A noite de Nicodemos: a confissão de um padre. Artigo de Domenico Marrone

Cristo conversando com Nicodemos à noite. (Créditos: Fotografia de domínio público de uma pintura do século XVII)

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21 Março 2026

"Se, ao ouvir, alguém reconhecer a própria escuridão, não a afaste. Não é sinal de fracasso, mas talvez o início de um renascimento. Porque, como foi para Nicodemos, para nós também, a noite pode se tornar o lugar onde o Senhor não retira o nosso ministério, mas o regenera do alto", escreve Domenico Marrone, teólogo e padre italiano, professor no Instituto Superior de Ciências Religiosas de Bari, na Itália, em artigo publicado por Settimana News, 20-03-2026.

Eis o artigo.

O monólogo a seguir surge da luta para continuar exercendo o ministério sem perder de vista o desejo original. Não questiona a vocação, nem a obediência, nem a fidelidade eclesial. Questiona algo mais profundo e mais frágil: o coração do sacerdote quando não está servindo.

Nicodemos é aqui visto como um reflexo do nosso ministério. Um crente, estimado, competente, integrado às estruturas religiosas de sua época, mas forçado a buscar a Jesus à noite. Não por covardia, mas porque algumas questões não suportam exposição pública. Nós também conhecemos aquela noite: não como um escândalo, mas como cansaço, solidão, uma sensação de desproporção, o medo de ser frutífero, de ter transformado o Evangelho em uma profissão de fé.

Este texto dá voz ao que muitas vezes permanece em silêncio entre nós. Ao que raramente encontra expressão nos sacerdotes reunidos, porque cada um teme ser o único a sentir-se assim. Em vez disso, trata-se de uma experiência compartilhada, ainda que não declarada: o fardo de sempre termos que ser "pais" sem nos permitirmos permanecer crianças; a tentação de controlar tudo para não perder o sentido; o risco de sobreviver espiritualmente, em vez de viver.

O monólogo não deve ser ouvido para identificar-se com cada palavra, mas para reconhecer o que lhe ressoa. Nem tudo lhe será familiar; algo, porém, lhe interessará. Pare por aí. Não fuja. Deixe o silêncio agir.

Este é um texto para ser lido lentamente, sem tomar notas ou preparar respostas. Destina-se precisamente ao momento em que o ministério finalmente pode silenciar e o homem pode mais uma vez falar diante de Deus.

Se, ao ouvir, alguém reconhecer a própria escuridão, não a afaste. Não é sinal de fracasso, mas talvez o início de um renascimento. Porque, como foi para Nicodemos, para nós também, a noite pode se tornar o lugar onde o Senhor não retira o nosso ministério, mas o regenera do alto.

No ventre da noite

O silêncio retornou. O verdadeiro silêncio.
O silêncio que permanece quando até a última luz artificial
deixa de fingir que é dia e a cidade se rende à noite.

Voltei tarde para a casa paroquial.
Deixei minha estola dobrada sobre a cadeira,
como se ainda guardasse algo de mim.
Mas a verdade é que a roupa que estou usando hoje
não cabe num cabide. Não consigo dormir.

E não porque eu tenha uma agenda cheia amanhã
— posso lidar com isso agora — mas porque tenho sido observado.
Como naquela época.
Como Nicodemos naquela noite.
Como eu, esta noite.

Sou padre.
Um dos padres de hoje.
Com estudos concluídos, experiência pastoral,
reuniões, prazos, questões orçamentárias,
projetos educacionais, atas para assinar
e homilias que não devo repetir.
Sou alguém que sabe.
Ou pelo menos, alguém que deveria saber.

No entanto, esta noite sinto-me exatamente como aquele homem do Evangelho
que vai ter com Jesus à noite:
competente, respeitado… e terrivelmente desarmado.

É para isso que serve a noite:
para te despojar do teu papel.
Para te despojar das frases certas.
Para te deixar apenas com uma pergunta, uma que não podes mais silenciar.

O que eu realmente quero?
Não o que eu faço.
Não o que me pedem.
Não o que esperam de mim.
Mas o que eu desejo, no meu sentido mais verdadeiro, o que não mostro a ninguém.
Lembro-me de uma frase que disse há anos a um menino no oratório, numa noite de verão. Ele me perguntou por que Deus falava com tanta frequência à noite.
Respondi-lhe com palavras semelhantes às de D'Avenia:
que a escuridão nos ajuda a ver o que o dia esconde,
que algumas coisas são belas demais para serem expostas à luz.

