24 Janeiro 2026
"Maria é a imagem da Igreja, disse o Concílio. Ela é a imagem do Povo de Deus redimido, salvo, libertado, curado e reconciliado. Uma promessa para mulheres e homens", escreve Hendro Munsterman, em artigo publicado por America, 20-01-2026.
Hendro Munsterman é um teólogo católico que lecionou teologia dogmática em Grenoble e Lyon (França). Atualmente, trabalha em Roma como correspondente do Vaticano para o jornal holandês Nederlands Dagblad.
Eis o artigo.
Maria não é nem “Corredentora” nem “Mediadora de Todas as Graças”. Embora esses títulos tenham sido usados por séculos na Igreja Católica — chegando até mesmo a aparecer em escritos papais —, a Igreja declarou oficialmente, em novembro passado, que são enganosos . Por quê? Talvez porque a linguagem mariana tenha sido, por vezes, distorcida por uma linguagem tendenciosa sobre o Deus trino.
Para os fiéis que se apegaram a tais títulos, essa conclusão é amarga de engolir. De certa forma, esses fiéis se tornaram vítimas de certos ideólogos que, movidos por sentimentos antiprotetantes ou nostalgia pré-conciliar, buscaram reimpor um estilo mariológico do século XIX. Resta saber se esses teólogos, bispos e outros clérigos se dão conta do impacto que provocam nas mentes e nos corações de muitos fiéis.
Mas qual é a origem desses títulos? E como eles se enraizaram no discurso mariano ao longo dos séculos?
Ao analisarmos dois milênios de reflexão sobre o lugar de Maria na história da salvação e na espiritualidade cristã, podemos discernir duas causas principais — ambas expressões do que chamo de “mariologia compensatória”. Primeiro, nossa compreensão de Cristo passou a se concentrar exclusivamente em sua divindade; segundo, Deus foi apresentado de forma unilateral, como masculino.
Um mediador provisório
Durante o primeiro milênio, Maria era geralmente vista como uma imagem da Igreja e como membro dela. Dentro da Igreja, ela ocupava um lugar único, e seu papel na história da salvação é absolutamente singular — mas ela ainda assim “permanecia ao nosso lado” porque também foi redimida por Cristo.
O teólogo francês Yves Congar, OP, mostrou em sua breve, porém importante obra de 1952, Le Christ, Marie et l'Église, que essa perspectiva começou a mudar por volta do século XI. Cada vez mais, Maria passou a ocupar um lugar “acima da Igreja”, entre a humanidade e Cristo.
A partir da Alta Idade Média, o termo Redemptrix passou a ser usado para Maria, um título que, felizmente, a partir do século XV, foi sendo cada vez mais substituído por Co-Redemptrix. No entanto, este título também é problemático, uma vez que o prefixo “co-” pode ser usado tanto de forma coordenativa (como em co-presidente ) quanto de forma subordinativa (como em co-piloto).
Segundo Congar, o lugar atribuído a Maria como Medianeira e Corredentora deveu-se em grande parte ao declínio da consciência do dogma do Concílio de Calcedônia, que afirmava que Cristo é plenamente Deus e plenamente humano. Com o tempo, Cristo passou a ser visto cada vez mais exclusivamente como divino, e sua humanidade foi relegada a um segundo plano.
Em 451, Calcedônia sustentava que Cristo havia reconciliado o humano e o divino em si mesmo. Portanto, como diz a Primeira Carta a Timóteo (2:5), ele é “o único Mediador entre Deus e a humanidade”. Isso se reflete na doutrina católica, que ensina que, embora peçamos a Maria e aos santos que intercedam por nós, que orem em nosso favor, Cristo permanece o único redentor e mediador entre o humano e o divino.
Mas quando a humanidade desse “único Mediador” é esquecida — quando ele é, por assim dizer, exaltado — abre-se um abismo entre Deus e a humanidade. No segundo milênio, esse espaço vazio passou a ser preenchido com cada vez mais frequência pelos santos e, naturalmente, por Maria.
Assim, ela adquiriu títulos como Medianeira e Corredentora — como se o próprio Cristo fosse um obstáculo intransponível. Congar escreveu sobre “um Cristo tão inteiramente divino, tão exaltado, que parece distante, e sentimos a necessidade de uma mediação de Maria entre ele e nós”.
Essa “mariologia maximalista” atingiu seu ápice no que os mariólogos chamam de “Era Mariana”, aproximadamente de 1830 a 1950. Sob o lema “De Maria nunquam satis” (“De Maria, nunca é suficiente”), os teólogos inventaram novas festas, novos dogmas, novos títulos. Congar falou de uma “mariologia galopante” fora de controle, e o grande mariólogo, o padre René Laurentin, comparou seu desenvolvimento maximalista a doenças patológicas.
O Concílio Vaticano II, no entanto, pôs fim a essa tendência. Embora vários padres conciliares tenham defendido novos dogmas marianos, uma votação dramática em 29 de outubro de 1963 impediu que isso acontecesse.
A questão daquele dia — se o Concílio deveria redigir um documento separado sobre Maria ou integrar sua pessoa e papel na “Lumen Gentium”, a Constituição Dogmática sobre a Igreja — não era meramente técnica ou editorial. Por trás dela, havia uma questão mais profunda: Maria está acima da Igreja ou dentro dela? Ela está ao lado dos redimidos (embora de forma excepcional) ou ao lado do Redentor? Ou, em outras palavras: Maria é a imagem de Cristo (uma mariologia “maximalista”, cristotípica ) ou a imagem e membro da Igreja (uma mariologia “minimalista”, eclesiotípica )?
