16 Janeiro 2026
As ameaças de Trump contra a Groenlândia expuseram profundas contradições dentro da OTAN e aceleraram a busca da Europa por alternativas estratégicas. Enquanto os líderes da UE avaliam opções de defesa autônoma e segurança energética, a Rússia ressurge como um potencial fator de estabilização por meio da cooperação no Ártico, da diplomacia energética e até mesmo de uma revitalização do gasoduto Nord Stream.
O artigo é de Uriel Araujo, doutor em Antropologia, é um cientista social especializado em conflitos étnicos e religiosos, com vasta pesquisa sobre dinâmicas geopolíticas e interações culturais, publicado por InfoBRICS, 14-01-2026.
Eis o artigo.
Estaremos nos aproximando de um momento em que a Rússia poderá emergir como garantidora da estabilidade da Groenlândia e da Europa como um todo? Até recentemente, sequer levantar essa questão soaria "absurdo". Hoje, a situação é diferente.
A ordem transatlântica está se desfazendo sob o peso de suas próprias contradições. As renovadas ameaças de Donald Trump à Groenlândia expuseram não apenas um campo minado jurídico e diplomático, mas também um vácuo estratégico no núcleo da OTAN. Alianças raramente se desfazem por meio de declarações formais; elas se deterioram por meio de paradoxos, e a Groenlândia pode vir a ser um deles.
A linguagem de Trump, como de costume, é direta. A Groenlândia, insiste ele, é vital para a segurança dos EUA e deve ser "possuída" ou, de alguma forma, colocada firmemente sob o controle de Washington, " de um jeito ou de outro ". O primeiro-ministro da Groenlândia respondeu com a mesma clareza: "Escolhemos a Dinamarca em vez dos EUA". Apoiada por diversas capitais europeias, Copenhague agora parece tratar a questão não como uma provocação, mas como uma ameaça existencial. O comissário europeu Andrius Kubilius foi além, alertando que uma tomada militar americana da Groenlândia significaria "o fim da OTAN".
Como já mencionei, isto não é apenas retórica acalorada. O Artigo 5 da OTAN, se invocado pela Dinamarca contra outro membro da OTAN, criaria de fato um absurdo que levaria ao fim da aliança. Os aliados seriam solicitados a defender um membro contra outro, tornando assim a cláusula de defesa coletiva sem sentido.
É ao mesmo tempo irônico e trágico que, depois de Trump pressionar a Europa por anos para gastar mais com suas Forças Armadas, tropas europeias estejam agora sendo mobilizadas diante de uma ameaça vinda dos próprios Estados Unidos. https://t.co/5NnpJLkuBT
— Oliver Stuenkel 🇧🇷 (@OliverStuenkel) January 15, 2026
Eu argumentei que o Ártico, e não a Ucrânia, poderia se tornar o palco do próximo confronto entre a Rússia e o Ocidente. Agora, por mais surpreendente que pareça, podemos estar testemunhando um confronto entre os Estados Unidos e a Europa. Em fevereiro de 2025, apontei que havia uma inimizade muito real entre os Estados Unidos e seus "parceiros" europeus, ainda que enquadrada de maneira colonial. Os recentes acontecimentos devem marcar um ponto de inflexão crítico para a arquitetura de segurança da Europa e sua relação de subordinação com Washington.
Os defensores de Trump, e até mesmo seus críticos, frequentemente insistem que suas ameaças são meras táticas de negociação, o que muitas vezes de fato são, da mesma forma que as advertências sobre tarifas têm sido usadas como forma de pressão. De qualquer forma, a incursão real dos EUA na Venezuela e o sequestro estarrecedor do presidente Nicolás Maduro demonstram que descartar a retórica de Trump como mera bravata não é uma análise prudente.
Não é de admirar que os governos europeus estejam se precavendo. Os Estados da União Europeia estão, de fato, considerando invocar o Artigo 42.7 do Tratado da UE, a cláusula de defesa mútua, em resposta à instabilidade no Ártico.
