O abuso espiritual

Recorte da imagem da capa "L’abuso spirituale. Riconoscerlo per prevenirlo". (Foto: Reprodução)

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06 Abril 2023

O abusador não nasce abusador, se torna um, e todos nós podemos nos tornar um; para não correr o risco, é preciso transformar a vida em formação permanente.

A reportagem é de Paola Zampieri, publicada por Settimana News, 29-03-2023. A tradução é de Luisa Rabolini

Essa pode ser uma chave para a leitura do livro de Dom Giorgio Ronzoni L’abuso spirituale. Riconoscerlo per prevenirlo (O abuso espiritual. Reconhecê-lo para preveni-lo, em tradução livre) que investiga o fenômeno com coragem e sensibilidade, iniciando sobre ele uma tomada de consciência e uma reflexão que, no momento, parece faltar no contexto eclesial italiano. “Difícil de reconhecer ou mesmo apenas de definir, o abuso espiritual não é por isso o menos perigoso: mesmo quando não se chega a outras formas de prevaricação e de violência, as feridas infligidas às pessoas no plano espiritual são graves e profundas”, afirma o autor.

L'abuso spirituale. Riconoscerlo per prevenirlo

A gênese do abuso

Amedeo Cencini, que assina o Prefácio, destaca como, após a explosão da bomba dos abusos eclesiais, e o reconhecimento, embora bastante complicado, do drama e das responsabilidades por parte da Igreja, criou-se uma reação autodefensiva – “fizemos a nossa parte” – que esconde vergonha e preocupação pela má impressão deixada pela Igreja. E, portanto, também revela o quão longe ainda estamos “da compreensão dessa terrível praga, das suas raízes e consequências, da gravidade e responsabilidade individual e coletiva, da dor que causa, da compaixão pelas vítimas”.

O livro de Ronzoni vai na contramão dessa tendência. Acima de tudo, é um convite a tentar entender em que consiste o problema do abuso espiritual, de como um nobre projeto de vida possa gradualmente se distorcer até se aproveitar dos instrumentos gerais do crescimento espiritual – a Palavra de Deus, os argumentos teológicos, as sugestões ascéticas … – para captar os pontos fracos do outro, tornando-o vulnerável, dependente, aberto à chantagem.

O estudo começa com uma definição de orientação do conceito, explicando como nasceu e se desenvolveu (cap. 1), e então passa a descrever as formas pelas quais o abuso espiritual ocorre (cap. 2). Em seguida, traça uma possível identidade das vítimas (cap. 3) e daqueles que abusam (cap. 4). Segue-se a análise de duas questões estreitamente relacionadas, a obediência e a autoridade (cap. 5), e a distinção entre foro externo e foro interno (cap. 6). Como conclusão, uma visão sobre como ajudar as vítimas de abuso espiritual (cap. 7) e algumas considerações de resumo (cap. 8).

Dom Ronzoni analisa tal realidade de forma acurada e documentada (com abundância de citações e bibliografia inclusive fora do âmbito italiano), combinando o aspecto espiritual com aquele psicológico, como Cencini evidencia no Prefácio.

O abusador é fundamentalmente uma pessoa dividida e/ou confusa na sua dimensão espiritual, com os seus ideais e valores, e na dimensão antropológica, com os impulsos e as paixões humanas. O risco é que “o que há de mal resolvido no humano possa interpretar de forma desviante, para seu pessoal uso e consumo, o ideal, por mais transcendente e até divino que seja, explica Cencini. Dessa divisão e/ou confusão nascem os abusos e deles se alimentam, criando ainda mais divisão e confusão, em si e no outro, na relação individual e comunitária, na Igreja e nas relações eclesiais”.

O texto indica a direção básica para operar: a da integração entre as duas perspectivas ou da atenção ao diálogo contínuo e mutuamente enriquecedor entre elas. Essa atenção deve partir da formação inicial e estender-se a toda a vida: a formação permanente, portanto, como instrumento para não cair no clericalismo, para motivar constantemente a opção celibatária-virginal e para tornar o coração cada vez mais criativamente fiel, livre e responsável.

Em que contexto

Na conclusão de seu trabalho, Dom Ronzoni volta a ressaltar como o abuso espiritual quase sempre ocorre no contexto da direção espiritual e/ou da confissão.

Isso não significa que também possa haver significativas implicações de tipo comunitário. Em geral, explica, “o abuso de poder no âmbito espiritual arruína a relação da pessoa com Deus e a torna totalmente dependente do juízo dos outros, a ponto de fragilizá-la e expô-la a outros tipos de abuso. As pessoas em busca do absoluto e de um guia que as ajude nessa busca, especialmente jovens, são as mais expostas ao risco do abuso espiritual”.

E acrescenta: “Aqueles que na Igreja têm a função de supervisionar devem protegê-las dos lobos disfarçados de cordeiros ou, pior, de pastores. […] Isso não significa aumentar a cultura da suspeita e da desconfiança, mas simplesmente estar vigilante, ou seja, manter os olhos e os ouvidos abertos. Saber que o abuso espiritual existe e conhecer seus sintomas", conclui, "poderá ser útil para ajudar quem é vítima dele e prevenir danos maiores".

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