O papa e uma nova mediação internacional. Artigo de Francesco Sisci

Foto: Vatican Media

Mais Lidos

  • “60% do déficit habitacional, ou seja, quase quatro milhões de domicílios, vivem nessa condição porque o gasto com aluguel é excessivo. As pessoas estão comprometendo a sua renda em mais de 30% com aluguel”, informa a arquiteta e urbanista

    Gasto excessivo com aluguel: “É disso que as pessoas tentam fugir quando vão morar nas favelas”. Entrevista com Karina Leitão

    LER MAIS
  • Povos indígenas: resistência nativa contra o agrocapitalismo. Destaques da Semana no IHUCast

    LER MAIS
  • A guerra de Trump e Netanyahu contra o Irã se intensifica e se expande com os ataques israelenses ao Hezbollah no Líbano

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

02 Março 2026

A guerra da Rússia contra a Ucrânia e, depois, o ataque do Hamas a Israel mudaram as regras. Estados Unidos e Israel responderam elevando, por sua vez, o nível do confronto. É um novo mundo em que a ONU simplesmente já não existe. É preciso imaginar outro espaço de mediação internacional, que talvez devesse e pudesse nascer sob a égide do papa. Uma estrutura diferente e distinta da Santa Sé e de sua diplomacia, mas coerente com ela.

Com a morte do aiatolá Ali Khamenei há uma consequência global e abrem-se três cenários para o Irã.

O comentário é de Francesco Sisci, sinólogo, autor e colunista italiano, publicado por Settimanna News, 01-03-2026. 

O efeito global é que o radicalismo islâmico incentivado no mundo inteiro, entre xiitas e sunitas, pela revolução iraniana de 1979, foi oficialmente derrotado e sua retirada global provavelmente será acelerada em toda parte. A popularização do chador e da sharia, em países de maioria islâmica e não islâmica, começará hoje a recuar. Será uma retirada longa e acidentada, cheia de resistências, mas o mundo virou a página.

Para o Irã, abrem-se três cenários. O país está dividido entre facções, liberais e clérigos conservadores, e por fraturas étnicas — persas, curdos, balúchis, azeris… Poderia, então, fragmentar-se e explodir. Isso aconteceu no Iraque após a segunda Guerra do Golfo, em 2003.

Outro cenário é que o regime, embora derrotado, resista. Isso também ocorreu com o Iraque de Saddam Hussein após a primeira Guerra do Golfo, em 1992.

O terceiro cenário, o desejado, é que surja um líder mais razoável que abra o regime clerical e realinhe o país segundo novas exigências.

Certamente, trata-se também de mais um golpe contra o consenso mundial que sustentava as relações internacionais após o fim da Segunda Guerra Mundial. Esse consenso é mais importante do que a própria estrutura das Nações Unidas; era o cimento que mantinha de pé a construção da ONU.

Estados Unidos e Israel atacaram o Irã para além de seus planos de rearmamento nuclear. Foi porque amadureceram a convicção de que a hidra do extremismo islâmico armado e aterrorizante, que se estendia do Oriente Médio até a Europa e a América, deveria ser atingida em seu coração — o Irã. O plano foi levado adiante sem debates públicos, talvez quase inconscientemente. Afinal, um plano desse tipo, que previa o fim de um regime de potência média como o Irã, não poderia ser enfrentado publicamente.

As implicações disso são amplas. Após a Segunda Guerra Mundial, mundo capitalista e comunista se reconheciam e reconheciam regras de engajamento e de mediação recíproca. A luta total não era frontal, mas confiada a processos de subversão gradual em países de suas respectivas áreas “de competência”. Com o fim da Guerra Fria, os ataques passaram a se limitar a países menores e sempre dentro de parâmetros amplamente aceitos.

A guerra da Rússia contra a Ucrânia e, depois, o ataque do Hamas a Israel mudaram as regras, e Estados Unidos e Israel responderam elevando o nível do confronto.

Há ainda um apêndice: o ataque foi possível porque o Irã não possuía armas nucleares. A Coreia do Norte, que levou adiante seu programa nuclear, hoje pode sentir-se vingada e mais segura do que ontem — aliás, encorajada a ampliá-lo e a não abandoná-lo.

É um novo mundo em que a ONU simplesmente já não existe; é preciso outro espaço de mediação internacional, que talvez devesse nascer sob a égide do papa — uma estrutura diferente e distinta da Santa Sé e de sua diplomacia, mas coerente com ela. É necessário também um novo consenso que sustente essa estrutura.

Essa necessidade parece reforçada por um incidente quase casual, mas constrangedor. O ministro da Defesa, Guido Crosetto, está retido em Dubai, onde chegou poucas horas antes do início do ataque americano. Ou seja, o governo italiano não foi informado pelos aliados. Não está claro por que isso ocorreu, mas certamente é um sinal de grande fragilidade do país como um todo — não se trata de descuido do ministro.

Se a Itália, território onde se encontra a sede do papa, não se reorganizar, há um interesse global em uma espécie de substituição.

Publicado no Appia Institute (aqui).

Leia mais