Por uma margem mínima — apenas 0,4% — os reformadores prevaleceram, inspirando-se nas Escrituras, nos padres da Igreja e na mariologia do primeiro milênio. O que o Vaticano II ensina sobre Maria é agora o oitavo capítulo da “Lumen Gentium” e um dos documentos mais importantes do Concílio. Os padres do Concílio a chamam de “membro preeminente e singular da Igreja, e como seu tipo e excelente exemplo de fé e caridade”. Aqueles que ainda hoje defendem os títulos de Corredentora ou Medianeira são, portanto, muitas vezes nostálgicos da “Era Mariana” pré-conciliar. Eles também costumam rejeitar, implícita ou explicitamente, outras reformas do Vaticano II.
Uma imagem feminina de Deus
Mas há mais. Ao longo da história da Igreja, Maria não apenas "compensou" uma imagem excessivamente divina de Cristo; ela também compensou uma imagem excessivamente masculina de Deus.
Deus é Pai, mas as Escrituras e o Catecismo da Igreja Católica testemunham que Deus também possui qualidades maternas.
“A ternura paternal de Deus também pode ser expressa pela imagem da maternidade”, diz o catecismo. “Devemos, portanto, recordar que Deus transcende a distinção humana entre os sexos. Ele não é homem nem mulher: Ele é Deus. Ele também transcende a paternidade e a maternidade humanas, embora seja a sua origem e medida: ninguém é pai como Deus é Pai” (n.º 239).
O catecismo chega a incluir notas de rodapé em diversas passagens bíblicas nas quais Deus é descrito com imagens femininas.
Quando Deus é imaginado exclusivamente como um pai severo e patriarcal, Maria facilmente começa a funcionar como "uma espécie de 'para-raios' diante da justiça do Senhor, como se ela fosse uma alternativa necessária diante da insuficiência da misericórdia de Deus", como observa o Dicastério para a Doutrina da Fé.
Assim, compreendemos o que está em jogo: quem não compreende quem é Deus, inevitavelmente não compreenderá quem é Maria.
Uma dinâmica semelhante ocorre com a “terceira Pessoa” da Santíssima Trindade, o Espírito Santo. Em hebraico, a palavra para espírito (ruach) é feminina; na tradução grega da Bíblia, tornou-se pneuma (neutra); mais tarde, em latim (spiritus), masculina. No entanto, a tradição bíblica aponta para o fato de que o Espírito de Deus foi originalmente concebido em termos femininos. Ao longo da história, o Espírito — e, portanto, Deus — foi masculinizado.
O padre Congar, em sua obra magna sobre o Espírito Santo, observou que os cristãos siríacos, desde o início, chamavam o Espírito de "nossa Mãe".
O padre Laurentin observou corretamente que, na verdade, somente do Espírito Santo se poderia dizer que “ela” é Corredentora. Mais uma vez, Maria compensa o que foi esquecido em nossa compreensão de Deus.
Contudo, ao lado do “maximalismo conservador” da Era Mariana — e daqueles que gostariam de retornar a ela — surgiu nas últimas décadas um novo “maximalismo progressista”.
Algumas teólogas feministas, em seus esforços justificados em prol da igualdade de gênero, defenderam o título Corredentora precisamente porque ele colocaria uma figura feminina ao lado do Redentor masculino.
O teólogo da libertação Leonardo Boff também pensava dessa forma. Ele falava de “Maria como a face feminina de Deus” e até mesmo de Maria como “a encarnação do Espírito Santo”.
Aqui também encontramos uma forma de compensação. É compreensível, visto que o cristianismo ainda carrega as feridas das estruturas patriarcais em que surgiu e das quais ainda não foi completamente curado. Contudo, a feminilidade já existe em Deus, e a Encarnação diz respeito a Cristo tornando-se humano (homo), não meramente masculino (vir) — embora o tenha feito de maneira masculina.
Mas quando subestimamos a humanidade de Cristo ou enfatizamos demais a masculinidade de Deus, outras dimensões são deixadas de lado. Esses elementos reprimidos buscam uma válvula de escape — e na tradição católica, essa válvula muitas vezes tem sido encontrada em Maria.
Durante a Era Mariana, os teólogos gostavam de dizer que Maria era a Rainha do Céu e que cada nova festa, dogma ou título era mais uma joia acrescentada à sua coroa. Mas, com o tempo, essa coroa tornou-se pesada demais.
Tanto no lado conservador quanto no progressista, Maria é, em certa medida, deificada. A menina de Nazaré certamente coçaria a cabeça coroada em espanto.
Como devemos falar de Maria hoje? O texto recente do Dicastério para a Doutrina da Fé oferece uma bela definição: “A Bem-Aventurada Virgem Maria é a expressão mais perfeita da ação de Cristo que transforma a nossa humanidade. Ela é a manifestação feminina de tudo o que a graça de Cristo pode realizar num ser humano.”
Se compreendermos Maria desta forma, podemos imaginar que cada ícone de Maria é como um espelho para nós. Quando nós, como cristãos, a contemplamos, vemos como Deus deseja redimir cada ser humano. Compreendemos que, como ela, somos convidados a dizer “sim” à proposta de Deus de curar nossa existência e nossa humanidade. Nela, vemos a plenitude daquilo que Ele já começou em nós — e que, em Cristo, um dia será levado à perfeição.
Maria é a imagem da Igreja, disse o Concílio. Ela é a imagem do Povo de Deus redimido, salvo, libertado, curado e reconciliado. Uma promessa para mulheres e homens. E um convite para dizer “sim”, repetidamente, ao Deus trino, pai e mãe, que nos convida a acolhê-lo para que possamos nos tornar portadores em um mundo que precisa desesperadamente de Cristo — porque precisa de redenção, reconciliação e cura.
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