03 Março 2026
Originários de fóruns online na década de 1990, os terianos são pessoas, em sua maioria jovens, que se identificam psicológica ou espiritualmente com animais não humanos, como cães, raposas ou gatos, e que às vezes usam máscaras e rabos e imitam o comportamento desses animais em parques urbanos. Nos últimos meses, o fenômeno explodiu nas redes sociais, com encontros públicos em diversas cidades da América Latina. Em meio a proibições institucionais, curiosidade e controvérsia, o movimento entrou no centro do debate público.
A reportagem é de Isabella Amato, publicada por La Repubblica, 02-03-2026.
Origens e definições: quem são os "terianos"?
O termo deriva do inglês "therianthropy", que por sua vez vem do grego "therion" (besta) e "anthropos" (homem). Um estudo da Universidade de Northampton define teriantropia como "a crença em possuir ou ser capaz de se transformar em um animal". A pesquisa observa que representações híbridas de humanos e animais estão presentes em achados arqueológicos que datam de mais de 30 mil anos.
A comunidade teriana moderna surgiu na década de 1990 em fóruns online estadunidenses dedicados a experiências de "identidade não humana". Hoje, o fenômeno é amplificado pelas redes sociais, onde imagens e vídeos de encontros contribuem para sua disseminação. Isso é particularmente verdadeiro no TikTok, onde a hashtag #therian ultrapassou 2 milhões de publicações, com a Argentina liderando a América Latina em termos de engajamento.
Proibições em Honduras e na Guatemala
Pelo menos oito cidades em Honduras e na Guatemala proibiram formalmente reuniões públicas de "terianos". A reação dos governos locais ocorreu após a disseminação online de convocações para encontros em espaços públicos.
Em Honduras, o prefeito de Choluteca, Eber Aplicano, declarou: “O uso de espaços públicos para aglomerações que perturbem a ordem, a moralidade e os bons costumes é estritamente proibido”.
O magistrado de Olanchito, José López, concordou, enfatizando que as praças e áreas comuns destinam-se exclusivamente à promoção de "atividades familiares, religiosas, culturais, sociais e cívicas".
Além de diversas cidades hondurenhas, a repressão também afetou os municípios guatemaltecos de San José Pinula, Amatitlán e Huehuetenango. As autoridades reiteraram seu compromisso em manter a "ordem e a convivência harmoniosa".
Buenos Aires, o parque se transforma em uma "floresta"
Enquanto as proibições se multiplicam na América Central, o fenômeno cresce na Argentina. Num domingo recente, uma praça em Buenos Aires se transformou numa espécie de floresta improvisada: Sofía, usando uma máscara realista de Beagle, corre pela grama de quatro. Perto dali, Aguara, de 15 anos, salta um percurso de obstáculos, imitando os movimentos de um Pastor Belga Malinois. Outros, vestidos de gatos ou raposas, sobem em árvores, mantendo distância dos espectadores. Aguara, que se identifica como um Pastor Belga Malinois e tem "dois anos e dois meses" em anos caninos, explica: "Acordo como uma pessoa normal e vivo minha vida como uma pessoa normal. Só tenho momentos em que gosto de ser um cachorro."
Líder do que ele chama de sua "matilha", ele organiza encontros na capital argentina e tem mais de 125 mil seguidores no TikTok. Aru, de 16 anos, usa uma máscara de foca e se descreve como parte do ramo "otherpaw" dos terianos, ou seja, aqueles que usam máscaras ou rastejam de quatro apenas por diversão. "Não se trata necessariamente de se identificar como um animal", diz ele.
"Não é um jogo": vozes do México e da Argentina
O fenômeno também se espalhou para o México. Jesús Antonio, de 25 anos, que preferiu não revelar seu sobrenome, disse à CNN Latinoamérica que se identifica como um Poodle Francês: "Acho que é mais fácil encontrar afeto como outra espécie do que como humano. Me sinto feliz; estou mais em paz", disse ele, acrescentando: "Ser um 'teriano' é a melhor coisa que já me aconteceu — eu me sentia como se fosse o único, mas depois dessa popularidade, me sinto muito feliz. Não fazemos mal a ninguém; recomendo estar aberto a outras coisas."
Verónica Rose Salinas, de 28 anos, diz ser teriana há 19 anos e se identifica com um Akita Inu: "Gosto de agir como um cachorro quando posso, andando de quatro", explica. Ela acrescenta: "Simplesmente gostamos de agir assim porque somos adultos funcionais: nossos cinco minutos 'terianos' não machucam nem ferem ninguém."
Aguará, conhecido nas redes sociais como "Therian del Barrio Chino", também rejeita a ideia de ser uma tendência ou uma tribo urbana: "É incorreto dizer que nos percebemos como animais, porque se fosse esse o caso quereríamos nos tornar animais, quereríamos ter os direitos dos animais. Nós, como Therians, na maioria dos casos, nos identificamos parcial e involuntariamente como animais. Não é algo que decidimos."
Em relação às críticas online, ele acrescenta: "Antes de apontar o dedo, é preciso entender o que está acontecendo. Isso não nos prejudica psicologicamente, não estamos nos prejudicando com isso, é apenas algo que existe."
O que diz a psicologia
A psicóloga Débora Pedace, diretora do Centro Terapêutico Integral de Buenos Aires, explica à CNN: "Do ponto de vista psicológico, trata-se de uma identificação simbólica com um animal". Ela acrescenta: "Só se torna patológico ou alarmante quando se transforma em uma crença profundamente enraizada e a pessoa assume completamente o papel de um animal, com o risco de se prejudicar ou prejudicar os outros".
Outros especialistas também distinguem entre teriantropia clínica — uma condição psiquiátrica rara associada a transtornos psicóticos — e identidade teriana não clínica, entendida como uma forma de autoconceito espiritual ou psicológico.
O sociólogo Guillermo Acuña, vice-reitor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Nacional da Costa Rica, situa o fenômeno num contexto mais amplo de transformações sociais: "Estamos claramente numa crise institucional [...] uma crise das estruturas tradicionais, da família, da religião. Estamos vivenciando processos de ruptura, a questão da crise do trabalho, que é uma instituição em si mesma, que foi desestruturada porque o Estado deixou de ser o empregador global."
De acordo com Acuña, a viralização muitas vezes privilegia o julgamento em detrimento da compreensão: “Acredito que estamos vivendo em uma era na qual não sabemos como lidar com certas emoções como comunidade, e as redes sociais são terreno fértil para que essas manifestações de raiva e fúria encontrem espaço.”
Entre o estigma e a busca pelo reconhecimento
A disseminação de manifestações na Argentina, México e outros países da América Latina gerou reações diversas: risos, curiosidade, mas também insultos online. Organizações de proteção à infância alertaram para o risco de estigmatização quando o debate público "se reduz a adolescentes, moda ou patologia".
Entretanto, os encontros continuam. Adolescentes e jovens adultos se reúnem em parques, filmam vídeos e exigem um espaço para se expressarem.
Para eles, explicam, não se trata de fingir ser animais, mas de ter uma parte de sua identidade reconhecida. E pedem que, antes de risos ou proibições, haja ao menos a disposição de ouvir.
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