Naquele momento, pareceu-me uma resposta poética.
Hoje à noite, percebo que foi uma confissão.
Porque conheço aquela noite.
Não a romântica.
A real.

É a noite da decepção pastoral.
Quando você se prepara, sonha, investe tempo e coração...
e então ninguém aparece.
Quando você se ouve falando, mas as palavras escorregam
como chuva no vidro.

Quando você se pergunta se ainda está proclamando o Evangelho
ou apenas administrando uma estrutura que resiste por inércia.

E então chega a noite de solidão silenciosa.
Aquela que você não pode confessar, porque "um padre nunca está sozinho".
E, no entanto, você está, você está.
Apenas diante de decisões importantes.
Apenas quando comete erros.
Apenas quando não pode se dar ao luxo de ser frágil,
porque é em você que os outros depositam sua força.

E então chega a noite em que o corpo fala sem máscaras.
De dia, sabemos ser doutores da Lei,
sacerdotes ordenados, homens de medida.
À noite, as verdadeiras questões retornam.
E o corpo retorna.
Porque o corpo não deixa de desejar quando recebemos a ordenação.
Não se torna dócil por decreto.
Não é espiritualizado com uma fórmula.
Há uma época — que poucos têm a coragem de expressar em voz alta —
em que a sensualidade ressurge,
retorna com força, às vezes violentamente.
Não como uma perversão, mas como um grito de vida.
Como uma exigência de contato, de ser visto, reconhecido, desejado.

Nicodemos sabe disso.
Ele sabe que a noite não é apenas o lugar da dúvida teológica,
mas também da inquietação da carne.
E por isso ele pergunta:
"Como pode um homem renascer, sendo velho?"
Como podemos recomeçar quando o corpo
já não obedece aos nossos planos espirituais?
A castidade do sacerdote não é a ausência de desejo.
É o lugar mais frágil do desejo.
É uma luta diária para não reduzir o outro à compensação,
para não usar o ministério como anestésico,
para não transformar Deus em álibi.

Há noites em que a solidão pesa mais do que a cruz.
Noites em que a ternura falta mais do que o sucesso.
Noites em que o corpo anseia pelo que a alma não consegue nomear.
E aqui reside a tentação mais sutil:
não a de transgredir,
mas a de endurecer o coração,
a de extinguir o desejo em vez de o transformar,
a de tornarmo-nos funcionais até mesmo em nossos sentimentos.

Mas Jesus não diz a Nicodemos: persevere.
Ele diz: nasça de novo.
E nascer de novo não significa negar a carne,
mas permitir que o Espírito a permeie.
A castidade não é repressão.
É integração laboriosa.
É aprender que o desejo não deve ser eliminado,
mas dirigido, protegido, habitado sem ser possuído.
Quando a castidade se torna mero controle, mais cedo ou mais tarde explode.
Quando se torna mera renúncia, definha.
Quando se torna mera disciplina, desumaniza.
A castidade evangélica é uma forma elevada de relacionamento:
eu não possuo, eu não consumo, eu não uso.
Eu permaneço.
Eu me exponho.
Eu aceito a falta sem preenchê-la com substitutos.

Nicodemos compreende que o renascimento começa aqui:
permitindo que o corpo entre em um relacionamento com Deus,
sem vergonha ou idolatria.
Talvez uma das causas mais profundas da exaustão sacerdotal
não seja apenas o excesso de trabalho,
mas o desejo não realizado, a
sensualidade desenfreada,
a carne deixada sozinha à noite.

E então Jesus diz novamente:
"A luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas".
Não porque a noite seja má,
mas porque ninguém vê nela.
Contudo, precisamente ali, na escuridão do corpo,
pode nascer uma castidade mais verdadeira:
não a dos puros,
mas a dos homens reconciliados.

E então chega a noite da comparação impiedosa.
Quando você descobre que não é o padre que pensava ser.
Que outros são melhores.
Que alguém é mais ouvido, mais seguido, mais amado.
E você, que jurou não buscar reconhecimento,
se vê ferido ali mesmo.

