Escândalo do Pokémon GO: da captura de criaturas ao mapeamento do mundo para robôs de entrega

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28 Março 2026

Enquanto jogavam, os usuários coletavam dados sem saber que seriam usados pela empresa desenvolvedora para criar um mapa digital e treinar uma inteligência artificial. Quais direitos são atacados?

A reportagem é de Luciana Mazzini Puga, publicada por Tiempo Argentino, 26-03-2026. A tradução é do Cepat.

Há quase dez anos, a empresa estadunidense Niantic lançou o Pokémon GO, que incentivou milhões de jogadores a procurar pokémons nas ruas, parques e cantos escondidos das cidades. O que os usuários não sabiam era que, ao escanear fotos dos locais para aprimorar sua experiência do jogo, estavam enviando imagens para criar um mapa digital que seria posteriormente usado por robôs que operam como veículos de entrega de comida. Até o momento, a empresa coletou mais de 30 bilhões de imagens e criou um Sistema de Posicionamento Visual (VPS), que determina a localização de um dispositivo com muito mais precisão do que o GPS tradicional e permitirá que esses robôs naveguem pelas ruas.

Em entrevista à Agência de Notícias Científicas UNQ, Tomás Pomar, membro do Observatório de Direito da Informática da Argentina (O.D.I.A.), explica: “O problema aqui é bastante simples. Muitos usuários acreditavam estar usando a câmera para ‘melhorar o jogo’, quando na realidade estavam contribuindo para a construção de um mapa digital do mundo com usos muito mais amplos, inclusive industriais. Isso apresenta uma clara desconexão entre o que o usuário pensa que está fazendo dentro do aplicativo e o que realmente acontece com seus dados”.

O Pokémon GO foi lançado pela Niantic em 2016 e tornou-se um fenômeno mundial. Como parte das missões, os usuários podem escanear locais e objetos. Em 2024, a empresa anunciou em um comunicado – de difícil acesso – que usaria as imagens já recebidas e as que ainda seriam recebidas para criar um Sistema de Posicionamento Visual, que funciona como um mapa, representa lugares do mundo real e permite que um dispositivo seja localizado no mundo real. Diferentemente do GPS, ele não usa coordenadas de satélite, mas fotografias que permitem reconhecer visualmente lugares (como edifícios e monumentos) e se localizar comparando o que vê com um banco de dados. Portanto, quanto mais jogadores participavam num mesmo local, mais preciso o modelo se tornava.

Dessa forma, os jogadores criaram, sem saber, um dos maiores conjuntos de dados do planeta. Essa é a explicação da empresa: “Grandes modelos geoespaciais ajudam os computadores a perceber, compreender e navegar no mundo físico. Esses modelos são construídos usando enormes quantidades de dados brutos: bilhões de imagens do mundo, todas ancoradas em locais precisos no globo, são condensadas em um grande modelo que permite a compreensão do espaço, das estruturas e das interações físicas com base na localização”.

Recentemente, a Niantic anunciou sua parceria com a Coco Robotics (empresa apoiada por Sam Altman, proprietário da OpenAI), que opera robôs de entrega de comida em cidades como Los Angeles, Chicago e Helsinque. Esses robôs serão localizados geograficamente com mais eficiência graças ao mapa digital criado pelos usuários.

Pomar explica: “Muitas empresas redigem esses documentos de forma ambígua o suficiente para abranger muitos usos possíveis. Isso leva a situações pouco claras para os usuários. Portanto, mesmo que haja consentimento formal, na prática, ele é questionável”. E continua: “Como consequência, o princípio da limitação da finalidade é afetado. Se os termos e condições forem vagos, o usuário perde a possibilidade real de entender para que seus dados serão usados. Então, quando esses dados acabam sendo usados para treinar sistemas de IA ou de navegação, não estamos mais lidando com um uso previsível, mas com um uso para fins diferentes daqueles que o usuário compreendeu e que estão além do seu controle”.

As ações da empresa também afetam o direito à autodeterminação informativa: cada pessoa deve saber quais dados fornece, para qual finalidade e com qual alcance. No entanto, Pomar esclarece à Agência: “As empresas não violam essas regras abertamente; pelo contrário, elas elaboram seus termos e condições para operar com considerável liberdade. É por isso que esses textos bastante ‘volumosos’ aparecem, repletos de frases como ‘aprimoramento de serviços’ ou ‘desenvolvimento de novas tecnologias’, que soam razoáveis, mas na realidade permitem que abranjam quase qualquer uso futuro”.

Então, por que não há uma revolta generalizada sobre o uso de dados de usuários dessa forma? O especialista pergunta novamente: “A reação seria a mesma se um aplicativo como esse fosse de origem chinesa ou russa? Provavelmente não. Se for esse o caso, então a apatia não é totalmente neutra. É, em parte, uma forma de tolerância seletiva. Estamos mais preocupados com certos atores do que com outros, mesmo que as práticas sejam semelhantes. E isso também ajuda a explicar por que alguns casos geram indignação, enquanto outros passam praticamente despercebidos”.

Além disso, sugere que há um processo de habituação. Ou seja, a sociedade se adaptou gradualmente à coleta e ao uso de dados sem entender completamente o porquê. “As pessoas sentem que estão jogando, não produzindo dados valiosos para sistemas de inteligência artificial. Essa lacuna entre a percepção e a realidade faz com que o problema passe despercebido”, afirma.

Para John Hanke, CEO da Niantic Spatial (a divisão da Niantic responsável pelo mapa), fazer um personagem se mover pelo mundo digital é semelhante a guiar um robô pelo mundo real. “Acontece que fazer o Pikachu correr de forma realista e o robô da Coco se mover pelo mundo com segurança e precisão é, na verdade, o mesmo problema”, diz.

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