04 Março 2026
A Conferência Episcopal Espanhola (CEE) publicou uma nota doutrinal sobre o papel das emoções no ato de fé, intitulada Cor ad cor loquitur — o coração fala ao coração —, na qual adverte que "a fé sem verdade não salva" e pede que as iniciativas iniciais de proclamação sejam submetidas aos critérios dos bispos.
A reportagem é de José Lorenzo, publicada por Religión Digital, 03-03-2026.
Motivada pelos diversos sinais de um “renascimento da fé cristã” na sociedade, bem como pelo surgimento de “diversas iniciativas de proclamação inicial”, a Conferência Episcopal Espanhola (CEE) tornou pública esta manhã a nota doutrinal sobre o papel das emoções no ato de fé, intitulada Cor ad cor loquitur (o coração fala ao coração).
Aprovado pelo Comitê Permanente em sua reunião da semana passada, o texto, preparado pela Comissão para a Doutrina da Fé, presidida pelo Bispo de Solsona, dom Francisco Conesa, e cujo título reproduz o lema escolhido pelo recentemente declarado Doutor da Igreja, São John Henry Newman, visa “auxiliar o discernimento e acompanhar o amadurecimento dessas experiências apostólicas para que possam crescer e prestar um melhor serviço a tantas pessoas que se aproximam da Igreja”.
No texto, os bispos da referida comissão reconhecem que “nos últimos anos há sinais que indicam um renascimento da fé cristã, especialmente entre os jovens espanhóis da chamada 'geração Z', aqueles nativos digitais nascidos entre meados da década de 90 e a primeira década dos anos 2000”, refletido em “uma série de iniciativas iniciais de proclamação”, cuja “criatividade” a Igreja “valoriza” e em “novos métodos ou ferramentas de evangelização que representam um sopro de ar fresco”.
Risco de um reducionismo 'emotivista'
Métodos, acrescentam, em que “as emoções e os sentimentos desempenham um papel importante, causando um 'impacto' inicial na pessoa e levando à conversão e à adesão a Cristo”, mas em que “há muitos, mesmo entre os promotores dessas experiências, que alertaram para o risco de um reducionismo 'emotivista' da fé, que leva muitas pessoas a se tornarem consumidoras de experiências impactantes e buscadoras insaciáveis da gratificação do sentimento espiritual”.
“O anúncio de Cristo não busca provocar sentimentos diretamente, mas testemunhar um evento que transformou a história e é capaz de transformar a existência de cada ser humano, ocupando o centro de sua vida”, alertam os bispos, enfatizando que “este é o grande impacto que renova a mente e o pensamento, amplia o horizonte da liberdade, oferece um novo sentido à vida e, com base nisso, dá uma nova coerência às ações das pessoas”.
Nesse sentido, a nota doutrinal reconhece que, em comparação com outros tempos, neste momento "a experiência da fé está centrada no universo emocional e sentimental da pessoa", alertando, portanto, para "a necessidade de regular e discernir as emoções, pois elas podem ser um obstáculo ao crescimento espiritual", para não cair em um "emotivismo" onde, acrescentam, se passa do "Penso, logo existo" para o "Sinto, logo existo", do "logos" para a "emoção".
“Aplicado à vida espiritual”, acrescenta a nota doutrinal, “o ‘emotivista religioso’ torna a fé dependente da intensidade da emoção, reduzindo-a à medida do sentimento e ao seu prazer, o que é reforçado quando se trata de experiências compartilhadas. É importante não confundir essas experiências com o êxtase místico ou com a experiência de alegria espiritual que acompanha a revelação privada nos santos.”
“As emoções não podem ser ignoradas ou banalizadas, pois são intrínsecas à nossa existência. No entanto, é crucial encontrar um equilíbrio na vida espiritual entre os aspectos intelectuais, volitivos e emocionais. Os sentimentos não podem ser separados da verdade nem da bondade”, declararam os bispos da comissão episcopal.
“A fé sem verdade não salva, não dá segurança aos nossos passos. Permanece uma bela fábula, uma projeção dos nossos desejos de felicidade, algo que nos satisfaz apenas na medida em que queremos nos iludir”, enfatiza a nota, que também alerta que o emotivista “é mais facilmente manipulado ” e que “na vida espiritual existe o perigo de tentar obter certos comportamentos por meio de um ‘bombardeio emocional’, o que poderia ser considerado uma forma de ‘abuso espiritual’”.