E então há a noite mais escura. A noite do erro.
Quando realmente cometemos erros.
Quando fazemos o mal, mesmo sem intenção.
Quando percebemos que nosso ministério não se resume a palavras e sacramentos,
mas sim a um poder real sobre a vida das pessoas.
E esse poder, às vezes, pesa como culpa.
É nessa noite que compreendo Nicodemos.
Não como um personagem do Evangelho,
mas como um irmão.
Eu também venho a Ti à noite, Jesus.
Não porque eu não acredite,
mas porque acredito demais para me expor à luz sem tremer.
Não venho pedir soluções.
Venho perguntar se ainda posso renascer.
Por que, dize-me:
é possível renascer quando já se é um "mestre"?
Quando já se ocupa um cargo?
Quando já se é rotulado como alguém que "venceu na vida"?
Tu me respondes como respondeste a ele.
Tu não me tranquilizas.
Tu não simplificas a minha vida.
Tu me desorientas.
"É preciso renascer do alto."
Do alto.
Não das minhas estratégias.
Não da minha eficiência.
Não por minha própria capacidade.
Mas sim de cima, de onde não tenho controle algum.
E então compreendo:
meu desejo mais profundo não é ter sucesso no ministério.
Não é ser reconhecido.
Não é ver resultados.
Meu desejo é me tornar filho novamente.
Parar, ao menos por um instante, de ser apenas pai, guia, exemplo.
Deixar-me gerar novamente.

Compreendo que meu desejo mais verdadeiro não é fazer mais, mas acreditar mais.
Acreditar que Deus não me enviou aqui para julgar o mundo
— muito menos a mim mesmo — mas para salvá-lo.
Acreditar que eu também estou incluído nesse “mundo tão amado”.
E então a noite muda de face.
Ela não desaparece.
Mas deixa de me assustar.
Como aconteceu com Abraão, para mim também a noite se torna um lugar de paternidade.
Não porque eu veja tudo com clareza, mas porque elevo o olhar.
“Olhe para o céu e conte as estrelas.”
Não as obras bem-sucedidas.
Não os números. Não os resultados. As estrelas.
Ou seja, as vidas que me foram confiadas.
Os encontros fortuitos.
As perguntas não ditas.
Os jovens que não batem à porta da igreja,
mas cruzam meu caminho na rua.
As histórias que me tocam sem pedir permissão.
Talvez seja ali que Você continue a nascer.
À noite.
Longe dos holofotes.
Em silêncio.
E eu, Nicodemos de hoje, presbítero com os bolsos cheios de anotações
e o coração cheio de rachaduras, digo-te apenas isto:
Não deixes de habitar a noite.
Porque é lá que eu venho te procurar.
E é lá que, mais uma vez, me fazes renascer.
A noite não chega de repente.
A noite se prepara.
Ela se anuncia silenciosamente, como uma verdade que não queres ouvir, mas que insiste. Primeiro vem o cansaço, depois a irritação, depois uma estranha secura no peito.

Finalmente, o silêncio.
Não o que você escolhe, mas o que resta.
É tarde.
A casa paroquial está adormecida.
As paredes guardam vozes antigas,
os passos de outros padres, orações feitas às pressas,
rosários rezados por obrigação, lágrimas nunca confessadas.
Toda casa habitada por muito tempo se torna uma espécie de memória viva.
Esta também.
Apaguei a luz do escritório, mas não a de dentro.
Não, essa não se apaga.
Essa continua a iluminar justamente o que eu preferiria não ver.
Sento-me.
Não para rezar — pelo menos não como sei rezar —
mas porque meu corpo não consegue mais manter a posição que costumava ter durante o dia.
Durante o dia, fico de pé, no meio, na frente.
À noite, sento-me como alguém que parou de atuar.
E então percebo que estou cansado de ser forte.
Cansado de sempre ter que ter uma palavra.
Cansado de ter que manter tudo unido:
as pessoas, as tensões, as expectativas, as decepções.
Cansado de ter que ser um "sinal",
quando eu mesmo já não me sinto legível.

