Diplomacia como transfiguração. Artigo de Antonio Spadaro

Foto: Ahmad Dirini/Unsplash

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09 Fevereiro 2026

" A diplomacia deve contrariar essa tendência, rejeitando hierarquias de dor, insistindo no rosto concreto das vítimas e recorrendo a gestos simbólicos que restaurem a religião à sua função mais autêntica: desarmar a absolutização da identidade", escreve Antonio Spadaro, jesuíta e ex-diretor da revista La Civiltà Cattolica, em artigo publicado por L’Osservatore Romano, 22-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

“Não desejar o desaparecimento de nossas misérias, mas sim a graça que as transfigure.” Em A Gravidade e a Graça, Simone Weil atribui a essa frase uma regra exigente: não buscar atalhos que apaguem o mal, mas aprender a tolerá-lo até mudar o seu sentido. É uma disciplina do olhar, antes mesmo de um princípio espiritual. E pode se tornar, surpreendentemente, uma chave para compreender a diplomacia em seu significado mais profundo. A diplomacia nunca foi meramente a arte do compromisso ou a gestão elegante das relações de força. Trata-se, antes, de uma prática de transformação: um exercício lento e muitas vezes longe dos holofotes, por meio do qual o conflito não é eliminado, mas sim libertado de sua inércia destrutiva e traduzido em linguagem, gesto, forma.

Falar de diplomacia como "transfiguração" significa reconhecer que ela opera segundo uma lógica análoga à da Transfiguração narrada nos Evangelhos: um evento que não interrompe a jornada rumo à cruz, não elimina o conflito nem suspende a história, mas que, por um instante, revela seu sentido. No monte, a marcha para Jerusalém não é abolida, nem a violência iminente é neutralizada; o que muda é a percepção do que está em jogo. De modo semelhante, na prática diplomática, a transfiguração não coincide com a resolução imediata das crises, mas com a capacidade de resgatá-las de sua deriva absolutista. Nesse sentido, a graça evocada por Simone Weil não é um elemento alheio à política, mas o nome daquela força frágil que permite que as relações internacionais não sejam inteiramente governadas pela lógica da força, mantendo aberto um espaço de palavra, de tempo e de responsabilidade compartilhada.

No léxico clássico das relações internacionais, a diplomacia aparece como uma técnica: negociar, mediar, conter, dissuadir. Contudo, por trás dessa superfície procedural reside uma dimensão mais profunda: a capacidade de transformar o próprio significado de uma relação. Onde o imaginário do inimigo domina, a diplomacia introduz a possibilidade do interlocutor; onde tudo parece se resumir a interesses concorrentes, abre um espaço no qual uma narrativa diferente pode emergir, uma narrativa não imediatamente funcional, mas humana. É, nos termos de Weil, uma forma não de sonhar com o desaparecimento dos conflitos, mas de desejar sua transformação.

Nesse sentido, a diplomacia opera no tempo. Não no tempo acelerado das decisões instantâneas, nem no tempo espetacular das declarações públicas, mas num tempo que poderíamos definir como "intermediário". A transfiguração não ocorre por meio de uma ruptura repentina, mas por deslocamento progressivo. A graça não apaga a miséria, mas a atravessa.

Essa dimensão se torna evidente se observarmos a diplomacia não como um simples instrumento de poder, mas como uma prática simbólica. Todo encontro diplomático encena um ritual: locais neutros, fórmulas moderadas, linguagens calibradas. Nada é acidental. Esses rituais buscam conter o excesso de violência e oferecer-lhe uma forma. A forma, aqui, não é ornamentação, obviamente: é o que impede o conflito de transbordar, sem pretender negar sua existência.

Mesmo quando a diplomacia é entendida de forma desencantada — com o realismo estratégico que pensa um equilíbrio instável entre interesses nacionais —, aflora implicitamente a ideia de que ela serve para transformar a força em ordem, a ameaça em sistema, o medo em cálculo. A transfiguração, nesse caso, não é moral, mas estrutural: a violência não desaparece, mas muda de status. Não é expulsa da história, é tornada habitável.

No cenário geopolítico atual, marcado por guerras prolongadas, tensões regionais e um renovado recurso à lógica da força, essa visão é uma resposta à crise da própria política. Enquanto organismos multilaterais se desdobram para lidar com conflitos que parecem se alastrar como rachaduras subterrâneas, a diplomacia é chamada de volta à sua forma mais autêntica: aquela que não coloca posições de poder acima da dignidade das pessoas e não rejeita a existência do outro como interlocutor. Justamente a fragilidade de uma ordem internacional abalada pelo uso recorrente da violência ressalta a urgência de uma diplomacia que não sonha com o desaparecimento impossível de todas as misérias do mundo, mas tenta transformá-las.

