19 Fevereiro 2026
"A história das instituições de ensino demonstra que as grandes inovações tecnológicas nunca eliminaram essa necessidade, mas a transformaram. A imprensa não apagou a universidade medieval; ela a redefiniu. A disseminação da internet não tornou a pesquisa supérflua, mas multiplicou seus contextos. A inteligência artificial também está caminhando nessa direção".
O artigo é de Massimiliano Padula e Giovanni Tridente, professores da Pontifícia Universidade Lateranense e Pontifícia Universidade da Santa Cruz, respectivamente, publicado por Settimana News, 14-02-2026.
Eis o artigo.
Em meio à discussão avassaladora sobre inteligência artificial, o artigo de Carl Raschke, publicado em 9 de fevereiro neste portal, se destaca. Primeiro, pelo rigor argumentativo demonstrado pelo filósofo e teólogo americano, especialmente no que diz respeito à desconstrução da experiência acadêmica provocada pela inteligência artificial. E segundo, pelo uso hábil de duas metáforas — dinossauro e asteroide — com as quais Raschke descreve o mundo acadêmico e o poder transformador da IA.
A essas duas imagens, claramente desequilibradas em direção a um mecanismo de destruição e amplamente utilizadas em filmes de desastre e cinema distópico, queremos acrescentar uma terceira: "revelação".
Porque, embora a IA seja assustadora, mude as regras do jogo e destrua certezas, ela também revela quem somos e, com isso, as instituições que representamos. Isso inclui o meio acadêmico, onde testemunhamos cada vez mais uma desconstrução dos modelos tradicionais baseados na transmissão de conteúdo, avaliações padronizadas e qualificações acadêmicas como principal indicador de competência para o mercado de trabalho.
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Este é um diagnóstico verdadeiro, que revela sintomas que merecem atenção, e não apenas defesas corporativas ou, pior ainda, resistência evasiva. Uma possível solução reside na conclusão do pesquisador: na era da IA, o pensamento crítico, o julgamento ético, a capacidade de questionar e a integração do conhecimento tornam-se fundamentais. Nesse sentido, sua proposta de transformação humanística da universidade atende a uma necessidade real.
Contudo, entre o diagnóstico e a proposta, há outro elemento que merece discussão: o quadro interpretativo. A universidade é descrita como um "dinossauro" e a IA como um "asteroide", uma força externa que sobrecarrega um ecossistema fadado à extinção. Apesar da imagem impactante, corre-se o risco de que ela nos induza a uma compreensão equivocada da transformação em curso.
Falar em extinção evoca processos naturais inevitáveis, como se as universidades fossem espécies biológicas em vez de instituições históricas e culturais. Mas as instituições não desaparecem por impacto cósmico: elas se transformam por meio de decisões, visões, políticas e responsabilidades.
A inteligência artificial não é um tema histórico. Ela não define objetivos educacionais, currículos ou estabelece o que vale a pena ensinar. Ela é, parafraseando Luciano Floridi, parte de um ecossistema "onlife" no qual tecnologia e sociedade se codeterminam. Se um determinado modelo universitário parece estar em dificuldades hoje, é também porque ele já havia sido reduzido, em muitos contextos, à mera transmissão de conteúdo e distribuição de diplomas. A IA não cria essa fragilidade: ela a torna visível, ela a revela.
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Do ponto de vista da produção de conteúdo, a mudança é evidente: à medida que produzir textos, explicações e resumos se torna cada vez mais fácil, o valor se desloca, mudando de direção. Não reside mais no acesso à informação, mas na capacidade de interpretá-la, avaliá-la, conectá-la e assumir a responsabilidade por ela.
Quanto mais automatizada se torna a produção de conteúdo, mais valiosa se torna a mediação humana. Essa mudança não elimina a necessidade de universidades, mas simplesmente redefine sua função. Porque (e vale sempre a pena enfatizar), a academia não é apenas uma provedora de serviços educacionais ou um processo de certificação. São instituições que legitimam o conhecimento, as comunidades epistêmicas, as linguagens compartilhadas e os critérios de validade. Mesmo quando parecem burocráticas, desempenham um papel fundamental na mediação entre o conhecimento e a sociedade.
A história das instituições de ensino demonstra que as grandes inovações tecnológicas nunca eliminaram essa necessidade, mas a transformaram. A imprensa não apagou a universidade medieval; ela a redefiniu. A disseminação da internet não tornou a pesquisa supérflua, mas multiplicou seus contextos. A inteligência artificial também está caminhando nessa direção.
O sociólogo espanhol Manuel Castells demonstrou como, em sociedades em rede, o poder reside não apenas no acesso à informação, mas também na capacidade de dar sentido aos fluxos de informação. Essa é uma função tipicamente cultural, e não meramente técnica. Sem espaços onde o conhecimento seja discutido, criticado e validado, a abundância de informação corre o risco de se traduzir em fragmentação e desorientação.
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Por essa razão, na era STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), o papel essencial das humanidades e das ciências sociais ressurge. Elas não devem ser consideradas uma relíquia do passado, mas sim a bússola para compreender e gerir a transformação. Não porque se oponham à tecnologia, mas porque se tornam ferramentas para compreender seus contextos, significados e consequências.
Em uma única expressão (pouco acadêmica), "porque nos ajudam a usar a IA melhor".
A inteligência artificial, portanto, não sinaliza o fim da academia. Em vez disso, marca o fim da ilusão: a de que as universidades podem simplesmente transferir conteúdo e distribuir diplomas de acordo com a lógica de um recipiente cheio. O desafio não é sobreviver a um impacto (de um asteroide), mas assumir a responsabilidade por uma transformação cultural.
A tecnologia não "salvará" as universidades forçando-as a mudar. São as próprias universidades, redescobrindo sua vocação humanística, social e cultural, que podem moldar a forma como a IA entra no processo educacional.
Mais do que um asteroide, a IA é um espelho. E o que ela reflete também depende de como escolhemos nos enxergar. Seja como dinossauros ou — esperemos — como mulheres e homens capazes de se adaptar à complexidade da vida contemporânea.
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