"O sacramento da reconciliação, aconselhado pela Igreja neste tempo quaresmal, não é bem compreendido pela consciência contemporânea. Mas, segundo o cardeal Martini (1927-2012), trata-se de 'um feliz encontro com Deus'”.
O comentário é de Patricia Fachin, jornalista, graduada e mestra em Filosofia pela Unisinos e mestra em Teologia pela PUCRS.
Na primeira semana da quaresma deste ano, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU reproduziu “A via sacra bíblica do cardeal Martini”. Esse exercício espiritual nos convida a reviver e meditar 14 momentos marcantes da vida de Jesus, desde a sua condenação até o sepultamento. É uma forma de se colocar espiritualmente a caminho do calvário e, mais do que isso, conhecer quem é Jesus e, portanto, quem somos nós e, nesta descoberta, se surpreender com as maravilhas de Deus.
Na quarta das sete estações meditadas pelo cardeal Martini, destaca-se a negação de Pedro. Ele nega o seu Senhor não por desconhecimento, mas por medo. É o medo que o impede de “reconhecer publicamente” a “realeza” de Cristo, esclarece o jesuíta italiano. É o mesmo medo, continua o biblista, que impede muitos cristãos de se declararem como tais. Mas o medo, como Jesus adverte incontáveis vezes no Evangelho, não é a última palavra – Ele mesmo repete incansavelmente: “não tenhais medo”. E mesmo que tenhamos medo e, em função dele, “tenhamos traído o Senhor”, conclui o arcebispo de Milão, “podemos lamentar nossos pecados e ter nossos pecados perdoados”. A meditação da quarta estação é concluída com a oração que Jesus nos ensinou, onde também há um apelo à misericórdia e ao perdão do Pai: “perdoai-nos as nossas ofensas…”.
A reconciliação com Deus, fruto de um processo de conversão, também foi tematizada pelo cardeal Martini em “Reencontrando a si mesmo. Há um momento em que devemos parar e procurar” [Ritrovare se stessi]. Entre outros pontos, ele retoma a passagem evangélica do choro de Pedro – não depois de negar Cristo três vezes, mas diante do olhar de Jesus, no reencontro. “Quando Jesus o olhou dentro dos olhos”, o discípulo escolhido para ser a pedra da Igreja “não pôde conter as lágrimas”, resume Martini. O cardeal não se debruça tanto sobre o choro de Pedro, mas explica o que aconteceu no coração do discípulo depois de ter chorado amargamente: a dor cristã que nasce do encontro, da consciência do contraste entre as nossas ofensas e o amor misericordioso de Deus.
A dor cristã que nasce do encontro com Cristo, também chamada de contrição do coração, é impossível sem o impulso do Espírito de Deus. E sem essa dor não existe reconciliação integral porque estamos paralisados no medo. No medo do reconhecimento e da confissão dos nossos pecados.
O sacramento da reconciliação, aconselhado pela Igreja neste tempo quaresmal, não é bem compreendido pela consciência contemporânea. Mas, segundo o cardeal Martini, trata-se de “um feliz encontro com Deus”. Chegou a compará-lo com a passagem bíblica de João (21,7), que avistando Jesus ressuscitado na praia, exclamou: “É o Senhor!” É a mesma exclamação que fez Pedro lançar-se ao mar, em direção a um novo reencontro.
Para aqueles que não se sentem preparados para a confissão sacramental, para o encontro com o Pai por intermédio de Cristo, o cardeal Martini sugere um itinerário de três etapas que pode auxiliar no processo de reconciliação com Deus.
O primeiro deles é a confissão de louvor. Consiste em colocar-se diante de Deus com gratidão. Agradecer pela vida, pela saúde, pelas reconciliações com os irmãos e por tantas coisas pelas quais cada um é grato. O segundo é a confissão de vida. Tem a ver com apresentar a Deus nossos sentimentos mais profundos, as emoções que sentimos e nos levam à prática de atos indesejados, as culpas que carregamos, em suma, tudo aquilo que realmente somos, sem máscaras. Terceiro, a confissão de fé. O cardeal a resume como um “ato pessoal”. É mais do que a confissão de uma lista de pecados. É um encontro renovado com a Trindade porque cada encontro é único; “nunca é igual”, diz Martini. “No Sacramento da Reconciliação”, explica, “acontece uma verdadeira e própria experiência pascal: esta experiência consiste na capacidade de abrir os olhos e dizer: ‘É o Senhor!’”
A dureza de coração, o orgulho, a vergonha, as nossas ideias e convicções sobre nós mesmos e sobre Deus são alguns dos obstáculos que dificultam a darmos um passo definitivo rumo à reconciliação. Mas, independentemente da condição de cada um, escutemos as palavras de Jesus – “Tenham fé em Deus” (Mc 11, 22) – e demos crédito ao itinerário proposto pelo cardeal Martini. Inúmeros são os nossos pecados, mas a força do perdão de Deus é arrebatadora.
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