança às famílias.

“Eles tentaram minimizar a magnitude do desaparecimento”

Organizações que apoiam famílias em busca de seus entes queridos desaparecidos declararam nesta sexta-feira que o governo minimiza a crise dos desaparecimentos, reduzindo-a a meros arquivos e tornando as vítimas invisíveis. Em comunicado, as organizações, lideradas pela Fundar, lembraram que, desde o início da crise de violência no México em 2007, “diversos esforços institucionais têm tentado minimizar a magnitude dos desaparecimentos no México”.

As organizações questionaram o conteúdo da conferência de imprensa matinal de Claudia Sheinbaum, afirmando que "reduzir a crise à gestão de processos ministeriais não é apenas um erro metodológico, mas uma decisão política que torna as vítimas invisíveis". Na sequência, as organizações expressaram a sua preocupação com o fato de a narrativa oficial sustentar que, a partir de agora, as procuradorias serão "obrigadas" a abrir inquéritos sobre desaparecimentos, algo que já existe desde a entrada em vigor da Lei Geral em 2017.

“Condicionar o registro de uma pessoa desaparecida à existência de um processo aberto recompensa a ineficiência institucional”, afirmaram as organizações, acrescentando que o que existe são práticas abusivas, corrupção e omissões sistemáticas por parte das procuradorias “que ativamente evitam receber denúncias ou classificam os desaparecimentos como outros crimes para evitar investigações”. Expressaram também preocupação com a narrativa oficial que afirma que “desaparecimentos forçados não existem mais no México, reduzindo o fenômeno às ações exclusivas do crime organizado e, assim, apagando o possível envolvimento de agentes do Estado”.

Em suas redes sociais, a Anistia Internacional instou o governo mexicano a continuar seus esforços para erradicar a crise de desaparecimentos no país, observando que "a revisão abrangente do cadastro de pessoas desaparecidas, utilizando metodologias científicas e análise de dados, é particularmente notável". "Estamos relatando o que encontramos, com total transparência", afirmou Sheinbaum esta semana, enfatizando o trabalho colaborativo com grupos que representam as famílias dos desaparecidos.

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