A noite faz isso:
ela te devolve a si mesmo sem mediação.
De dia, sou "dom".
À noite, volto a ser um homem tentando entender se fez a escolha certa,
se está realmente amando,
se não traiu algo essencial no caminho.
Não o celibato.
Não a obediência.
Mas o desejo original.
Quando foi que parei de me perguntar se ainda amo a Deus?
Não se acredito — isso, sim, continuo acreditando — mas se ainda o desejo.
Porque o desejo é mais perigoso que a fé.
A fé pode ser controlada.
O desejo, não: ou te consome ou se extingue.
Nicodemos sabia disso.
É por isso que ele sai à noite.
Não porque tenha medo dos outros, mas porque tem medo de si mesmo.
Do que poderia descobrir se realmente escutasse.

Eu também venho à noite, Senhor.
Não com questões teológicas, mas com um nó na garganta.
Venho porque não posso mais fingir que sei tudo.
Venho porque minha experiência já não me consola.
Passei anos explicando o renascimento para os outros.
Dizendo que Deus faz todas as coisas novas.
Pregando que a graça precede, acompanha, sustenta.
Mas esta noite me pergunto, sem rodeios:
E eu? Ainda estou na jornada ou estou apenas me mantendo firme?
Há uma forma de morte que não faz barulho. Não é pecado flagrante.
Não é escândalo. É habituação.
É quando você para de esperar qualquer coisa de Deus,
porque já aprendeu como as coisas "funcionam".

Essa é a verdadeira noite.
Aquela em que você não pede mais nada.
Esta noite, porém, eu peço.
Não em voz alta.
Não com palavras ordenadas.
Eu peço com ansiedade.
Pergunto se é normal sentir esse vazio
justamente quando anuncio plenitude.
Pergunto se é normal sentir inveja — sim, inveja —
daqueles cuja fé é simples, não profissional, não exposta.
Pergunto se é normal, às vezes, desejar
ser apenas alguém que pode duvidar sem se sentir culpado.
Olho para dentro de mim e não vejo um herói da fé.
Vejo um homem com medo do fracasso.
Com medo de não estar à altura.
Com medo de que um dia alguém diga:
"Ele falou bem, mas não gerou vida".
E então entendo que minha noite não é apenas cansaço.

É o medo de não ser frutífero.
Como Abraão.
Como Nicodemos.
Como todos aqueles que Deus chama
quando já acumularam anos suficientes
para saber que nem tudo é possível.

Venho à noite, Senhor,
porque a fidelidade nunca faz barulho.
Não é o heroísmo dos fortes,
mas a perseverança dos feridos que nunca desistem.
Permaneci.
Não porque tudo estivesse claro,
mas porque a tua voz, um dia,
mudou o horizonte da minha vida
e, desde então, mesmo quando já não a ouço,
continua a guiar-me.
Fidelidade não é permanecer o mesmo.
É deixar-se converter sem fugir.
É voltar todos os dias àquele primeiro "segue-me",
quando o ministério pesa sobre mim,
quando o corpo protesta,
quando falta fraternidade
e a missão parece estéril.
Tu não me pedes uma fidelidade de pedra,
mas uma fidelidade que gera o futuro.
Uma fidelidade que não preserva o passado,
mas guarda a promessa.
Que não defende papéis,
mas permanece discípulo mesmo quando é pastor.

