28 Março 2026
"A obra em questão não apenas apresenta um panorama das figuras juvenis na Bíblia, mas também propõe uma leitura crítica e esperançosa da juventude, reconhecendo nela tanto suas sombras quanto seu potencial de renovação histórica e espiritual", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos), Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Eis o artigo.
Na obra, intitulada Corações inquietos: os jovens na Bíblia (Paulus, 2025, 152 p.), o leitor é introduzido a uma ampla galeria de personagens juvenis provenientes tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Trata-se de figuras já consolidadas no imaginário religioso: desde Isaac, oferecido em sacrifício por Abraão, até o jovem discípulo João, ao lado de personagens menos evidentes, frequentemente ocultos nas complexas tramas do texto bíblico, mas não menos significativos em termos de densidade simbólica, frescor narrativo e potencial poético.
No núcleo da obra, o cardeal Gianfranco Ravasi, renomado biblista e teólogo, dedica especial atenção à juventude da figura central do cristianismo, Jesus de Nazaré. Ao abordar os chamados “anos ocultos” de sua vida, o autor examina aspectos como o ambiente familiar, a atividade profissional, o domínio da leitura e da escrita, bem como possíveis elementos cronológicos de sua existência. Tal abordagem procura responder, com base em dados históricos e contextuais, a questões frequentemente dirigidas à condição juvenil: identidade, desenvolvimento físico e psicológico, relações familiares, estado civil, profissão e competências linguísticas. Diferentemente de narrativas devocionais ou ficcionais, o autor se atém a evidências disponíveis, oferecendo, assim, um retrato mais sóbrio e, por vezes, surpreendente do jovem Jesus, filho de Maria e portador de um mistério transcendente.
Ravasi observa que o percurso mais natural para explorar essa galeria de mais de cinquenta retratos juvenis seria seguir a sequência proposta pelas próprias Escrituras, iniciando com figuras como Caim e Abel e avançando até os personagens do Novo Testamento. Contudo, sugere-se também uma alternativa metodológica relevante: antecipar a consideração de Jesus, cuja centralidade teológica justifica sua precedência interpretativa.
O autor ressalta, ainda, um dado recorrente e, por vezes, desconcertante: a presença de uma dimensão de fragilidade, vazio ou mesmo tragicidade nas experiências juvenis retratadas na Bíblia. Longe de constituir um compêndio de teses abstratas, a Escritura revela-se como um testemunho inserido na história concreta, marcada por contradições, limites e tensões, mas também por possibilidades de redenção. Nesse contexto, a esperança não emerge de um afastamento alienante da realidade, mas precisamente do solo histórico onde se entrelaçam pecado e graça. Tal dinâmica é evocada à luz da parábola da semente, que, apesar das adversidades do terreno, encontra espaço para germinar e frutificar.
Antes de adentrar plenamente a análise das figuras bíblicas, o autor propõe algumas considerações introdutórias sobre a juventude enquanto etapa do desenvolvimento humano e condição existencial. Nesse âmbito, dialoga com a psicologia da idade evolutiva, disciplina que investiga os processos físicos, cognitivos, afetivos, morais e espirituais que marcam a transição da infância à maturidade. Entre as contribuições relevantes, destaca-se o modelo do psicólogo norte-americano Lawrence Kohlberg (1927-1987), que distingue três estágios do desenvolvimento moral: o nível pré-convencional, baseado na evitação da punição; o nível convencional, orientado pela conformidade social; e o nível pós-convencional, caracterizado pela adesão consciente a princípios éticos universais.
A reflexão bíblica, segundo Ravasi, contribui para desmistificar concepções idealizadas da juventude, frequentemente associadas à ideia de felicidade fácil ou à exaltação da vitalidade imediata. Em contraposição a tais estereótipos, também criticados por autores como o filósofo francês Albert Camus (1930-1960) e o escritos e poeta irlandês Oscar Wilde (1854-1900), a Escritura apresenta a juventude em sua complexidade, incluindo suas crises, ambiguidades e desafios.
No contexto atual, o autor também considera o impacto da chamada “revolução digital”, que tem contribuído para a formação de uma nova configuração antropológica, frequentemente designada como a dos “nativos digitais”. Tal transformação altera profundamente as formas de comunicação, interação e construção da identidade, intensificando, ao mesmo tempo, as tensões intergeracionais já tradicionais, como assinalado por reflexões que remontam a autores como São João XXIII.
Apesar dos desafios, permanece, segundo a perspectiva teológica e antropológica adotada, uma dimensão constitutiva de inquietação positiva na juventude: uma abertura ao sentido, à busca e à transcendência. Essa inquietação não deve ser compreendida como mera insatisfação, mas como impulso vital orientado à plenitude.
Destinado tanto a adultos quanto a jovens, o volume propõe-se, portanto, a oferecer elementos para um diálogo fecundo entre gerações, no qual a Palavra de Deus desempenha um papel formativo essencial. Por meio de uma seleção de episódios bíblicos, o autor evidencia simultaneamente as grandezas e fragilidades da condição juvenil, convidando a um duplo movimento: redescoberta do compromisso e do ideal, bem como exame crítico da própria experiência.
A reflexão é enquadrada por referências bíblicas que articulam advertência e esperança: de um lado, o reconhecimento da inclinação humana ao mal desde a juventude; de outro, a afirmação da possibilidade de superação e fidelidade. Nesse horizonte, destaca-se ainda a centralidade simbólica do termo hebraico ben que remete à ideia de construção e continuidade, sugerindo que a própria Escritura pode ser compreendida como uma narrativa de filiação, culminando na figura de Cristo, o Filho por excelência.
A obra em questão não apenas apresenta um panorama das figuras juvenis na Bíblia, mas também propõe uma leitura crítica e esperançosa da juventude, reconhecendo nela tanto suas sombras quanto seu potencial de renovação histórica e espiritual. trata-se de uma obra pensada para todos os que desejam promover um encontro fecundo entre gerações e redescobrir, na Bíblia, a força e a beleza da juventude.
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