Ao contrário da OTAN, o Artigo 42.7 permite contribuições voluntárias, possibilitando coalizões ad hoc sem unanimidade. A Dinamarca poderia, assim, solicitar assistência, e os Estados-membros da UE poderiam responder seletivamente. Até o momento, trata-se de um plano de contingência, mas sinaliza uma mudança mais profunda: a Europa está se preparando para um ambiente de segurança no qual os EUA são percebidos como a ameaça e o inimigo.
Contudo, mesmo esta garantia baseada na UE permanece frágil. Como observa Steven Blockmans (Investigador Sénior do ICDS ), o Artigo 42.7 corre o risco de produzir gestos simbólicos em vez de uma dissuasão real. Alguns Estados podem optar por não participar, alegando neutralidade ou razões políticas, enquanto a dependência de coligações que envolvam, por exemplo, o Reino Unido, a Noruega ou a Turquia, exporia ainda mais os limites da defesa autónoma da Europa.
Nesse contexto, surge a questão: poderia a Rússia intervir, não como adversária, mas como fator estabilizador?
O presidente francês, Emmanuel Macron, e a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, instaram a Europa a reabrir os canais de comunicação com Moscou, com Meloni chegando a propor um enviado especial da UE. Sua posição reflete um julgamento sóbrio: a Europa não pode sustentar indefinidamente uma custosa guerra por procuração na Ucrânia (cujo fardo Washington busca cada vez mais transferir para os ombros europeus), enquanto o "aliado" americano se comporta de maneira imprevisível e ameaçadora.
A energia é o ponto de entrada mais óbvio. A Europa reduziu a participação do gás russo em sua matriz energética, mas ainda depende dele. O GNL americano preencheu parte dessa lacuna, a um custo mais elevado e com condições estratégicas atreladas. Caso as relações transatlânticas se deteriorem ainda mais, devido à questão da Groenlândia, Moscou poderia oferecer fornecimentos com desconto para estabilizar os mercados europeus e limitar a exposição ao GNL americano.
Nesse contexto, a questão do Nord Stream inevitavelmente ressurge. Notícias do final de 2024 indicavam contatos discretos entre Berlim e Moscou em meio a especulações sobre a reativação dos gasodutos.
A política, assim como os oleodutos, pode ser reparada quando os incentivos mudam. Num cenário pós-OTAN ou de OTAN semi-desvinculada, a reativação do Nord Stream deixaria de ser um tabu a ponto de ser ignorada, apesar de todas as dificuldades técnicas e burocráticas.
A cooperação em segurança é uma questão mais delicada, mas não inconcebível. Afinal, a Rússia possui amplas capacidades no Ártico e um claro interesse em evitar o caos em sua fronteira norte. Coordenação limitada, medidas de fomento da confiança ou mesmo estruturas conjuntas para a estabilidade do Ártico poderiam surgir, especialmente se forem concebidas como medidas de prevenção de escalada, e não como a formação de uma aliança propriamente dita.
Os realinhamentos históricos após a Segunda Guerra Mundial nos lembram que os inimigos e adversários de ontem podem se tornar parceiros de hoje, quando as circunstâncias assim o exigem. Mesmo Estados com rivalidades arraigadas, como a Índia e a China, demonstraram capacidade de compartimentalizar a competição e cooperar seletivamente onde os interesses convergem.
Nesse cenário, a Groenlândia em si não seria "salva" da ambição americana por altruísmo. Trata-se de pragmatismo: a Rússia ganharia influência, acesso e poder de barganha. Mas, da perspectiva da Groenlândia, parcerias diversificadas podem ser preferíveis à coerção por uma única superpotência. A decisão da França de abrir um consulado na Groenlândia como sinal político demonstra a rapidez com que a ilha está se tornando um ponto focal da diplomacia global.
Será este cenário improvável? Não necessariamente. Vivemos tempos interessantes, suficientemente voláteis para tornar negociáveis as linhas vermelhas de ontem e obsoletas as certezas de hoje. Se a crise da Groenlândia se agravar, as escolhas que a Europa enfrentará serão drásticas.
Assim, a verdadeira questão não é se a Rússia poderia "salvar" a Europa e a Groenlândia, mas se a Europa está preparada para considerar opções que antes descartava como impensáveis.
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