Quem tem medo da sexualidade? Entrevista com Martin M. Lintner

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20 Fevereiro 2026

O tema é candente e já lhe causou alguns problemas com Roma no passado. Por exemplo, em 2011, quando publicou "La riscoperta dell'eros". E depois, há três anos, quando sua nomeação como reitor do Estudo Teológico Acadêmico de Bressanone foi suspensa pelo Vaticano devido a algumas de suas publicações. A questão foi posteriormente resolvida e o Padre Martin Lintner continua em seu caminho. Seu livro mais recente, direcionado à divulgação, publicado pela San Paolo, intitula-se "Oltre i divieti: la morale sessuale cattolica in via di trasformazione” (Além das proibições: a moral sexual católica em transformação".

A entrevista é editada por Vittoria Prisciandaro, publicada em "Jesus", fevereiro de 2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista. 

Padre Lintner, no livro, o senhor escreve que alguns de seus colegas também foram repreendidos por Roma por terem tratado de moral sexual. Por que decidiu retornar ao tema?

É verdade que, por muito tempo, em nossa Igreja, não foi possível se expressar aberta e livremente sobre temas da moral sexual. Entretanto, as coisas mudaram. Os temas da ética sexual e relacional são profundamente emotivos. Isso se deve, sem dúvida, ao fato de abordarem um aspecto crucial do ser humano, que diz respeito a cada pessoa em um nível muito íntimo. A Igreja se expressou sobre essas questões de maneira rígida e rigorosa, de modo que agora é difícil admitir que houve desenvolvimentos históricos e que está em curso um processo de evolução da doutrina. Minhas motivações pessoais para continuar tratando desse tema são duas: primeiro, gostaria de contribuir para a elaboração do escândalo dos abusos e, segundo, em minha atividade pastoral, encontrei muitas pessoas que foram machucadas pela doutrina católica sobre a sexualidade ou que não obtiveram nenhum benefício dela ao realizar uma abordagem responsável à sua própria sexualidade. Além de contribuir para o desenvolvimento contínuo da doutrina eclesiástica de uma perspectiva teológico-ética, gostaria, portanto, de oferecer a essas pessoas algo que possa ajudá-las.

O subtítulo do livro é "Moral sexual católica em transformação". Que mudanças estão em curso?

Gostaria de enfatizar que não basta mais impor às pessoas, de forma normativa, o que devem ou não fazer. A sexualidade é uma realidade humana muito complexa que vai além da simples genitalidade e da função biológica da fertilidade. Diz respeito à relação com a própria corporeidade, à questão da identidade pessoal e à capacidade de se relacionar e amar.”

A moral sexual é percebida como algo punitivo e invasivo: no confessionário, o padre investiga "sob os lençóis". Uma percepção fundamentada? Com ​​base em que fundamentos históricos e culturais?

Certamente houve casos de abuso da confissão, em que padres perguntaram de forma demasiado precisa se e como uma pessoa havia transgredido o sexto mandamento, que englobava tudo o que está relacionado à sexualidade. Isso nunca deveria ter acontecido. Casos desse tipo ficaram gravados na memória coletiva. Superar tal trauma requer tempo.

As "irregularidades" permeiam as experiências pessoais de quase todas as nossas famílias. Começando até mesmo por aquelas dos Papas. O senhor menciona a avó de Bento XVI...

Sempre houve discrepâncias entre o ideal da doutrina eclesiástica e a realidade concreta das pessoas. A biografia da avó do Papa Bento XVI me impressionou, também porque ela era originária da minha terra natal, o Tirol do Sul, e porque, quando jovem e solteira, acabou engravidando e foi obrigada a ir embora. A gravidez de mulheres solteiras era frequente naquela época, mas ainda assim era considerada uma vergonha para as mulheres e suas famílias, não para os homens que, na maioria dos casos, se livravam da situação sem maiores consequências.

O tema do prazer foi percebido como um pecado. E o casamento serviu para legitimar o exercício da sexualidade. Que danos esse tipo de ensinamento causou? E que leitura se tem do prazer hoje?

Essa visão arruinou o prazer da sexualidade para muitas pessoas, sobrecarregando-as com um forte sentimento de culpa. Hoje, no entanto, o desejo é interpretado como uma experiência que afirma a vida, como energia vital e fonte de bem-estar, como alegria a ser compartilhada com a pessoa amada.

Na Bíblia, alguns episódios pouco conhecidos falam de violências extremas, inclusive textos muito atuais. No entanto, esse tema não é conhecido nem abordado na formação. Por quê?

Esses textos, que às vezes são realmente brutais e repugnantes, acredito que agora são tratados rotineiramente na formação. São textos que espelham como a sexualidade é uma força que pode ser abusada de várias maneiras. O desejo sexual pode levar a cometer atos violentos. No entanto, muitas histórias também demonstram que a sexualidade pode ser abusada como instrumento para exercer poder sobre os outros, para manipulá-los em benefício próprio ou para humilhá-los.

O quanto a moral sexual católica contribuiu para criar uma abordagem não responsável ao tema da educação emocional?

É uma pergunta complexa. A moral sexual tradicional muitas vezes falhou em integrar a sexualidade e a afetividade como componentes positivos da personalidade e permitir que amadurecessem, contribuindo, em vez disso, para torná-las tabu. Por tempo demais acreditamos que proibições e mandamentos fossem suficientes para obter um comportamento moral correto, sem considerar que o mais importante é a formação do caráter como um todo para permitir uma abordagem responsável.