Eu entendo, Senhor,
que não posso dar frutos se me separar de Ti,
se viver meu ministério sem me lembrar do meu chamado,
se servir sem me permitir ser servido pelo Teu olhar.
Renascer do alto
é isto:
não deixar de ser chamado,
mesmo quando me canso de responder.
E talvez o futuro da Igreja
não venha daqueles que mais resistem,
mas daqueles que permanecem fiéis
, permitindo-se continuamente serem transformados por Ti.
Tu me falas de renascimento.
E eu, por dentro, reajo como Nicodemos:
“Como isso pode acontecer?”
Como alguém pode renascer se já tem uma história?
Alguém que já cometeu erros?
Alguém que já decepcionou e foi decepcionado?
Como renascer quando não se pode apagar o passado, mas apenas carregá-lo?
E Tu não me dás instruções.
Tu não me dizes “faça isso”.
Tu me dizes: deixe-se ser transformado.
E é aqui que eu tremo.
Porque deixar-se ser transformado significa perder o controle.
Significa aceitar que minha identidade não está inteiramente em minhas mãos.
Significa admitir que até mesmo meu ministério não é uma conquista,
mas um dom a ser recebido continuamente.
Então entendo que meu problema não é a noite.
É que parei de confiar na escuridão.
Eu queria iluminar tudo.
Explicar tudo.
Esclarecer tudo.
Defender tudo.
Mas Deus não nasce em plena luz.
Ele nasce onde não se vê com clareza.
Onde é preciso escutar atentamente.
Onde só se pode confiar.
Talvez seja para isso que serve a noite:
para me lembrar que não sou eu quem salva ninguém.
Que não sou eu quem gera a fé.
Que não sou o centro.
E isso, estranhamente, me liberta.
Porque se não sou o centro, então também posso parar.
Também posso chorar.
Também posso confessar que não sei.
E, ao não saber, Tu passas.
Não com poder.
Não com respostas.
Mas com uma presença que não julga.
"Deus não enviou o Filho para condenar."
Nem mesmo a mim.
Nem mesmo meu cansaço.
Nem mesmo minha fragilidade sacerdotal.
Então fico aqui.
Sentado.
Em silêncio.
Não espero que a noite termine.
Não peço consolo imediato.
Peço apenas que eu não me endureça.
Se devo permanecer na noite, que eu não me torne cínico.
Se devo caminhar na escuridão, que eu não perca meu desejo.
Se devo renascer, que isso aconteça do alto, mesmo que doa.
Porque agora eu sei:
A noite não é o oposto da fé.
É o seu ventre.
E eu, Nicodemos de hoje, sacerdote cansado, mas ainda inquieto,
confio a ti este único desejo, o único que me resta:
Não me deixes tornar-me alguém que deixou de te buscar.

O Som do Silêncio

Agora que o monólogo chegou ao fim, não voltemos imediatamente às palavras. Permaneçamos em silêncio por um instante. Porque o que foi dito não exige uma resposta imediata, mas sim uma assimilação lenta, como o pão que precisa penetrar profundamente para realmente nutrir.

Talvez alguns de nós se reconheceram. Talvez outros tenham sentido resistência, distanciamento, até mesmo irritação. É normal. Quando uma palavra toca o coração do ministério, ela não consola imediatamente: primeiro ela agita, revela, expõe. Não nos defendamos desse movimento. Não estamos aqui para provar nada, mas para nos deixarmos alcançar.

A noite de Nicodemos não é um soluço, nem um sinal de infidelidade. É uma etapa. É o lugar onde o sacerdote para, por um instante, carregando o peso da representação e simplesmente retorna diante do Senhor como um homem chamado pelo nome. Não como uma função, não como um papel, não como um problema a ser resolvido, mas como um filho.

Se durante a leitura surgir um cansaço que não ousamos mencionar, não nos envergonhemos. Se uma pergunta que há muito evitamos vier à tona, não a reprimamos. Se sentirmos medo de não sermos frutíferos, lembremos que a frutificação do nosso ministério nunca coincide inteiramente com aquilo que podemos medir ou controlar.

Não nos é pedido que "façamos mais", nem que sejamos melhores sacerdotes segundo critérios de eficiência. É-nos pedido algo mais essencial e mais exigente: que nos deixemos regenerar. Que aceitemos que o nosso ministério sacerdotal também precisa de renascer, não apenas uma vez, mas continuamente, do alto, onde o Espírito sopra sem pedir permissão.

Após esta leitura, levamos conosco não um programa, mas uma vigilância: não fugir da noite quando ela retorna, não preenchê-la imediatamente com ruído, não nos envergonhar de buscar Jesus ali mesmo. Pois é nessa escuridão habitada que o ministério se purifica, o coração se realinha e o desejo se preserva.

Confiemos ao Senhor o que este texto despertou em cada um de nós. Nem tudo precisa ser esclarecido hoje. Nem tudo precisa ser resolvido. Mas tudo pode ser entregue.

E se esta noite, ou em alguma outra noite que virá, algum de nós ainda se sentir como Nicodemos, lembremo-nos sem medo: não estamos fora do Evangelho. Estamos, talvez, exatamente no ponto em que o Evangelho começa a gerar vida novamente.

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