“Esse tipo de abuso pode se manifestar na forma de 'pressão emocional dos pares', que força os indivíduos a 'sentirem' o mesmo que os outros para não se excluírem da experiência. Também pode ocorrer por meio do uso de falsas experiências sobrenaturais ou místicas que distorcem uma visão autêntica de Deus, como forma de exercer controle sobre as consciências, anulando a autonomia das pessoas, ou para cometer outros tipos de abuso, que devem ser considerados de particular gravidade moral”, afirmam os pastores.
"Acredite com o seu coração"
Em contraste com esses modelos, a nota doutrinal nos convida a “crer com o coração”, o que consideram “o melhor antídoto contra os dois grandes inimigos da vida espiritual apontados pelo Papa Francisco: o neognosticismo e o neopelagianismo”, sendo que o primeiro “concebe a salvação como algo puramente interior”, enquanto o segundo “enfatiza o caráter radicalmente autônomo do indivíduo, que busca alcançar a salvação por sua própria força”.
“Isso se traduz, entre outras coisas, em autossatisfação com os frutos alcançados, uma obsessão pela lei e ostentação no cuidado com a liturgia, a doutrina e o prestígio da Igreja”, apontam, citando o Papa Francisco.
Por todas essas razões, os bispos espanhóis oferecem critérios teológico-pastorais para o discernimento, lembrando-nos que "a fé, certamente, não se reduz à adesão teórica a certos dogmas, mas é um ato pelo qual a pessoa inteira se entrega livremente a Deus, que se revela a nós e se entrega a nós em Cristo" e que "é preciso ter cautela com os sentimentos e emoções que simplesmente proporcionam bem-estar ao indivíduo".
“Cristo, ao contrário, nos chama a tomar a nossa cruz e segui-lo. Uma fé baseada apenas em sentimentos agradáveis e positivos é repelida pela cruz. A vida cristã não pode ser compreendida sem participar da cruz e completar em nossa própria carne os sofrimentos de Cristo”, apontam eles.
O papel do treinamento
“Uma experiência ou conhecimento direto ou individualista de Deus não é possível. Ninguém se torna cristão sozinho, nem ninguém é crente sozinho”, enfatizam os bispos, destacando ainda que “é particularmente apropriado iniciar os itinerários catecumenais e os processos formativos de discipulado e acompanhamento na maturação da fé com aqueles que fizeram uma primeira conversão ao Senhor” e que “a formação é o principal meio que permite integrar a verdade ao amor”.
Da mesma forma, os bispos enfatizam na declaração que “uma autêntica experiência eclesial de fé não absolutiza o carisma do próprio grupo, mas o coloca a serviço da unidade da Igreja; e não exclui outros carismas, mas valoriza a riqueza que eles trazem ao todo. O mesmo se pode dizer dos métodos de evangelização: nenhum deve ser considerado absoluto, e é preciso admitir que o que funciona para alguns pode não ser necessariamente válido ou útil para outros”.
“Será, portanto, um sinal de eclesialidade que estes novos métodos sejam submetidos ao discernimento da autoridade dos bispos e dos órgãos diocesanos competentes”, exortam os pastores, que também lembram que “o compromisso com a Igreja e com o mundo, seja na família, no trabalho, na sociedade, na vida pública, com os mais pobres e os doentes, na defesa da dignidade humana, na promoção da paz ou no cuidado da criação, torna-se um critério de discernimento para avaliar a autenticidade da fé e destas novas iniciativas eclesiais”.
Por fim, a nota se concentra na dimensão celebratória, onde pedem que se tenha cuidado para "não promover uma oração 'espiritualista' desencarnada ou celebrações litúrgicas íntimas e ostentosas", porque "há o perigo de reduzir a liturgia a mero 'devocionalismo'".
“Em alguns círculos, há uma dependência excessiva de elementos emocionais, incluindo práticas de culto eucarístico fora da Missa que distorcem e descontextualizam o significado próprio da adoração ao Santíssimo Sacramento”, indicam, instando as pessoas a evitarem “o subjetivismo e a arbitrariedade nas formas de culto eucarístico, bem como o uso de elementos estranhos ao que está estabelecido no Ritual”.
“Tudo isso – enfatiza a nota doutrinal – representa o desafio de assegurar, tanto para os fiéis quanto para os ministros ordenados, uma boa formação litúrgica que ajude a colocar a celebração da Eucaristia, especialmente aos domingos, no centro da vida pessoal, comunitária e eclesial.”
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