A fixação no binômio prazer-reprodução foi superada?

Sim, pelo menos desde o Concílio Vaticano II. Desde então, a sexualidade passou a ser entendida como linguagem do amor. Também na doutrina matrimonial, a procriação não é mais considerada o objetivo principal, e a comunhão e a união amorosa são colocadas no mesmo plano.

A masturbação não causa cegueira. Mas ainda é pecado?

Com essa 'pedagogia negra', se buscava dissuadir os adolescentes da masturbação, que era considerada um pecado grave. Hoje, a Igreja expressa juízos mais cautelosos. Embora ainda não considere a masturbação uma atividade sexual significativa, já não expressa mais juízos categóricos. Em vez disso, leva em conta as condições de vida e a maturidade afetiva da pessoa.

Em seu texto, o senhor aborda algumas temáticas que foram julgadas sem recurso devido a uma leitura descontextualizada do texto bíblico: homossexualidade, divórcio... "Essas passagens da Bíblia devem ser lidas no contexto de sua época. Frequentemente refletem, sem filtro e de forma acrítica, as condições socioculturais do contexto em que foram escritas e que não podem ser transpostas diretamente para os dias atuais. No Antigo Testamento, os atos homossexuais são uma expressão de comportamentos negativos, como a violação do direito à hospitalidade por meio da violência sexual ou a violação dos papéis sociais de gênero. Jesus rejeita o divórcio, embora no Deuteronômio seja permitido em certos casos, provavelmente para evitar situações de forte desconforto às mulheres ou para protegê-las da pena de morte em caso de adultério. Paulo e Mateus, apesar de conhecerem as palavras de Jesus, permitem a separação e o novo casamento em situações muito específicas, sem acusar as pessoas de adultério.

A misoginia que permeou o magistério, escreve o senhor, ainda hoje influencia o debate sobre o diaconato e a ordenação de mulheres... Pode elaborar mais?

Essa também é uma questão complexa. Nos textos bíblicos, pode-se observar uma evolução que vai do reconhecimento da igual dignidade de todos os seres humanos, independentemente do sexo, à desvalorização da mulher em comparação ao homem, especialmente devido à influência helenística já nos séculos anteriores a Cristo. O papel da mulher na Igreja sempre foi influenciado pelo papel da mulher na sociedade grega e romana antiga, a ponto de a igual dignidade do batismo e da pertença ao corpo místico de Cristo ser obscurecida já nos primeiros séculos. Hoje, devemos nos perguntar se existem razões teológicas para a exclusão das mulheres da ordenação ou se isso é determinado por fatores socioculturais. Muitos elementos depõem a favor da segunda hipótese.

Como os Evangelhos abordam o tema da sexualidade?

Os Evangelhos não dedicam muito espaço a isso. Há afirmações sobre o divórcio e o adultério, e em um trecho fala-se que há pessoas incapazes de casar. Paulo oferece alguma informação a mais: ele adverte contra a fornicação e aconselha aqueles que não conseguem viver em continência a casarem-se, para que não sejam consumidos pelo desejo.

Como o magistério mudou no período pós-Concílio?

Na minha opinião, Paulo VI, infelizmente, não conseguiu dar uma grande contribuição para a recepção positiva da virada do Vaticano II: o acolhimento da encíclica Humanae Vitae foi bastante controverso. João Paulo II, com suas catequeses sobre a teologia do corpo, falou uma linguagem nova e acolhedora, mesmo que, em termos normativos, não tenha alterado nada. Bento XVI demonstrou mais pragmatismo em algumas questões e, ao mesmo tempo, pôs menos ênfase sobre as questões normativas, concentrando-se mais na conduta e no estilo de vida. O Papa Francisco abordou decisivamente as questões abertas, por meio dos dois Sínodos sobre a Família e da exortação apostólica Amoris Laetitia. O que o distinguiu acima de tudo foi o saudável realismo com que abordou o tema da sexualidade, da afetividade e das relações.

Ainda carregamos a ferida da Humanae Vitae...

Até mesmo Bento XVI admitiu ter tido dificuldades com a Humanae Vitae quando jovem teólogo. Ainda hoje, debate-se se a encíclica traiu ou fortaleceu a doutrina do Concílio Vaticano II sobre o matrimônio. Durante décadas, o debate foi impedido, mas hoje se fala a respeito abertamente.

Qual foi a novidade do Papa Francisco?

Ele se recusou a reduzir o texto à mera norma de proibição da contracepção artificial. Em suma, ele se perguntou como acompanhar de forma melhor e com mais credibilidade as pessoas em sua jornada de amadurecimento no amor e nas relações, levando em conta também as fragilidades humanas.

Como lidar com os estudos de gênero e a teologia queer, que parecem assustar tantos?

Nada do que é humano deve nos ser estranho. Devemos receber os conhecimentos das ciências humanas, naturalmente com toda a cautela necessária para evitar restrições ideológicas. No entanto, elas nos ensinam algo sobre os seres humanos, aos quais queremos render justiça.

O senhor escreve que no centro está o farol da dignidade da pessoa. O que quer dizer?

Dignidade da pessoa significa perceber e proteger sua integridade física e psíquica. Significa reconhecer e proteger sua vulnerabilidade, reconhecê-la em sua identidade e capacitá-la a se desenvolver de forma responsável para poder viver sua sexualidade de forma responsável, tanto em relação a si mesmo quanto às outras pessoas.

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