Democracia, virilismo, imperialismo. Artigo de Alberto Leiss

Foto: Joyce N. Boghosian/The White House/Flickr

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14 Março 2026

"Somos obrigados a esperar que possa haver algum sentido em tamanha loucura destrutiva, que possa ao menos ser favorecida a luta das iranianas e iranianos por uma guinada rumo à liberdade? Isso também é difícil de acreditar", escreve Alberto Leiss, jornalista italiano, em artigo publicado por Il Manifesto, 10-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Imagens da noite de um 8 de março em frente à TV. Trump em sua mesa, cercado por fiéis que se dizem cristãos, uma profusão de mãos umas sobre as outras que se estendem até o corpo do Líder para transmitir benevolência e autoridade divina. As nuvens escuras sobre Teerã após os bombardeios dos depósitos de petróleo. A contagem de vítimas civis. As centenas de milhares de libaneses forçados a fugir de suas casas pelos soldados israelenses. Trump muito satisfeito com o andamento de sua guerra e de Netanyahu. Hillary Clinton, muito combativa na comissão sobre o "caso Epstein", pergunta por que o presidente Trump também não está sendo ouvido sob juramento. Seu marido, muito idoso, cansado e constrangido perante a mesma comissão, responde em monossílabos com as mãos trêmulas.

As últimas notícias da leitura dos arquivos, agora acessíveis a todos, reiteram a denúncia de uma mulher que afirma ter sido estuprada por Trump aos 13 anos. O relato é horrível. Parlamentares democratas EUA associam a decisão de declarar guerra ao Irã com o propósito de desviar a atenção pública do caso Epstein.

Difícil de acreditar. Mas também é difícil ignorar o contexto em que essas imagens se apresentam. Um poder essencialmente masculino, misógino e violento que substitui uma crise vertical de autoridade pelo uso da força bruta. Claro, existem os interesses econômicos, o petróleo. A autoridade do Deus-dinheiro. Mas isso não basta. De fato, não apenas o terrível regime dos aiatolás, que sempre o fez, se considerou profeta de Deus, mas também Trump. Até mesmo Netanyahu (talvez não ele pessoalmente, criminosamente cínico? Mas a direita que o apoia, com a Bíblia na mão para justificar os massacres).

Somos obrigados a esperar que possa haver algum sentido em tamanha loucura destrutiva, que possa ao menos ser favorecida a luta das iranianas e iranianos por uma guinada rumo à liberdade? Isso também é difícil de acreditar.

Talvez seja melhor refletir mais seriamente sobre como pôde acontecer tal involução da democracia estadunidense, e de todas as "nossas" democracias.

Às infinitas análises socioeconômicas e geopolíticas, eu acrescentaria uma antropológica. Desde suas origens atenienses, a democracia tem sido uma forma política feita de separatismo patriarcal masculino, pela força das armas e pela tendência imperialista. O mesmo ocorreu quando, séculos depois, renasceu na Inglaterra dos barões e soldados de Cromwell, e depois na França: os revolucionários do "Terceiro Estado" armaram o povo, declararam igualdade, liberdade e fraternidade, e imediatamente guilhotinaram a mulher que acreditara nisso, Olympe de Gouges. Em seguida, Napoleão avançou sobre Moscou...

Portanto, talvez não seja coincidência que o "discurso" desses líderes belicosos — sem esquecer Putin e muitos outros — perca o sentido à medida que se descobrem as paixões mórbidas, a violência misógina e as fraquezas morais gradualmente reveladas pelo caso Epstein.

Não é suficiente o admirável Padre Cecchettin em Sanremo contra os feminicídios. Chegou a hora de uma voz masculina se manifestar contra o "nosso" amor pela violência bélica — das gangues juvenis aos tecno-exércitos imperiais — capaz de superar os limites das culturas liberais, talvez estudando pensamento e práticas do feminismo: os direitos de um cidadão abstrato em vez das relações entre pessoas sexuadas, classes sociais e culturas diferentes no mundo; a igualdade formal, não a complexidade da diferença de cada indivíduo; a ilusão de um mercado "regulado" pela competição por dinheiro.

Culturas que, após a catástrofe do socialismo "real", também estão fracassando: perseguem e cedem espaço aos populismos autoritários.

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