A diplomacia não é mera tática, mas — como o Papa Francisco repetidamente afirmou — um exercício de misericórdia aplicado à política internacional; uma diplomacia da misericórdia que pretende manter aberta a porta do diálogo mesmo quando a polarização parece torná-lo impossível. É uma prática que assume o conflito como uma realidade, sem o absolutizar.

Essa abordagem tem um caráter "profético", que não busca impor uma visão única, mas sim desenvolver visões originais e criativas capazes de gerar processos novos e sustentáveis. As crises contemporâneas, da guerra na Ucrânia aos conflitos no Oriente Médio, passando pelas tensões latentes na África, Ásia e outros lugares, não são apenas disputas territoriais ou lutas pelo poder: são feridas profundas no tecido da convivência humana. Nesses cenários, a diplomacia não se limita a "resolver" o conflito, mas tenta transformá-lo, decifrando as razões profundas da divergência e abrindo espaço para a dignidade do outro.

Essa visão também se fundamenta na convicção de que o conflito não deve ser negado ou reprimido, mas reconhecido e transcendido. Aceitar as tensões como elemento constitutivo da história humana, sem se deixar aprisionar por elas, significa, mais uma vez, renunciar à ilusão do desaparecimento e apostar num trabalho mais lento, mais frágil e mais exigente.

Numa época dominada pela retórica da rapidez e das respostas imediatas, em que a opinião pública e os governos muitas vezes medem a "força" política pela capacidade de impor condições, a diplomacia como transfiguração convida à lentidão, ao cuidado e a uma visão ampla. Concebida dessa forma, a diplomacia não é um simples instrumento de ordem internacional, mas um laboratório de significados. Requer a capacidade de escutar, de sustentar o peso das diferenças, de manter o diálogo aberto mesmo quando se mostra difícil. Num mundo marcado por múltiplas tensões e pela persistente fragilidade das instituições globais, essa forma de diplomacia oferece não um atalho, mas um caminho possível para transformar a lógica da oposição num diálogo contínuo e criativo. É aqui, nessa tensão transformadora, que a diplomacia como transfiguração se torna necessária para o futuro da convivência humana, uma chave interpretativa concreta para a compreensão de alguns dos conflitos mais dilacerantes do nosso tempo. Indica um método: transformar a própria maneira como o conflito é vivenciado e narrado.

O caso venezuelano ilustra isso de forma particularmente clara. Durante anos, o país foi esmagado por sanções, isolamento, retóricas opostas e o empobrecimento progressivo de sua população. Nesse contexto, a ação diplomática da Santa Sé não se configurou como arbitragem técnica nem como legitimidade política, mas sim como uma presença constante, mesmo quando o diálogo parecia esgotado. Cortar todos os canais teria significado condenar definitivamente a sociedade à polarização. Aqui, a diplomacia não transfigura o conflito resolvendo-o, mas impedindo que ele se torne total: mantém uma margem de diálogo, um limiar mínimo de confiança, uma possibilidade de um futuro que não coincide com o presente.

Na tragédia palestina, a diplomacia como transfiguração assume um caráter ainda mais radical, pois toca o delicado entrelaçamento entre religião, território e identidade. O risco constante é a sacralização do conflito: Deus transformado em justificação, a fé reduzida a uma bandeira. A diplomacia deve contrariar essa tendência, rejeitando hierarquias de dor, insistindo no rosto concreto das vítimas e recorrendo a gestos simbólicos que restaurem a religião à sua função mais autêntica: desarmar a absolutização da identidade. Não se trata de resolver a disputa territorial, mas de impedir que ela se transforme em uma guerra metafísica.

Na guerra da Ucrânia, a tentação é dupla: reduzir tudo a uma lógica militar ou invocar uma paz abstrata que escapa à justiça. A postura adequada é a do não alinhamento ético: não equidistância, mas a rejeição de uma narrativa que torne o futuro impossível. Essa diplomacia não nos pede para esquecer a agressão, mas sim para não transformar a guerra em destino, mantendo unido o que a política tende a separar: verdade e diálogo, denúncia e escuta.

Quando a política perde sua imaginação e a guerra se torna linguagem comum, a diplomacia não promete deter a marcha da história nem apagar suas feridas; contudo, oferece luz suficiente para garantir que aquele caminho não seja confundido com um destino cego. É nessa capacidade de navegar pelo conflito sem o absolutizar que a diplomacia, como espaço para a metamorfose do sentido, permanece um dos últimos redutos onde o futuro ainda pode ser concebido como uma responsabilidade compartilhada.

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